"A Maior Saudade Nem Sempre É de Alguém"
Há uma pergunta que me acompanha há muito tempo e que, quanto mais observo a vida, mais difícil se torna responder-lhe com honestidade.
De quem sentimos verdadeiramente saudades?
À primeira vista, a resposta parece evidente. Pensamos em pessoas que partiram, em lugares onde fomos felizes, em épocas que o tempo tornou quase míticas ou em momentos que a memória insiste em polir até lhes retirar todas as imperfeições. A saudade parece sempre apontar para fora de nós, como se estivesse inevitavelmente presa a alguém ou a algum lugar.
Mas a experiência, essa professora discreta que raramente fala alto, acaba por revelar uma realidade mais profunda.
Muitas vezes, não sentimos falta das pessoas.
Sentimos falta da pessoa que éramos quando estávamos com elas.
Não sentimos apenas falta daquela casa.
Sentimos falta da tranquilidade que habitava em nós quando a chamávamos de lar.
Não sentimos apenas falta de um tempo.
Sentimos falta da forma como esse tempo nos fazia olhar para o futuro.
Existe uma diferença subtil, mas decisiva.
A memória raramente conserva apenas os acontecimentos; conserva sobretudo a identidade que construíamos enquanto os vivíamos.
Talvez por isso existam reencontros que desiludem.
Voltamos aos mesmos lugares e eles parecem menores.
Revemos as mesmas pessoas e já não encontramos a mesma intimidade.
Repetimos experiências que outrora nos fizeram felizes e percebemos que a emoção não regressou.
Durante algum tempo acreditamos que foi o mundo que mudou.
Depois compreendemos uma verdade mais exigente.
Fomos nós.
A vida não nos transforma apenas pelas grandes tragédias. Também o faz através das pequenas renúncias, das responsabilidades acumuladas, das desilusões discretas, dos silêncios prolongados e das perdas que nunca chegaram a ser choradas até ao fim.
Sem nos apercebermos, começamos a viver mais atentos ao que pode correr mal do que ao que ainda pode florescer.
A espontaneidade dá lugar à prudência.
A confiança cede espaço ao controlo.
A curiosidade é lentamente substituída pela necessidade de segurança.
E aquilo que chamamos maturidade nem sempre é sabedoria.
Por vezes é apenas uma esperança que aprendeu a proteger-se.
É curioso como passamos tantos anos à procura da felicidade em lugares exteriores, quando, muitas vezes, aquilo que verdadeiramente procuramos é recuperar uma forma de estar perante a vida que julgávamos perdida.
Não desejamos apenas voltar a um lugar.
Desejamos voltar à mulher que conseguia rir sem calcular as consequências.
À mulher que acreditava sem desconfiar de tudo.
À mulher que amava sem transformar cada gesto numa negociação entre expectativa e medo.
Talvez seja essa a saudade mais silenciosa.
A saudade de uma versão de nós que ficou soterrada sob camadas sucessivas de adaptações, sobrevivências e cicatrizes.
Mas importa dizer uma coisa que considero profundamente libertadora.
Essa mulher não desapareceu.
Nenhuma experiência, por mais dolorosa que tenha sido, possui autoridade para apagar definitivamente aquilo que somos na nossa essência.
Pode ferir.
Pode endurecer.
Pode confundir.
Pode obrigar-nos a reconstruir quase tudo.
Mas existe em cada ser humano um núcleo identitário que resiste ao desgaste do tempo, uma espécie de fidelidade silenciosa a si própria que permanece mesmo quando julgamos tê-la perdido.
O problema é que, muitas vezes, procuramos reencontrar-nos utilizando o caminho errado.
Tentamos voltar atrás.
Como se fosse possível recuperar a inocência através da repetição do passado.
Mas a vida nunca se repete.
Nem deve repetir-se.
Crescer nunca significou regressar ao ponto de partida.
Significa integrar aquilo que vivemos sem permitir que aquilo que vivemos esgote todas as possibilidades do futuro.
Não se trata de voltar a ser quem fui.
Trata-se de reconciliar quem fui com quem me tornei.
Há uma enorme diferença.
A primeira procura recuperar uma fotografia antiga.
A segunda aceita que nenhuma árvore regressa a semente e, ainda assim, continua plenamente viva.
Talvez a verdadeira maturidade não consista em abandonar a leveza da juventude, mas em reencontrá-la depois de conhecer o peso da existência.
Uma leveza diferente.
Menos ingénua.
Mais consciente.
Menos impulsiva.
Mais livre.
Porque já não nasce da ausência de sofrimento, mas da capacidade de não permitir que o sofrimento determine definitivamente a identidade.
É por isso que acredito que o maior reencontro da vida nunca acontece entre duas pessoas.
Acontece dentro de nós.
No instante em que deixamos de viver exclusivamente a partir das nossas feridas e voltamos a reconhecer a pessoa inteira que sempre existiu para além delas.
Não aquela que nunca caiu.
Mas aquela que descobriu que cair não a define.
Não aquela que nunca chorou.
Mas aquela que aprendeu que nenhuma lágrima tem autoridade para dissolver a sua dignidade.
Não aquela que regressa igual.
Mas aquela que regressa mais verdadeira.
Talvez seja essa a mais bela forma de regresso.
Não voltar ao passado.
Voltar a habitar a própria consciência.
Voltar a confiar sem perder o discernimento.
Voltar a amar sem abandonar a lucidez.
Voltar a sonhar sem negar a realidade.
Porque a maior conquista da existência nunca foi encontrar um lugar perfeito, uma pessoa perfeita ou uma vida perfeita.
A maior conquista é reconhecer que, apesar de tudo o que nos aconteceu, continuamos a ser capazes de regressar a nós próprias.
E quando esse regresso acontece, compreendemos finalmente que a expressão "voltar para casa" nunca descreveu um lugar.
Descreveu um estado de alma.
Porque há uma paz que nenhuma geografia oferece, nenhuma pessoa pode garantir e nenhuma circunstância consegue substituir.
É a paz de voltar a reconhecer-nos.
Deixar de ser estrangeiras dentro da nossa própria vida.
E perceber, com uma serenidade que só o tempo sabe ensinar, que a versão mais importante que alguma vez procurámos nunca esteve perdida no mundo.
Esperava, pacientemente, dentro de nós.
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