"A Minha Lua de Mel com Uma Amiga (E um Erro Informático Cinco Estrelas)"
Há erros.
Depois há erros informáticos.
E finalmente existem aqueles erros informáticos tão extraordinariamente bem executados que uma pessoa olha para eles e pensa:
"Quem sou eu para contrariar o destino?"
Foi exatamente isso que aconteceu quando uma amiga e eu decidimos passar alguns dias em Amesterdão.
Já conhecia a cidade.
Já lá tinha ido com o meu marido.
Já tinha passeado pelos canais, atravessado pontes que parecem desenhadas para filmes românticos, sobrevivido ao trânsito composto exclusivamente por bicicletas conduzidas por pessoas que pedalam com a confiança de quem acredita sinceramente que os travões são um detalhe opcional.
Mas desta vez era diferente.
Ia apenas com uma amiga.
Duas mulheres.
Duas malas.
Zero maridos.
Zero filhos.
Zero responsabilidade parental.
Ou seja, uma viagem que prometia descanso.
Mal sabíamos que prometia casamento.
Chegámos ao Sofitel Legend The Grand Amsterdam.
Aquilo não é um hotel.
É um insulto elegante à nossa conta bancária.
Um edifício histórico que já foi convento e Câmara Municipal, escondido entre canais, onde tudo cheira a flores frescas, madeira nobre e pessoas que nunca entram em pânico quando recebem a conta da eletricidade.
Os funcionários sorriem com aquele profissionalismo perturbador que nos faz acreditar, durante alguns minutos, que realmente pertencemos ali.
Spoiler:
Não pertencíamos.
Recebemos o cartão do quarto.
Subimos.
Abrimos a porta.
Silêncio.
Cinco segundos de silêncio absoluto.
Depois...
...o maior ataque de riso da década.
A cama parecia ter sido decorada pela Disney depois de consumir romances da Nicholas Sparks.
Pétalas de rosa espalhadas com precisão cirúrgica.
Dois cisnes feitos de toalhas.
Um coração.
Velas.
Champanhe.
Bombons.
Uma carta escrita com uma ternura absolutamente ofensiva.
"Desejamos aos recém-casados uma vida longa e repleta de felicidade."
Olhei para a minha amiga.
Ela olhou para mim.
Voltámos a olhar para os cisnes.
A certa altura já não conseguíamos respirar.
Havia lágrimas.
Não de emoção.
De falta de oxigénio.
Começámos então a investigar os presentes.
Foi um erro administrativo...
...mas um erro administrativo extremamente generoso.
Havia vouchers para cocktails.
Pequenos-almoços especiais.
Massagens.
Passeios pelos canais ao pôr do sol.
Entradas para o magnífico Museu Van Gogh, onde percebemos que um homem consegue pintar girassóis e, simultaneamente, ter uma vida emocional muito mais complicada do que a nossa.
Também havia sugestões para visitar o Rijksmuseum, onde convivem Rembrandt, Vermeer e centenas de turistas que passam mais tempo a fotografar quadros do que a olhar para eles.
Recebemos ainda recomendações para um passeio de barco pelos canais, que são tão bonitos que até fazem uma pessoa esquecer, durante alguns minutos, que a água tem séculos de histórias, bicicletas perdidas e provavelmente um número estatisticamente preocupante de telemóveis.
Foi então que tivemos uma conversa muito séria.
— Vamos avisar a receção?
Silêncio.
— ...ou...
Mais silêncio.
Olhámos novamente para o champanhe.
Para os vouchers.
Para os bombons.
Para o preço daquela suíte.
E chegámos à única conclusão intelectualmente possível.
Se o universo nos queria casadas...
...quem éramos nós para discutir com o universo?
A partir desse momento tornámo-nos um casal extremamente eficiente.
Só havia uma regra.
Sempre que aparecesse um funcionário...
...dávamos discretamente a mão.
Nem era preciso grande representação.
Bastava parecer que existia um mínimo de romantismo administrativo.
Funcionava.
Demasiado bem.
No pequeno-almoço:
— Parabéns pelo casamento.
Nós:
— Muito obrigada.
No spa:
— Esperamos que estejam a desfrutar da lua de mel.
Nós:
— Bastante.
Num passeio pelos canais:
— Quanto tempo estão casadas?
Silêncio.
A minha amiga respondeu com uma serenidade impressionante:
— Ainda estamos na fase de adaptação.
Quase caí do barco.
Mas nada...
...absolutamente nada...
...nos preparou para o Bairro da Luz Vermelha.
Passeávamos calmamente.
As montras iluminadas.
As turistas escandalizadas.
Os maridos profundamente interessados na arquitetura das janelas.
As esposas profundamente interessadas na direção do olhar dos maridos.
E nós.
Duas "recém-casadas".
De mão dada.
A passear romanticamente pela rua mais improvável para uma lua de mel.
Olhámos uma para a outra e percebemos imediatamente.
Se algum funcionário do hotel nos visse ali...
...íamos diretamente para a categoria:
"Casal moderno muito descontraído."
No último dia já estávamos completamente absorvidas pela personagem.
A rececionista sorriu.
— Esperamos voltar a recebê-las no vosso aniversário de casamento.
Sem pensar.
Sem refletir.
Sem consultar o cérebro.
Respondemos em coro:
— Também nós.
Entrámos no táxi.
Fechámos a porta.
O motorista arrancou.
Esperou exatamente quinze segundos.
E perguntou:
— Então... há quanto tempo estão juntas?
Olhei para a minha amiga.
Ela olhou para mim.
Respirámos fundo.
E começámos novamente a rir.
Daquele riso completamente descontrolado que só aparece quando percebemos que a realidade, de vez em quando, escreve argumentos muito melhores do que qualquer escritor.
Desde esse dia aprendi uma coisa.
Nunca subestimem um erro informático.
Sobretudo se vier acompanhado de champanhe, pétalas de rosa, entradas para museus, um passeio pelos canais...
...e uma amiga suficientemente louca para aceitar casar comigo durante quatro dias sem sequer discutir o regime de bens.
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