"Cada Pessoa Sobe uma Escada Diferente"
Hoje, provavelmente, não devia escrever.
Estou a celebrar o aniversário de uma amiga inestimável. Daquelas pessoas raras que a vida oferece sem aviso e que nos ensinam mais pela forma como vivem do que por tudo aquilo que poderiam dizer. A honestidade dela continua a ser uma das virtudes que mais admiro. Não a honestidade confortável, que apenas diz aquilo que agrada. Refiro-me à honestidade que nasce da integridade, da coragem de permanecer fiel à verdade mesmo quando essa verdade custa.
Também não vou publicar nenhum dos textos que já tenho escritos.
Ficarão guardados.
Talvez porque acredito que cada palavra tem o seu tempo.
Talvez porque imagino que, um dia, quando eu já não estiver cá, o meu blogue continuará vivo durante alguns meses. Depois desaparecerá também. Como eu.
E está tudo bem.
As palavras também têm o seu ciclo de vida.
Hoje escrevo sem grandes filtros.
Talvez porque bebi mais um copo do que devia.
Sim, estou alcoolizada.
E, curiosamente, o álcool tem esta estranha capacidade de retirar algumas máscaras sem conseguir fabricar autenticidade onde ela não existe. Aquilo que realmente somos acaba quase sempre por encontrar uma forma de aparecer.
Talvez seja por isso que me apetece falar de uma das maiores armadilhas da vida.
A comparação.
Vivemos numa época em que passámos a observar a vida dos outros como quem percorre uma montra infinita. Vemos conquistas, viagens, carreiras, relações aparentemente perfeitas, corpos impecáveis, sucessos profissionais e uma felicidade cuidadosamente editada. Depois olhamos para a nossa própria existência e perguntamo-nos, quase sem perceber:
Porque é que ainda não cheguei lá?
Mas... chegar onde?
Quem definiu essa meta?
E, sobretudo, quem decidiu que todos partimos do mesmo lugar?
A vida nunca foi igual para todos.
Nunca.
Cada ser humano nasce dentro de circunstâncias que não escolheu. Uns encontram estabilidade onde outros encontram sobrevivência. Uns crescem rodeados de afecto; outros aprendem demasiado cedo que amar também pode doer. Uns recebem oportunidades que outros terão de construir sozinhos. Uns começam a corrida vários metros à frente sem sequer se aperceberem disso.
Por isso, comparar percursos é um dos exercícios mais injustos que podemos fazer connosco.
Imagina uma escadaria.
À primeira vista, todos parecem apenas subir degraus.
Mas basta aproximarmo-nos para perceber que nenhuma escada é igual.
Há quem suba degraus baixos, largos e firmes.
Há quem encontre escadas partidas, inclinadas, escorregadias ou incompletas.
Há quem suba leve.
Há quem transporte nos ombros perdas, responsabilidades, doenças, medos ou culpas que ninguém consegue ver.
E, ainda assim, continuamos a comparar velocidades.
Como se o esforço pudesse ser medido apenas pelo resultado.
Esquecemo-nos de que aquilo que para uma pessoa representa um simples passo pode exigir, para outra, um salto gigantesco.
Há vitórias invisíveis que nunca aparecem em fotografias.
Levantar-se da cama quando a tristeza pesa mais do que o corpo.
Voltar a confiar depois de uma traição.
Sorrir enquanto se atravessa um luto.
Continuar a acreditar quando quase tudo convida à desistência.
Esses também são degraus.
Talvez sejam os mais difíceis.
Vivemos demasiado preocupados em chegar primeiro e demasiado pouco atentos à qualidade da caminhada.
A comparação rouba-nos precisamente isso.
Rouba-nos a capacidade de reconhecer o caminho já percorrido.
Quando olhamos constantemente para o lado, deixamos de ver o chão que conseguimos conquistar.
E existe outro perigo.
Começamos a medir o nosso valor por critérios que nunca escolhemos.
A sociedade transforma sucesso em competição.
As redes sociais transformam felicidade em espectáculo.
O mercado transforma pessoas em desempenho.
Sem nos apercebermos, passamos a acreditar que valemos aquilo que produzimos, aquilo que mostramos ou aquilo que os outros aprovam.
Mas nenhum destes critérios consegue medir uma vida humana.
Como se mede a coragem?
Como se pesa a dignidade?
Como se calcula a força necessária para recomeçar depois de tudo ter desabado?
Não existe régua capaz de responder a estas perguntas.
Porque o essencial nunca foi verdadeiramente quantificável.
Aprendi, talvez mais tarde do que gostaria, que a única comparação que faz sentido é aquela que estabeleço comigo própria.
Quem era eu ontem?
Quem sou hoje?
Estou mais consciente?
Mais livre?
Mais serena?
Mais capaz de amar?
Mais humilde?
Mais inteira?
Se a resposta for sim, ainda que apenas um pouco, então continuo a crescer.
O resto pertence ao ruído.
Respeita o tamanho dos teus degraus.
Não transformes a caminhada de outra pessoa na medida da tua.
Cada história possui um ritmo próprio, uma paisagem diferente e desafios que raramente são visíveis para quem observa de fora.
Talvez nunca saibas o peso que alguém transporta.
E os outros também nunca conhecerão completamente o teu.
Por isso, caminha.
Sem pressa.
Sem culpa.
Sem inveja.
Sem a necessidade constante de provar alguma coisa.
Porque a vida nunca pediu que chegasses antes dos outros.
Pediu apenas que não desistisses de subir a escada que é tua.
E acredita.
Há degraus que demoram anos a vencer.
Mas são precisamente esses que transformam uma subida numa verdadeira história de vida.
______________________________________________© 2014–2026 TeceHistórias (Marisa). Todos os direitos reservados.
Os conteúdos deste blogue, incluindo textos originais, encontram-se protegidos pelo Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos (CDADC) e demais legislação aplicável. É expressamente proibida a reprodução, cópia, transcrição, adaptação, publicação, distribuição, disponibilização pública ou qualquer forma de utilização, total ou parcial, por qualquer meio ou suporte, sem autorização prévia, expressa e escrita da autora. A utilização não autorizada poderá dar origem a responsabilidade civil e criminal nos termos da lei portuguesa da União Europeia.
Comentários
Enviar um comentário