"A batalha mais difícil nunca foi contra os outros"
Sabes qual foi a batalha mais difícil que alguma vez lutei?
Não foi contra uma pessoa.
Não foi contra as circunstâncias.
Nem sequer contra aquilo que a vida me fez atravessar.
A batalha mais dura aconteceu dentro de mim.
Foi o confronto silencioso entre aquilo que eu já sabia... e aquilo que ainda sentia.
Há conflitos que ninguém vê.
Não deixam hematomas.
Não aparecem nas fotografias.
Não fazem manchetes.
Mas são capazes de consumir anos inteiros de uma vida.
São as guerras travadas entre a lucidez da razão e a persistência do afecto.
A mente compreende antes do coração.
Essa talvez seja uma das verdades mais difíceis da condição humana.
Há momentos em que sabemos exactamente o que precisamos de fazer. Os factos são claros. Os sinais repetem-se. A realidade apresenta-se diante de nós quase sem margem para dúvida. Sabemos que determinada relação nos destrói, que determinado ambiente nos diminui, que certos hábitos nos adoecem ou que algumas pessoas já não caminham na mesma direcção.
Sabemos.
Mas saber não significa, imediatamente, conseguir partir.
Porque compreender é um acto cognitivo.
Desapegar é um processo emocional.
E entre uma coisa e outra existe, por vezes, um longo caminho.
A psicologia mostra-nos que o ser humano não estabelece vínculos apenas com aquilo que lhe faz bem. Desenvolve apego também ao que lhe é familiar. O cérebro prefere muitas vezes a previsibilidade da dor conhecida à incerteza da liberdade. O sofrimento repetido pode tornar-se estranhamente confortável, não porque seja desejável, mas porque é conhecido. Aquilo que nos fere pode, paradoxalmente, transformar-se no lugar onde aprendemos a permanecer.
É por isso que tantas pessoas confundem apego com amor.
Persistência com esperança.
Dependência com lealdade.
E medo da mudança com fidelidade aos próprios sentimentos.
Mas o coração nem sempre é um bom conselheiro.
Ele guarda memórias, afectos, nostalgias e promessas. É profundamente humano que assim seja. Contudo, aquilo que sentimos não constitui, por si só, um critério suficiente para orientar a vida. As emoções revelam uma experiência; não estabelecem necessariamente a verdade dessa experiência.
Nem tudo o que sentimos nos aproxima daquilo que nos faz crescer.
Há afectos que libertam.
E há afectos que aprisionam.
A maturidade começa quando aprendemos a distinguir uns dos outros.
Existe um momento particularmente doloroso na vida.
É aquele em que deixamos de lutar para descobrir a verdade e começamos a lutar para a aceitar.
São batalhas diferentes.
Enquanto desconhecemos a realidade, ainda existe espaço para a dúvida.
Quando finalmente a vemos com clareza, resta-nos apenas decidir se teremos coragem para viver de acordo com ela.
É aí que nasce o verdadeiro conflito.
Porque a verdade ilumina.
Mas também exige.
Exige renúncias.
Exige despedidas.
Exige abandonar narrativas que sustentámos durante anos.
Exige aceitar que algumas expectativas nunca se cumprirão.
E poucas coisas doem tanto ao ser humano como fazer o luto daquilo que imaginou.
A psicanálise lembra-nos que resistimos frequentemente não ao sofrimento em si, mas à perda da identidade construída à volta dele. Durante demasiado tempo, confundimos quem somos com aquilo que vivemos. E quando chega o momento de deixar partir aquilo que nos definia, sentimos que estamos também a perder uma parte de nós.
Na realidade, não estamos.
Estamos apenas a deixar morrer uma versão que já não consegue acompanhar a mulher em quem nos estamos a tornar.
É um nascimento disfarçado de despedida.
Também a sociedade contribui, muitas vezes, para prolongar estes conflitos interiores. Ensina-nos a permanecer, a aguentar, a sacrificar-nos, a interpretar a desistência como fracasso. Mas existe uma diferença essencial entre desistir de um sonho por medo e abandonar aquilo que destrói a nossa dignidade.
A primeira atitude empobrece-nos.
A segunda salva-nos.
Nem toda a permanência é virtude.
Nem toda a partida é cobardia.
Há partidas profundamente éticas.
Porque há momentos em que permanecer significaria trair a própria consciência.
Foi isso que aprendi.
Que a cura raramente começa quando a dor desaparece.
Começa quando deixamos de negociar com a verdade.
Quando aceitamos que amar alguém não obriga a permanecer.
Que compreender não significa justificar.
Que perdoar não exige continuar.
E que sentir saudade não invalida a decisão de seguir caminho.
O coração precisa de tempo.
A consciência precisa de coragem.
E ambas precisam de uma virtude que quase já não se ensina: a paciência.
Não a paciência de esperar que tudo volte a ser como era.
Mas a paciência de permitir que aquilo que já compreendemos desça lentamente até ao lugar onde ainda dói.
Porque a verdadeira transformação nunca acontece quando deixamos de sentir.
Acontece quando deixamos de permitir que o sentimento governe aquilo que sabemos ser verdadeiro.
Hoje compreendo que a maior forma de amor-próprio não foi vencer ninguém.
Foi ter tido a coragem de não abandonar a verdade apenas para continuar fiel a uma ilusão.
E talvez seja isso, afinal, amadurecer.
Não deixar de sentir.
Mas aprender que nem tudo aquilo que o coração deseja merece continuar a habitar a nossa vida.
Porque há momentos em que seguir o coração não é um acto de coragem.
É apenas a forma mais subtil de continuar prisioneira daquilo que a consciência já teve a lucidez de deixar partir.
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