"O Adjetivo Não Anda ao Calhas"
Porque Não É a Mesma Coisa Dizer “Um Grande Homem” e “Um Homem Grande”
Há pessoas que acreditam que mudar uma palavra de lugar não altera rigorosamente nada.
Essas pessoas nunca estudaram gramática.
Ou montaram móveis sem olhar para o esquema.
Porque, em português, a posição das palavras nem sempre muda apenas a ordem.
Às vezes muda completamente o sentido.
E poucas classes gramaticais são tão temperamentais como os adjetivos.
O adjetivo tem uma função aparentemente simples:
Qualificar.
Descrever.
Acrescentar informação ao substantivo.
Até aqui tudo parece pacífico.
Mas a língua portuguesa decidiu complicar um pouco a vida e fez uma pergunta inesperada:
"E se mudássemos o adjetivo de sítio?"
Foi o caos.
Vejamos o exemplo mais famoso.
Um grande homem.
Agora:
Um homem grande.
As palavras são exatamente as mesmas.
O substantivo continua a ser "homem".
O adjetivo continua a ser "grande".
Só mudou a ordem.
E, no entanto, deixámos de falar da mesma pessoa.
Um grande homem
Aqui "grande" já não mede centímetros.
Mede carácter.
Importância.
Valor.
É alguém admirável.
Pode até ter um metro e sessenta.
Continua a ser um grande homem.
Um homem grande
Agora já estamos a falar de tamanho.
Altura.
Corpo.
Volume.
Pode ser um indivíduo absolutamente insuportável.
Mas fisicamente impressionante.
É extraordinário.
A gramática consegue transformar um elogio numa descrição antropométrica apenas deslocando um adjetivo.
Nem os decoradores de interiores conseguem tanto com um sofá.
E não fica por aqui
Observemos outro exemplo.
Um pobre homem.
Sentimos imediatamente compaixão.
Coitado.
Teve azar na vida.
Agora:
Um homem pobre.
Já não estamos necessariamente a falar de infelicidade.
Estamos a falar de dinheiro.
Ou da ausência dele.
A pobreza mudou de categoria.
Saiu da emoção.
Entrou na economia.
Tudo porque o adjetivo decidiu dar dois passos para a direita.
Outro clássico
Uma simples pergunta.
É apenas uma pergunta.
Sem complicações.
Agora:
Uma pergunta simples.
Já estamos a dizer que é fácil.
O adjetivo mudou de lugar e alterou completamente o significado.
É quase magia.
Só que com sintaxe.
E ainda outro
Um velho amigo.
Não significa que o amigo tenha noventa anos.
Significa que a amizade é antiga.
Agora:
Um amigo velho.
Esse, sim, provavelmente já se lembra de quando os telemóveis tinham antena.
A amizade pode ter começado ontem.
O amigo é que acumulou aniversários.
O adjetivo tem opinião
O que isto demonstra é uma das coisas mais bonitas da língua portuguesa:
a ordem das palavras não é decoração.
É significado.
O adjetivo colocado antes do substantivo tende, muitas vezes, a ganhar um valor mais subjetivo, afetivo ou figurado.
Depois do substantivo, tende a ser mais descritivo e objetivo.
Claro que há exceções.
Porque isto é português.
Se não houvesse exceções, os gramáticos ficavam sem assunto para discutir há séculos.
Imagino esta conversa
Adjetivo:
Hoje vou antes do substantivo.
Substantivo:
Então vais elogiá-lo?
Adjetivo:
Talvez.
No dia seguinte:
Adjetivo:
Hoje vou depois.
Substantivo:
E agora?
Adjetivo:
Agora faço medições.
A verdadeira elegância da língua
É por isso que aprender gramática não é decorar regras.
É aprender intenções.
É perceber que uma palavra pode dizer exatamente a mesma coisa...
...ou uma coisa completamente diferente.
Dependendo apenas do lugar onde decide sentar-se.
No fundo, os adjetivos são como certos convidados em casamentos.
Se se sentarem na mesa certa, a noite corre lindamente.
Se mudarem duas cadeiras de lugar...
há histórias que duram gerações.
E a língua portuguesa sabe isso melhor do que ninguém.
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Nota da Autora
Confesso que os textos sobre gramática e linguística ocupam um lugar muito especial no meu coração.
São, provavelmente, aqueles que mais me divertem a escrever.
Nascem quase sempre da mesma forma: uma conversa à mesa, uma dúvida inesperada, uma frase dita em voz alta, uma pergunta aparentemente simples que acaba por nos levar a discutir como a língua pensa antes mesmo de nós pensarmos nela.
Raramente os escrevo sozinha.
O meu filho mais novo é, muitas vezes, o primeiro interlocutor destas reflexões. Questiona, desafia, ri-se das comparações improváveis e obriga-me a explicar aquilo que, por vezes, julgamos compreender apenas porque sempre o dissemos dessa maneira.
A minha filha entra depois com outro olhar. Lê, comenta, corrige, sugere e, acima de tudo, dá-me a sua aprovação intelectual, que aprendi a valorizar muito. Há textos que só publico depois de passarem pelo seu exigente sentido crítico.
No fundo, estes artigos acabam por ser um pequeno trabalho conjunto entre mãe e filhos.
Eu escrevo.
Eles pensam comigo.
E isso transforma cada texto em muito mais do que uma explicação de gramática. Torna-o uma memória da nossa forma de estarmos juntos.
Talvez seja por isso que gosto tanto deles.
Enquanto escrevemos sobre palavras, estamos, sem dar por isso, a construir uma linguagem comum entre nós.
Um dia, talvez já não nos lembremos de todos os exemplos, das piadas ou das discussões sobre a posição de um adjetivo. Mas acredito que nos lembraremos da alegria de pensar em conjunto.
Porque ensinar nunca foi apenas transmitir conhecimento.
É partilhar curiosidade.
E aprender, em família, continua a ser uma das formas mais bonitas de amar.
No fim de contas, estes textos falam de gramática.
Mas contam, sobretudo, a história de três pessoas que descobriram que uma língua pode aproximar tanto quanto um abraço.
E isso, felizmente, não depende da posição de nenhuma palavra.
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