"Há Mortes Que Começam Muito Antes do Último Suspiro"

Há algo que me inquieta profundamente.

A velocidade com que algumas pessoas passam do insulto ao luto.

Ontem era "drogado".

Era "carocho".

Era "maluco".

Era "porco".

Era o alvo perfeito para comentários, piadas, publicações, grupos privados, mensagens partilhadas e gargalhadas que encontravam na humilhação alheia uma forma estranha de entretenimento.

Hoje, muitos dizem estar chocados.

Sentem-se ofendidos porque não souberam.

Porque não houve velório.

Porque não puderam despedir-se.

Porque não foram informados.

Mas a pergunta que verdadeiramente importa é outra.

Onde estavam quando ele ainda estava vivo?

Vivemos numa sociedade paradoxal.

Nunca foi tão fácil comunicar e, ao mesmo tempo, nunca foi tão fácil desumanizar alguém. A distância de um ecrã produz um fenómeno amplamente estudado pelas ciências do comportamento: a desinibição. Aquilo que dificilmente seria dito olhando alguém nos olhos é escrito com uma facilidade inquietante quando o outro se reduz a uma fotografia, a um nome de utilizador ou a um perfil numa rede social.

Quando desaparece o rosto, enfraquece a empatia.

Quando enfraquece a empatia, instala-se a banalização da crueldade.

Poucos se interrogam sobre aquilo que acontece do outro lado do ecrã. Existe a ilusão de que um comentário é apenas um comentário, uma piada é apenas uma piada e um meme é apenas humor. Mas a mente humana não contabiliza a violência dessa forma. O impacto não resulta apenas da intensidade de uma única agressão; resulta da repetição, da acumulação e da sensação permanente de exposição.

Um comentário talvez não destrua ninguém.

Milhares podem destruir uma identidade.

A humilhação pública possui um efeito particularmente devastador porque atinge uma das necessidades mais profundas da condição humana: o reconhecimento. Desde a infância que construímos a nossa identidade através do olhar do outro. É no reconhecimento que aprendemos quem somos, onde pertencemos e qual o nosso valor. Quando esse olhar se transforma sistematicamente em desprezo, ridicularização ou rejeição, não está apenas em causa a reputação social; está em causa a própria organização da experiência emocional.

A violência simbólica deixa marcas invisíveis.

Não se vê numa radiografia.

Não aparece numa análise clínica.

Mas instala-se no sono interrompido, na ansiedade constante, no isolamento progressivo, na vergonha, no medo de sair de casa, no receio de abrir o telemóvel e encontrar mais uma avalanche de insultos.

O sofrimento psicológico raramente chega de forma abrupta.

Vai-se infiltrando.

Silenciosamente.

Todos os dias.

Há quem consiga resistir.

Conheço esse território.

Também eu já fui alvo de versões inventadas, de julgamentos precipitados, de narrativas construídas por quem nunca procurou conhecer os factos. Sei o que significa perceber que existem grupos onde o teu nome circula sem que possas responder. Sei o que é descobrir que há pessoas que preferem acreditar na caricatura em vez da realidade.

Mas também sei que cada pessoa possui recursos internos diferentes.

Aquilo que uma pessoa suporta, outra pode não conseguir suportar.

É por isso que a comparação nunca é justa.

Não existem emoções fracas.

Existem dores diferentes.

E há dores que acabam por vencer.

O mais perturbador acontece depois.

Depois da morte.

Subitamente, muitos descobrem palavras bonitas.

Publicam homenagens.

Escrevem mensagens emocionadas.

Dizem que sempre tiveram carinho.

Que ficaram destroçados.

Que gostariam de se ter despedido.

Mas o amor nunca se mede pela presença junto de um caixão.

Mede-se pela presença enquanto ainda havia vida.

A amizade não se prova no funeral.

Prova-se nas semanas em que ninguém telefona.

Nos meses em que ninguém pergunta.

Nos dias em que alguém precisava apenas de ouvir: "Como estás?"

É profundamente humano sentir tristeza perante a morte.

Mas também é profundamente necessário fazer um exame de consciência.

Porque há ausências que começam muito antes da morte física.

Começam quando escolhemos o silêncio perante a humilhação.

Quando rimos para pertencermos ao grupo.

Quando partilhamos sem confirmar.

Quando alimentamos rumores porque "toda a gente dizia".

Quando confundimos entretenimento com destruição.

Quando esquecemos que, do outro lado do ecrã, existe sempre um ser humano.

Não um perfil.

Não um alvo.

Não uma personagem.

Uma pessoa.

Nenhuma sociedade se torna mais civilizada apenas porque fala de saúde mental.

Torna-se mais civilizada quando aprende a proteger a dignidade humana antes que ela seja irremediavelmente ferida.

Quando compreende que cada palavra deixa uma marca.

Que cada comentário alimenta uma cultura.

Que cada silêncio perante a injustiça também educa.

Educa para a indiferença.

Educa para a normalização da violência.

Educa para a ideia perigosa de que destruir alguém pode ser apenas uma forma de diversão.

Talvez nunca saibamos o peso exato que cada gesto teve.

Mas sabemos uma coisa com absoluta certeza.

Nenhum ser humano deveria viver a sentir que vale menos do que os rótulos que lhe colaram.

Nenhuma família deveria carregar, além da dor da perda, a memória das palavras cruéis que tantos escolheram dizer.

Que esta história não sirva apenas para produzir lágrimas.

Que sirva para produzir consciência.

Porque as palavras constroem.

Mas também podem destruir.

E, por vezes, destroem muito antes de alguém deixar de respirar.

Descansa em paz, meu irmão.

Espero, do fundo do coração, que tenhas finalmente encontrado na morte a paz que tantas vezes te foi negada em vida.

Que onde agora estás já não existam rótulos, julgamentos, humilhações ou solidão.

A nós, que permanecemos, cabe-nos a responsabilidade de aprender que nenhuma vida pode ser reduzida a um comentário, a um boato ou a uma gargalhada.

Que a tua partida não seja apenas motivo de tristeza.

Que seja, sobretudo, um motivo para nos tornarmos seres humanos melhores.

Que a terra te seja leve.

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