"Há memórias que o tempo não apaga"

Hoje permito-me partilhar convosco uma memória muito especial.

Faz precisamente dois anos que fui batizada.

Há datas que passam discretamente pelo calendário. Outras permanecem gravadas na alma. Esta pertence, sem dúvida, ao segundo grupo.

Costuma dizer-se que quem é batizado em criança recebe um dom que o acompanhará para toda a vida. Acredito nisso. Mas há um privilégio que pertence, quase exclusivamente, a quem recebe o batismo na idade adulta: a memória consciente de cada instante.

Eu lembro-me de tudo.

Lembro-me da expectativa.

Do nervosismo.

Das perguntas que me atravessavam o pensamento.

Da emoção difícil de explicar.

Da serenidade que chegou precisamente quando já não conseguia controlar o coração.

Não foi um gesto automático nem uma tradição familiar repetida por costume. Foi uma decisão amadurecida, refletida e profundamente livre. Talvez seja essa liberdade que torna a recordação tão viva.

O meu batismo não aconteceu dentro de uma igreja, entre paredes de pedra e vitrais coloridos.

Aconteceu ao ar livre.

No Parque do Gaio.

Durante as festividades de São Telmo.

E gosto particularmente desse detalhe.

Porque Deus nunca precisou de estar limitado a quatro paredes para se encontrar com quem O procura. A criação sempre foi, também ela, um templo. O céu como teto, a natureza como testemunha e a comunidade reunida fizeram daquele momento algo que dificilmente conseguiria reproduzir por palavras.

Recordo a água.

Recordo os rostos.

Recordo os olhares.

Recordo o silêncio que existia dentro de mim, apesar de tudo o que acontecia à minha volta.

Há memórias que não envelhecem.

Apenas ganham profundidade.

E há outra recordação que hoje me faz sorrir.

Os meus padrinhos.

Confesso que, olhando agora para trás, admiro-lhes verdadeiramente a coragem.

Ser padrinho ou madrinha de uma criança é, de certa forma, aquilo que todos esperamos.

Mas aceitar acompanhar uma mulher de quarenta e cinco anos...

Reconheçamos...

Não é propriamente o cenário mais habitual.

Imagino que, por momentos, tenham pensado:

— "Ela tem quarenta e cinco anos... será que ainda precisa de padrinhos?"

A resposta foi — e continua a ser — um enorme "sim".

Porque ser padrinho nunca foi apenas dar a mão a uma criança.

É comprometer-se a caminhar ao lado de alguém.

É estar presente.

É testemunhar.

É recordar, quando necessário, o essencial.

A idade muda muitas coisas.

Mas não elimina a necessidade de encontrarmos pessoas que nos ajudem a crescer.

E crescer, afinal, nunca termina.

Por isso, a minha gratidão permanece intacta.

Obrigada por terem aceite aquele desafio pouco convencional.

Obrigada por terem dito "sim" sem transformarem a minha idade numa objeção.

Obrigada por fazerem parte de um dos capítulos mais bonitos da minha vida.

Nestes dois anos muita coisa mudou.

Mudei eu.

Mudou a forma como olho para algumas pessoas.

Mudou a maneira como vivo determinadas circunstâncias.

Aprendi que a fé não elimina as dificuldades, mas altera profundamente a forma como as atravessamos.

Não impede a dor.

Não evita as perdas.

Não elimina as dúvidas.

Mas oferece uma esperança que não depende das circunstâncias.

E isso faz toda a diferença.

Hoje olho para aquela mulher nervosa, emocionada e profundamente feliz que entrou nas águas do batismo e sinto uma enorme ternura.

Ela não fazia ideia de tudo o que ainda iria viver.

Das alegrias.

Das desilusões.

Das perdas.

Dos reencontros.

Das pessoas que chegariam.

Das pessoas que partiriam.

Mas fez uma escolha.

E essa escolha continua a acompanhar-me todos os dias.

Se voltasse atrás...

Voltaria a dizer o mesmo "sim".

Com a mesma liberdade.

Com a mesma convicção.

E, curiosamente, com muito menos nervosismo.

Embora, conhecendo-me, talvez o coração insistisse outra vez em acelerar um bocadinho.

Há emoções que nem o tempo consegue educar.

Ainda bem.

Porque são elas que nos recordam que existem momentos que deixam de pertencer apenas à memória e passam a fazer parte da nossa identidade.

Hoje celebro dois anos desse dia.

Não apenas a recordação de um acontecimento.

Mas a gratidão por um caminho que continua a fazer-se, passo a passo, com todas as minhas fragilidades, todas as minhas perguntas e toda a esperança que continua, silenciosamente, a habitar o meu coração.

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