"Ensino"
Antes de mais, quero situar o meu lugar nesta reflexão.
Não escrevo como ministra, nem como dirigente escolar, nem como investigadora em políticas públicas. Escrevo como encarregada de educação. Alguém que acompanha um filho, que conversa com professores, que observa a escola por dentro e por fora e que acredita profundamente que a educação é demasiado importante para ser reduzida a métricas, plataformas e calendários administrativos.
Não tenho a pretensão de possuir todas as respostas.
Mas tenho o dever de fazer perguntas.
Porque é precisamente quando uma sociedade deixa de questionar a escola que começa a perder o futuro.
Durante semanas ouvimos falar de plataformas, digitalização, algoritmos, prazos, classificações, digitalizadores, inteligência artificial e procedimentos técnicos. Tudo isso pode ser importante. A tecnologia é um instrumento extraordinário quando serve o ser humano. O problema começa quando o instrumento passa a comandar quem o criou.
A escola nunca foi apenas um lugar onde se atribuem classificações.
Foi, antes de tudo, um lugar onde se aprende.
E aprender nunca significou apenas obter uma nota.
Todos nós nos lembramos daquilo que um bom professor dizia antes de um exame.
"Leiam todas as perguntas primeiro."
"Não fiquem bloqueados numa questão difícil."
"Respirem."
"Dormiram bem?"
"No final revejam tudo."
Depois vinham as correções. Não apenas a classificação, mas a explicação. O erro era identificado, compreendido e transformado numa oportunidade de aprendizagem. Havia diálogo. Havia tempo. Havia presença.
Porque corrigir nunca foi apenas atribuir uma nota.
Corrigir é ensinar.
Classificar é apenas medir.
E medir nunca educou ninguém.
Aquilo que mais me preocupa em toda esta crise não é apenas o atraso das classificações ou a sucessão de falhas técnicas.
É aquilo que elas revelam.
Revelam uma visão da educação onde a eficiência começa lentamente a substituir a relação humana.
Onde o procedimento ganha prioridade sobre a compreensão.
Onde o cumprimento do calendário parece mais importante do que a confiança de alunos, famílias e professores.
Enquanto mãe, vejo algo que me inquieta profundamente.
Quando uma criança entrega um exame, não entrega apenas respostas.
Entrega horas de estudo.
Entrega ansiedade.
Entrega expectativas.
Entrega uma parte da sua autoestima.
Do outro lado, um professor não corrige apenas folhas.
Lê raciocínios.
Interpreta erros.
Percebe dificuldades.
Reconhece progressos que uma grelha dificilmente consegue traduzir.
Reduzir esse encontro entre inteligência e humanidade a um processo mecanizado empobrece ambos.
Também não consigo ignorar outra realidade.
Vivemos uma época fascinada pela quantificação.
Tudo precisa de ser medido.
O desempenho.
A produtividade.
Os resultados.
Os indicadores.
Os gráficos.
Os rankings.
Mas nem tudo aquilo que verdadeiramente importa pode ser convertido em números.
Quem mede a curiosidade?
Quem mede a criatividade?
Quem mede a coragem de um aluno que finalmente levanta a mão depois de meses em silêncio?
Quem mede a confiança que um professor devolve a uma criança que acreditava não ser capaz?
Há dimensões da educação que simplesmente recusam viver dentro de uma folha de cálculo.
Observo igualmente um fenómeno mais amplo.
A aceleração constante da vida tem-nos levado a confundir rapidez com qualidade.
Responder depressa tornou-se mais importante do que responder bem.
Produzir mais tornou-se mais importante do que compreender melhor.
E talvez seja precisamente essa lógica que hoje invade tantas instituições.
No entanto, educar nunca foi um acto industrial.
É um dos trabalhos mais profundamente humanos que existem.
Exige escuta.
Tempo.
Presença.
Discernimento.
Nenhum algoritmo consegue substituir a sensibilidade de um professor que percebe, apenas pelo olhar, que um aluno não errou porque não estudou, mas porque naquele dia a sua vida estava demasiado pesada para conseguir pensar.
Isso não significa rejeitar a tecnologia.
Significa recolocá-la no lugar certo.
A inteligência artificial pode apoiar.
Pode acelerar tarefas repetitivas.
Pode organizar informação.
Mas nunca deverá substituir o julgamento pedagógico, a relação educativa nem o pensamento crítico.
Uma escola verdadeiramente moderna não é aquela que possui mais computadores.
É aquela que continua a formar pessoas capazes de pensar, imaginar, dialogar, criar, discordar com respeito e compreender a complexidade do mundo.
Como encarregada de educação, acredito profundamente que professores, alunos e famílias não são adversários.
São parceiros.
Quando uma decisão prejudica simultaneamente alunos, encarregados de educação e professores, talvez seja altura de parar, escutar e reconhecer que alguma coisa falhou no próprio sistema.
A escola merece mais do que uma gestão de crises.
Merece uma visão.
Uma visão onde o conhecimento continua a ter valor, onde o rigor não elimina a humanidade, onde a inovação não destrói aquilo que durante séculos fez da educação um dos maiores patrimónios da civilização.
Porque, no fim, nenhuma plataforma educa.
Nenhum algoritmo inspira.
Nenhuma estatística desperta uma vocação.
São sempre pessoas que educam pessoas.
Uns extremamente humanos e com uma aptidão inata, outros esforçados e os maus.
E enquanto continuarmos a lembrar-nos disso, haverá esperança para a escola.
É essa esperança que, enquanto mãe e encarregada de educação, continuo a recusar perder.
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