"Quando a tecnologia substitui a competência"

Há um erro que se repete ciclicamente nas políticas públicas: acreditar que modernizar é, por si só, digitalizar. Não é. A modernidade não se mede pelo número de plataformas, aplicações ou algoritmos implementados. Mede-se pela qualidade das soluções, pela robustez dos processos e, sobretudo, pela confiança que as instituições conseguem inspirar.

O recente caso da digitalização dos exames nacionais tornou evidente uma realidade incómoda: não assistimos a uma transformação estrutural do sistema de avaliação, mas antes à digitalização de um procedimento analógico, sem que os seus problemas de fundo fossem verdadeiramente resolvidos.

A diferença é fundamental.

Uma reforma implica repensar processos, antecipar riscos, testar soluções, corrigir falhas e só depois implementar mudanças em larga escala. O que aconteceu foi diferente. Mudou-se a aparência do sistema, mantendo praticamente intacta a sua arquitectura. O papel continuou a existir. Continuou a ser impresso, transportado, organizado, desagrafado, digitalizado e novamente tratado por pessoas. A tecnologia entrou apenas no fim da cadeia, acrescentando novas etapas, novos pontos de falha e novas possibilidades de erro.

Quando um processo se torna mais complexo sem aumentar a sua fiabilidade, dificilmente se pode chamar inovação.

Chama-se burocracia tecnológica.

É uma tendência conhecida em muitas organizações: acredita-se que basta introduzir uma ferramenta digital para que um problema desapareça. Porém, nenhuma tecnologia consegue compensar um modelo organizacional mal concebido. Digitalizar um sistema ineficiente apenas permite cometer os mesmos erros… mais depressa.

Os sinais de alerta existiam. Os testes realizados anteriormente tinham identificado dificuldades relevantes. Em qualquer processo sério de gestão da mudança, esses resultados deveriam ter conduzido a uma implementação gradual, prudente e acompanhada de mecanismos de contingência. A gestão do risco não existe para atrasar a inovação; existe precisamente para impedir que a inovação destrua a confiança.

Quando os alertas são ignorados, o problema deixa de ser tecnológico e passa a ser decisório.

As consequências ultrapassam largamente a dimensão técnica.

Centenas de milhares de alunos ficaram mergulhados na incerteza. Famílias reorganizaram férias, compromissos profissionais e despesas com base num calendário oficial que deixou de oferecer previsibilidade. Professores viram o seu trabalho condicionado por sucessivos adiamentos. A escola, que deveria ser um espaço de estabilidade institucional, passou a transmitir insegurança.

E quando um sistema educativo perde previsibilidade, perde também uma parte da sua autoridade.

A confiança institucional constrói-se lentamente, mas deteriora-se rapidamente.

Talvez o aspecto mais preocupante seja outro: a crescente tendência para confundir inovação com espectáculo tecnológico. Vivemos numa época fascinada pela linguagem da inteligência artificial, da digitalização e da automatização. Tudo parece mais moderno quando recebe uma designação tecnológica, mesmo que a realidade permaneça praticamente inalterada.

Existe uma espécie de sedução colectiva pela novidade.

Como se o simples facto de algo ser digital o tornasse automaticamente melhor.

Não torna.

Uma má decisão continua a ser uma má decisão, mesmo quando executada através de uma plataforma sofisticada.

Da mesma forma, uma boa prática pedagógica não se torna obsoleta apenas porque nasceu antes da era digital.

A educação sempre foi um exercício profundamente humano.

A tecnologia pode ser um instrumento extraordinário ao serviço da aprendizagem, da organização e da avaliação. Mas um instrumento nunca substitui o discernimento. Nenhum algoritmo corrige uma decisão mal preparada. Nenhuma plataforma compensa a ausência de planeamento. Nenhuma inteligência artificial consegue produzir competência administrativa quando esta não existe.

A verdadeira inovação exige humildade.

Humildade para testar antes de generalizar.

Humildade para ouvir quem trabalha diariamente nas escolas.

Humildade para reconhecer limitações.

Humildade para corrigir quando algo falha.

As organizações mais maduras não são aquelas que nunca erram. São aquelas que aprendem antes de transformar os erros em crises nacionais.

Num sistema educativo, cada decisão afecta muito mais do que números estatísticos. Atrás de cada exame existe um aluno, uma família, um projecto de vida, expectativas, ansiedade e meses de trabalho. Quando essa dimensão humana desaparece da tomada de decisão, a gestão transforma-se num exercício meramente administrativo.

E a educação nunca poderá ser apenas administração.

Não se trata de rejeitar a tecnologia.

Seria um erro tão grande como idolatrá-la.

Trata-se de lhe devolver o lugar que lhe pertence: o de ferramenta e não de finalidade.

Antes de anunciar revoluções digitais, talvez fosse prudente garantir aquilo que continua a ser essencial: processos simples, sistemas robustos, calendários fiáveis e instituições capazes de cumprir a palavra que dão aos cidadãos.

Porque a verdadeira modernidade nunca consistiu em parecer inovador.

Consistiu, sempre, em fazer bem aquilo que verdadeiramente importa.

Há uma coisa que a vida me ensinou, por vezes da forma mais dura.

As instituições não são os edifícios. Não são os regulamentos. Não são as plataformas digitais nem os organogramas.

As instituições são pessoas.

E quando as pessoas deixam de ser o centro das decisões, tudo o resto perde sentido.

Eu já conheci uma escola onde, demasiadas vezes, senti que os alunos eram vistos como números e não como seres humanos. Vivi uma realidade onde a empatia nem sempre encontrava lugar, onde o respeito era, por vezes, substituído pela formalidade e onde a autoridade parecia, em alguns casos, confundir-se com intocabilidade. Também senti que parte do profissionalismo que um dia caracterizou a escola pública se foi diluindo, deixando espaço a uma cultura onde questionar era, muitas vezes, mal recebido.

Nunca escondi estas críticas. Continuo a não escondê-las.

Mas precisamente por isso recuso ser intelectualmente desonesta.

Porque uma consciência íntegra não escolhe a verdade apenas quando ela lhe convém.

Neste caso, não consigo apontar o dedo aos professores.

Seria profundamente injusto.

Neste caso, vejo alunos, encarregados de educação e professores exatamente do mesmo lado.

Todos foram vítimas de uma decisão que não tomaram.

Os alunos ficaram suspensos na incerteza, precisamente num dos momentos mais importantes do seu percurso escolar.

Os pais reorganizaram férias, compromissos profissionais, despesas e vidas inteiras com base num calendário oficial que lhes transmitia segurança.

E milhares de professores voltaram, uma vez mais, a suportar o desgaste de um sistema cujas opções estratégicas não lhes pertencem, mas cujas consequências acabam inevitavelmente por recair sobre o seu trabalho.

É por isso que acredito que uma sociedade madura não procura culpados fáceis.

Procura responsabilidades.

Porque responsabilidade e culpa não são sinónimos.

A culpa simplifica.

A responsabilidade obriga-nos a pensar.

Eu posso continuar a discordar de muitas práticas existentes na escola. Posso continuar a defender que a educação precisa de recuperar uma cultura de exigência, de rigor, de humanidade e de verdadeira responsabilidade pedagógica. Posso continuar a acreditar que há profissionais extraordinários e outros que não honram a profissão que escolheram.

Uma coisa nunca anulou a outra.

Generalizar sempre foi uma forma pobre de pensar.

Hoje, mais do que nunca, acredito que este episódio mostrou uma fragilidade muito maior do que um atraso na divulgação de exames.

Mostrou aquilo que acontece quando a tecnologia é colocada à frente das pessoas, quando a vontade política ultrapassa a prudência técnica e quando se anunciam reformas antes de existirem condições para as concretizar.

Nenhum sistema educativo pode esquecer aquilo que lhe dá legitimidade.

As pessoas.

Os alunos não são estatísticas.

Os encarregados de educação não são obstáculos administrativos.

Os professores não são peças descartáveis de uma máquina burocrática.

São seres humanos.

Uns são excelentes pessoas e profissionais, outros não.

E eu aprendi, talvez precisamente porque conheci o lado menos bonito das instituições, e o mais belo das instituições, que uma escola só merece verdadeiramente esse nome quando nunca perde de vista a humanidade daqueles que a constroem todos os dias.

É essa escola que continuo a desejar.

E é por essa que continuarei a escrever.

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