"Há dores que não desaparecem. Apenas aprendem a esconder-se."
Há uma ideia profundamente enraizada na cultura contemporânea: a de que o tempo cura tudo. É uma frase repetida com a melhor das intenções, talvez porque oferece esperança quando ainda não existem respostas. No entanto, a experiência humana revela uma realidade mais complexa. O tempo não possui, por si só, qualquer poder terapêutico. Limita-se a avançar. Somos nós, através da forma como atravessamos esse tempo, que podemos transformar uma ferida numa cicatriz ou permitir que uma cicatriz continue a comportar-se como uma ferida aberta.
Importa, contudo, evitar uma simplificação igualmente perigosa. Nem toda a dor que sentimos hoje nasce exclusivamente do passado, nem todas as nossas escolhas podem ser explicadas por aquilo que vivemos. O ser humano nunca é o resultado de uma única causa. Somos feitos daquilo que herdámos, do que nos aconteceu, das circunstâncias que nos envolveram, das relações que construímos e, sobretudo, das decisões que continuamos a tomar. Ainda assim, aquilo que permanece por compreender dentro de nós encontra quase sempre uma forma subtil de regressar.
Raramente regressa com o rosto da memória.
Regressa na maneira como desconfiamos de quem nunca nos traiu. Na necessidade de controlar tudo para evitar voltar a sofrer. No medo inexplicável de perder pessoas que ainda nem chegaram verdadeiramente à nossa vida. Na dificuldade em aceitar afecto sem suspeitar de segundas intenções. Ou, pelo contrário, na incapacidade de estabelecer limites, como se dizer "não" significasse perder inevitavelmente o amor do outro.
É curioso como tantas vezes julgamos estar a responder ao presente, quando, na realidade, apenas repetimos diálogos antigos com protagonistas diferentes.
Mudam os nomes.
Mudam os lugares.
Mudam os rostos.
Mas permanece intacta a velha tentativa de proteger aquilo que, um dia, ficou vulnerável.
É precisamente aqui que reside um dos maiores paradoxos da condição humana. Aquilo que inicialmente nos protegeu pode, mais tarde, transformar-se naquilo que nos aprisiona. As muralhas que impediram novas feridas acabam, inevitavelmente, por impedir também a entrada da confiança, da intimidade e da serenidade.
Por isso, tantas relações fracassam não por falta de amor, mas porque duas histórias feridas tentam conversar sem primeiro aprenderem a escutar-se.
Nenhuma pessoa deveria carregar o peso de responder por erros que nunca cometeu.
Não é justo exigir a alguém que pague a dívida emocional deixada por outra pessoa.
Quem chega hoje à nossa vida merece encontrar-nos como realmente somos, e não apenas como aquilo que o sofrimento nos obrigou a ser.
É aqui que começa a verdadeira maturidade.
Não quando conseguimos explicar tudo o que nos aconteceu.
Mas quando deixamos de utilizar a nossa dor como critério para interpretar permanentemente o mundo.
Existe uma diferença profunda entre compreender o sofrimento e viver governado por ele.
Compreender liberta.
Ser governado aprisiona.
Talvez seja precisamente por isso que o caminho da cura exige uma coragem silenciosa. Não a coragem espectacular que impressiona os outros, mas aquela que nos obriga a olhar para dentro sem máscaras, sem desculpas e sem a tentação de transformar as nossas feridas numa identidade permanente.
Porque há pessoas que passam tanto tempo a definir-se pelas suas dores que acabam por esquecer quem eram antes delas.
A dor explica capítulos da nossa história.
Nunca deveria tornar-se o título da nossa existência.
Também por isso, curar não significa apagar.
Esquecer seria amputar parte da própria memória.
Curar é outra coisa.
É recordar sem voltar a sangrar.
É conseguir revisitar determinados acontecimentos sem permitir que continuem a dirigir as escolhas do presente.
A memória permanece.
A prisão desaparece.
Descobrimos então algo extraordinário.
As maiores transformações da vida raramente acontecem quando tudo corre bem.
São as perdas que desmontam ilusões.
São as decepções que refinam o discernimento.
São os recomeços que devolvem humildade.
São as cicatrizes que ensinam aquilo que o conforto dificilmente conseguiria ensinar.
Não porque o sofrimento seja desejável.
Nenhuma pessoa sensata desejaria sofrer.
Mas porque existe um tipo de conhecimento que apenas nasce depois de termos atravessado aquilo que julgávamos impossível suportar.
Foi a vida que me ensinou isso.
Hoje sei que amadurecer não consiste em acumular aniversários.
A idade mede apenas o tempo vivido.
A maturidade mede a forma como cada experiência foi integrada na consciência.
Conheço pessoas muito jovens cuja lucidez impressiona.
E conheço vidas longas que continuam presas aos mesmos medos de sempre.
Os anos envelhecem o corpo.
Só a reflexão transforma a alma.
Hoje olho para as minhas cicatrizes de maneira diferente.
Já não as vejo como marcas daquilo que perdi.
Vejo-as como testemunhas daquilo que consegui preservar apesar de tudo.
Não me tornaram invulnerável.
Tornaram-me mais humana.
Mais prudente.
Mais compassiva.
Menos apressada a julgar aquilo que desconheço na vida dos outros.
Porque aprendi que quase toda a pessoa transporta batalhas invisíveis que nunca aparecem nas fotografias nem nas conversas superficiais.
Talvez seja essa a verdadeira sabedoria.
Perceber que ninguém precisa de pagar pelas feridas que outro deixou em nós.
Cada pessoa merece encontrar uma versão nossa que escolheu a consciência em vez da repetição, a liberdade em vez do ressentimento e a esperança em vez do medo.
Hoje posso finalmente dizer que não amadureci apenas porque o tempo passou.
Amadureci porque deixei de permitir que o passado escrevesse, sozinho, o futuro.
E foi nesse dia que compreendi que a verdadeira cura não acontece quando deixamos de ter cicatrizes.
Acontece quando as cicatrizes deixam de decidir, por nós, a forma como olhamos, confiamos, amamos e continuamos a caminhar.
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