"A Obsessão Nunca Foi Amor. Foi Sempre uma Prisão."

Antes de mais, deixa-me dizer-te uma coisa.

A obsessão não é amor levado ao extremo.

Também não é saudade.

Nem é incapacidade de esquecer.

A obsessão é um estado em que a mente deixa de servir a pessoa e passa a servir uma ideia fixa. É quando alguém ocupa um espaço desproporcional dentro de nós, não pela importância que realmente tem no presente, mas pela necessidade compulsiva de continuar a pensar, interpretar, controlar ou compreender aquilo que já devia ter encontrado descanso.

A mente obsessiva alimenta-se da repetição. Volta às mesmas conversas, às mesmas memórias, aos mesmos textos, às mesmas fotografias, às mesmas perguntas. Procura significados escondidos onde, muitas vezes, já não existe qualquer mensagem. É como quem continua a abrir um livro terminado, na esperança de encontrar um capítulo novo.

Mas os livros não mudam.

Quem precisa de mudar é quem insiste em lê-los sempre da mesma maneira.

A obsessão cria uma ilusão perigosa: faz acreditar que, se pensares mais um pouco, se analisares melhor, se procurares mais uma prova, finalmente encontrarás a resposta que te dará paz.

Só que nunca dá.

Porque a obsessão não procura respostas.

Procura alimento para continuar viva.

É por isso que nenhuma explicação é suficiente.

Nenhuma conversa encerra o assunto.

Nenhuma prova basta.

Há sempre mais uma hipótese, mais uma interpretação, mais uma dúvida.

E, sem perceberes, deixas de viver a tua vida para viveres dentro de um pensamento.

Sabes o que mais me entristece?

Não é aquilo que pensas de mim.

É aquilo que deixaste de viver por continuares presa a uma história que só existe dentro de ti.

Se reparares...

Eu não escrevo uma linha sobre ti.

Não procuro saber da tua vida.

Não pergunto por ti.

Não preciso de justificar o meu caminho através da tua existência.

A minha vida continuou.

Os meus dias continuaram.

As minhas alegrias, os meus projectos, as minhas amizades e a minha família continuaram a ocupar o lugar que lhes pertence.

Mas tu continuas a voltar.

Lês.

Relês.

Vais buscar textos antigos.

Cruzas datas.

Procuras mensagens escondidas.

Tentas encontrar uma explicação para algo que, na verdade, só tu continuas a viver.

E talvez ainda não tenhas percebido uma coisa.

Já não estás à procura de mim.

Estás à procura da narrativa que construíste sobre mim.

E essas duas pessoas já não são a mesma.

A mulher que imaginas existe apenas dentro da tua cabeça.

Eu continuo simplesmente a viver.

Sabes o que a obsessão faz?

Rouba-te aquilo que tens de mais precioso: o presente.

Enquanto estás ocupada a tentar compreender alguém que já seguiu caminho, deixas de conhecer pessoas extraordinárias.

Enquanto procuras sinais onde eles já não existem, perdes os sinais bonitos que a vida te oferece todos os dias.

Enquanto tentas reconstruir uma história terminada, deixas de escrever a tua.

É uma pena.

Porque o mundo é demasiado vasto para caber numa única pessoa.

Há livros por ler.

Há lugares por descobrir.

Há amizades por construir.

Há amores por viver.

Há versões de ti que ainda nem conheces.

E, no entanto, continuas a gastar uma quantidade imensa de energia numa porta que fechou há muito tempo.

Não escrevo isto por irritação.

Escrevo-o com uma tristeza profundamente humana.

Porque nenhuma mulher merece viver prisioneira de outra.

Nem por amor.

Nem por inveja.

Nem por ressentimento.

Nem pela necessidade de provar quem tinha razão.

A liberdade começa quando deixamos de precisar que o outro mude para podermos seguir em frente.

E talvez seja precisamente isso que ainda te falta.

Não esqueceres-me.

Mas libertares-te.

Porque eu não sou o teu problema.

Nunca fui.

A tua verdadeira batalha sempre aconteceu dentro de ti.

E enquanto continuares a procurar em mim as respostas para aquilo que só tu podes resolver, continuarás a caminhar em círculos.

Gostava, sinceramente, que um dia deixasses de me ler.

Não porque me incomodes.

Mas porque isso significaria que, finalmente, voltaste a ler a tua própria vida.

E acredita...

Não existe história mais bonita do que aquela que uma mulher começa a escrever no dia em que deixa de viver em função da história de outra.

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