"Falemos de Amor... ou da Relação Mais Duradoura da Europa"

Ainda a propósito do Mundial, confesso que ando fascinada pela Noruega.

Não apenas pelo futebol, mas por aquele extraordinário cerimonial viking. Há qualquer coisa de profundamente bonita em ver um povo inteiro a remar em uníssono. Remam os jogadores, remam os adeptos, remam as crianças, remam os idosos, remam nas ruas, nos centros comerciais... Tenho para mim que, se por lá passar um carrinho de supermercado, alguém lhe pega e começa a remar também.

É impossível não sorrir.

Mas, pensando melhor, talvez este fascínio entre Portugal e a Noruega não tenha começado agora.

Na verdade, suspeito que esta história de amor já dura há muitos séculos.

Imagino o primeiro encontro.

Portugal apareceu primeiro. Como sempre, um pouco atrasado, mas convencido de que um sorriso resolveria qualquer contratempo.

Trazia o Atlântico nos olhos, cheiro a maresia, azeite nas mãos e aquela extraordinária capacidade portuguesa de transformar um desconhecido em amigo antes da sobremesa.

A Noruega surgiu envolta em neve, fiordes, montanhas e naquele silêncio elegante que só os povos habituados a longos Invernos conseguem compreender.

Olharam-se.

Portugal pensou:

— Coitada... deve ter frio.

A Noruega respondeu, em silêncio:

— Coitado... ainda não descobriu um bom casaco.

E foi amor.

Não daqueles amores tempestuosos que a literatura insiste em romantizar.

Foi um amor sereno.

Maduro.

Daqueles que se constroem sem alarido e resistem ao tempo.

Até que um dia a Noruega fez aquilo que continua, ainda hoje, a surpreender muita gente.

Ajoelhou-se sobre uma enorme rocha junto a um fiorde.

Abriu cuidadosamente uma pequena caixa de madeira.

Portugal prendeu a respiração.

Esperava um anel.

Encontrou... um bacalhau.

E emocionou-se.

Porque um diamante é bonito.

Mas um bacalhau alimenta uma família inteira.

Aceitou sem hesitar.

Desde esse dia vivem uma das relações mais estáveis da Europa.

A Noruega envia bacalhau.

Portugal recebe-o como quem reencontra um velho amor.

Depois faz aquilo que melhor sabe fazer: acrescenta azeite, batatas, cebolas, alho, ovos cozidos, salsa... e transforma um peixe seco em património nacional.

A Noruega fornece a matéria-prima.

Portugal trata da poesia gastronómica.

Ao longo dos séculos atravessaram tempestades, mudanças políticas, guerras, crises económicas e modas culinárias absolutamente discutíveis.

Mas o amor permaneceu.

Porque há relações que não sobrevivem apenas da paixão.

Sobrevivem da constância.

Enquanto houver um navio carregado de bacalhau a sair dos fiordes e uma avó portuguesa absolutamente convencida de que a sua receita é a única verdadeira — apesar de todas as outras avós defenderem exatamente o mesmo — esta história continuará a escrever-se.

No fundo, talvez seja esta a definição mais bonita de amor.

Não é impressionar.

É permanecer.

E se alguém me perguntar qual é a história de amor mais improvável da Europa...

Não responderei Romeu e Julieta.

Responderei, sem hesitar:

Portugal e Noruega.

Ela ofereceu o bacalhau.

Nós fizemos mais de mil maneiras de lhe dizer: "Também te amamos."

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Texto partilhado no WordPress 09/07/2026

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