"Aquilo Que Permanece em Mim"
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Hoje quero fazer aquilo que sempre fez parte da minha essência: estender a mão. Não porque tenha todas as respostas, mas porque acredito que, por vezes, uma palavra dita no momento certo impede um coração de desistir.
Escrevo porque acredito profundamente no poder da palavra.
As palavras podem ferir, é verdade. Mas também podem reconstruir aquilo que parecia irremediavelmente perdido. Podem devolver dignidade, restaurar esperança, organizar o caos interior e dar nome ao que durante demasiado tempo viveu sem voz.
Por isso, hoje, se sentires vontade de responder a alguém, talvez te faça um convite diferente.
Antes de responderes... escreve.
Não para publicares.
Não para convenceres ninguém.
Escreve para te ouvires.
A escrita possui uma capacidade extraordinária de transformar aquilo que nos habita de forma difusa em pensamento consciente. Enquanto uma emoção permanece apenas dentro de nós, tende a repetir-se em círculos. Quando ganha palavras, deixa de nos dominar completamente. Passa a poder ser observada. Compreendida. Integrada.
Há muito que sabemos que aquilo que não encontra linguagem procura outras formas de existir. O silêncio prolongado não elimina a dor; apenas a desloca. Ela reaparece no corpo, na ansiedade, na irritabilidade, nas respostas impulsivas ou nas relações que repetem, sem o sabermos, antigas feridas.
Escrever é muito mais do que alinhar frases.
É permitir que aquilo que estava aprisionado encontre finalmente um lugar onde possa respirar.
Talvez por isso eu escreva.
Não para parecer forte.
Mas para permanecer inteira.
Durante muito tempo também procurei ser bem vista.
Como quase todas nós.
Porque crescemos a acreditar que a aceitação dos outros seria uma garantia de segurança. Que uma boa reputação nos protegeria da crítica, da injustiça ou da rejeição.
Hoje penso de forma diferente.
A reputação é uma construção social.
O carácter é uma construção interior.
A reputação pertence à opinião.
E a opinião muda com a facilidade com que muda o vento.
Basta um rumor, uma narrativa repetida muitas vezes ou um olhar enviesado para que a imagem construída sobre alguém se altere completamente.
Mas nenhuma dessas coisas possui autoridade suficiente para definir quem verdadeiramente somos.
A reputação é aquilo que os outros imaginam conhecer sobre nós.
O carácter é aquilo que continuamos a ser quando ninguém está a olhar.
Há pessoas que conhecem o teu nome, mas nunca conheceram a tua história.
Nunca caminharam ao teu lado quando tudo desabou.
Nunca pagaram o preço das tuas perdas.
Nunca sentiram o peso das tuas escolhas.
Nunca atravessaram contigo as noites em que apenas a esperança impedia a desistência.
E, ainda assim, acreditam conhecer-te.
Com o tempo compreendi que não posso construir a minha identidade sobre interpretações alheias.
Seria entregar a minha vida às mãos de pessoas que apenas conhecem fragmentos da minha existência.
Hoje escolho avaliar-me por outra medida.
Pelos frutos.
Pela pessoa em que me tornei.
Pela consciência tranquila com que adormeço.
Pelas vezes em que escolhi permanecer íntegra quando teria sido mais fácil ceder.
Pelas aprendizagens que nasceram das minhas quedas.
Pelas mudanças que tive a coragem de fazer.
Pelas pessoas que encontrei feridas e deixei um pouco mais leves.
Pelas conversas que devolveram esperança.
Pelos silêncios que soube respeitar.
Pelo bem que consegui fazer sem precisar de publicidade.
No fim, uma vida não se mede pelo ruído que produz.
Mede-se pela transformação que deixa.
Interessa-me muito menos impressionar pessoas do que contribuir para que alguém descubra que ainda vale a pena acreditar em si próprio.
Se, depois de me encontrar, alguém regressa a casa com mais coragem, mais serenidade ou mais esperança, então alguma coisa floresceu.
E talvez seja precisamente isso que verdadeiramente permanece.
Não aquilo que disseram sobre mim.
Mas aquilo que consegui despertar nos outros.
Também aprendi outra verdade difícil.
O mundo raramente aplaude quem regressa das cinzas.
Admira, sobretudo, quem nunca revelou as queimaduras.
Existe uma estranha tendência para celebrar resultados e esconder percursos.
Aplaudem-se as conquistas.
Silenciam-se as cicatrizes.
Mas são precisamente as cicatrizes, quando integradas e não negadas, que tornam um ser humano capaz de compreender a dor do outro sem julgamento.
Quem nunca caiu pode oferecer conselhos.
Quem já se levantou oferece compreensão.
E existe uma diferença imensa entre ambas.
Por isso, se alguma vez vires pessoas a levantarem-se contra ti apenas porque cresceste, amadureceste ou encontraste paz, não interpretes imediatamente isso como um retrato do teu valor.
Muitas vezes, a existência de alguém torna-se incómoda simplesmente porque recorda aos outros aquilo que eles próprios ainda não conseguiram enfrentar.
Nem toda a oposição nasce daquilo que fizeste.
Algumas nascem daquilo que a tua transformação desperta em quem ainda permanece em conflito consigo próprio.
Ninguém perde tempo a lançar pedras sobre sementes que ficaram enterradas.
As pedras costumam ser lançadas contra aquilo que começou a romper a terra, a procurar a luz e a anunciar que a vida venceu.
Talvez por isso eu já não procure aplausos.
Os aplausos terminam quando a multidão se dispersa.
A verdade permanece.
E é apenas diante dessa verdade que desejo viver.
Não devo nada à necessidade de ser admirada.
Mas devo tudo à responsabilidade de continuar fiel à mulher que escolhi tornar-me.
Uma mulher imperfeita, sem dúvida.
Mas profundamente reconciliada com a própria caminhada.
Porque sobreviver foi importante.
Aprender foi necessário.
Amadurecer foi inevitável.
Mas florescer...
Florescer foi uma escolha.
E nenhuma voz exterior terá jamais autoridade suficiente para apagar aquilo que Deus, a vida, a verdade e a coragem cultivaram dentro de mim.
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