"Reflexão"

 Hoje decidi rebentar balões. Não os de aniversário. Esses merecem viver. Refiro-me aos outros: os balões insuflados pelo ego, pela imaginação fértil e pela extraordinária capacidade humana de transformar desejos em "factos". É uma aptidão curiosa. Não consta nos manuais de Psicologia como superpoder, mas merecia um capítulo próprio.

Para esta sessão de desinsuflação trago fotografias. Fotografias a sério. Da época em que a memória não cabia num telemóvel nem podia ser editada com um filtro chamado "Realidade Melhorada". Eram rolos fotográficos. Esperava-se dias para revelar as imagens. E, imagine-se o drama, ninguém podia apagar o passado porque não gostava dele.

Primeira surpresa, que para alguns será quase um fenómeno paranormal.

Continuo casada com o mesmo homem por quem me apaixonei quando ainda era menor de idade. O mesmo homem. O pai dos meus dois filhos. Nem clone, nem versão premium, nem atualização de software. O original.

A vida, às vezes, é extraordinariamente aborrecida para quem aprecia teorias da conspiração.

Segunda surpresa.

Sim, aprendi música.

E antes que apareça alguém a explicar-me a minha própria biografia musical, deixem-me poupar-vos ao trabalho.

Muito antes de saber ler uma partitura, já tocava de ouvido. A partitura é um código sofisticado composto por pentagrama, claves, figuras rítmicas, armaduras de clave, indicações de dinâmica, articulação e expressão. É a escrita da música.

Mas a música nasce antes da escrita.

Tal como ninguém espera que um bebé estude sintaxe para dizer "mãe", também muitos músicos desenvolvem primeiro a audição, a memória melódica e a percepção sonora antes de aprenderem a descodificar símbolos gráficos. Chama-se audição interna. Chama-se musicalidade. Chama-se desenvolvimento. Não é bruxaria.

Agora preparem-se para o terceiro balão.

Na adolescência eu já rezava o terço.

Repito para quem estiver sentado em cima de uma narrativa particularmente frágil: eu já rezava o terço.

O meu pai era católico.

Conhecia a Bíblia.

Participava em procissões.

Existem fotografias.

E as fotografias têm uma característica profundamente irritante para certas versões alternativas da realidade: insistem em existir.

É por isso que me diverte assistir a algumas reconstruções históricas dignas de um argumento de ficção científica.

Segundo essas versões, algures na casa dos quarenta anos, apareceu alguém que, qual arquiteto da minha consciência, reorganizou a minha vida espiritual, reinventou a minha fé, reescreveu a minha história e, aparentemente, fez tudo isto com efeitos retroativos.

Que talento extraordinário.

Se esse dom existisse, já estaria nomeado para um Prémio Nobel da Física. Afinal, alterar o passado continua a ser uma pequena dificuldade da ciência.

A verdade é infinitamente menos cinematográfica.

Quando tomei determinadas decisões, não era uma folha em branco.

Já possuía referências.

Já conhecia a tradição católica.

Já sabia rezar.

Já conhecia a Bíblia.

Faltava-me muito?

Claro que sim.

Ainda hoje falta.

Porque aprender é um verbo que felizmente não termina.

Mas uma coisa é aprofundar uma fé.

Outra completamente diferente é inventar que alguém a implantou como quem instala uma aplicação no telemóvel.

A psicologia explica-nos um fenómeno interessante: algumas pessoas têm uma necessidade quase irresistível de se colocarem no centro das narrativas. É uma forma de atribuírem significado à própria existência.

A psicanálise talvez perguntasse por que razão alguém precisa tanto de ser autor da história que pertence a outra pessoa.

A filosofia responderia com uma serenidade desconcertante: confundir protagonismo com verdade nunca foi argumento.

E a educação musical ensinaria outra lição preciosa: por muito entusiasmo que exista, ninguém pode reclamar a autoria de uma sinfonia só porque entrou no auditório durante o segundo andamento.

A minha decisão foi minha.

Nem inspirada.

Nem manipulada.

Nem apropriada.

Nem reorganizada.

Nem patrocinada.

Nem terceirizada.

Minha.

Com toda a responsabilidade que isso implica.

Porque crescer é precisamente isto: assumir as próprias escolhas sem necessidade de lhes inventar padrinhos.

No fundo, este texto não pretende convencer ninguém.

Os factos não precisam de marketing.

As fotografias não precisam de legendas criativas.

A memória não precisa de consultores.

E a realidade tem um defeito maravilhoso: continua a existir, mesmo quando alguns preferem viver em condomínio fechado com a fantasia.

Quanto aos balões...

Podem continuar a enchê-los.

Mas não estranhem que apareça, de vez em quando, alguém munido apenas de um alfinete chamado realidade.

E a realidade, convenhamos, tem um péssimo sentido de humor para quem vive exclusivamente de ar.

Um dia muito feliz.

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Partilhado no Facebook 10/07/2026

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