"A Inveja Nunca Quis Ter Razão. Quis Sempre Ter Lugar."

Há emoções profundamente humanas que merecem compaixão. A inveja é uma delas.

Não porque seja nobre, mas porque raramente nasce da abundância. Nasce quase sempre da experiência íntima da insuficiência. É o desconforto que surge quando a existência do outro obriga alguém a confrontar-se com aquilo que gostaria de ter sido, feito ou alcançado.

A inveja nunca começa no outro.

Começa na incapacidade de fazer as pazes consigo própria.

Por isso é um erro pensar que o invejoso sofre por causa da felicidade alheia.

Não.

Ele sofre porque a felicidade do outro interrompe a narrativa que construiu para justificar a sua própria estagnação.

É um mecanismo profundamente humano.

Quando a realidade ameaça a imagem que construímos de nós mesmos, a mente procura proteger-se. Em vez de rever escolhas, rever crenças ou assumir responsabilidades, torna-se psicologicamente mais confortável diminuir o mérito de quem conseguiu aquilo que desejávamos alcançar. A crítica passa a funcionar como um analgésico do ego. Não resolve a frustração; apenas a torna momentaneamente suportável.

É por isso que tantas pessoas preferem atacar o percurso alheio em vez de examinar o próprio.

A comparação deixa de ser um instrumento de crescimento e transforma-se numa prisão.

A vida passa a ser observada como um campeonato permanente, onde o sucesso do outro é vivido como uma derrota pessoal.

Mas a existência nunca foi uma competição.

Foi sempre uma construção.

Curiosamente, uma das maiores ilusões sociais consiste em acreditar que conhecemos alguém a partir dos títulos que possui ou da profissão que exerce.

Nunca organizei as minhas relações dessa forma.

Tenho amigas que dedicaram a vida ao estudo da literatura, da linguística, da teoria literária, da crítica textual, da filologia, da estilística e da escrita. Mulheres cujo trabalho consiste precisamente em compreender a arquitetura das palavras, desmontar textos, reconhecer recursos expressivos, corrigir, interpretar e ensinar.

São elas que, muitas vezes, leem aquilo que escrevo.

Corrigem.

Questionam.

Discordam.

Mostram-me onde posso crescer.

E sou profundamente grata por isso.

Tenho igualmente amigas advogadas, médicas, psicólogas, enfermeiras, professoras, técnicas superiores, operárias fabris, empresárias, desempregadas e mulheres cujas profissões nunca determinaram o lugar que ocupam no meu coração.

Porque nunca aprendi a classificar pessoas pelo estatuto.

Aprendi a reconhecê-las pela integridade.

Pela inteligência.

Pela generosidade.

Pela capacidade de permanecerem presentes quando já não existe qualquer benefício em permanecer.

Talvez seja precisamente aqui que as perspetivas se separam.

Há quem veja profissões.

Eu vejo pessoas.

Há quem veja prestígio.

Eu vejo histórias.

Há quem veja utilidade.

Eu vejo humanidade.

É uma diferença aparentemente pequena.

Na verdade, muda completamente a forma de habitar o mundo.

Também escrevo.

Mas escrevo, antes de tudo, para compreender.

Escrever obriga-me a estudar.

A reler.

A investigar.

A confrontar as minhas próprias ideias.

A abandonar certezas demasiado rápidas.

A escrita, quando levada a sério, não é um exercício de vaidade intelectual.

É um exercício permanente de humildade.

Quanto mais leio, mais descubro aquilo que ainda ignoro.

Quanto mais estudo, menos necessidade sinto de provar superioridade.

O verdadeiro conhecimento produz uma consequência curiosa.

Não aumenta o ego.

Alarga a consciência.

Se aquilo que escrevo encontra leitores, agradeço.

Mas nunca confundi visibilidade com valor.

São conceitos profundamente diferentes.

A visibilidade depende, muitas vezes, das circunstâncias.

O valor depende daquilo que permanecemos quando as circunstâncias desaparecem.

O mesmo acontece na vida pessoal.

Tenho um casamento construído diariamente sobre respeito, diálogo, lealdade, amizade e responsabilidade mútua.

Tenho filhos que me enchem de orgulho, não porque correspondam a qualquer ideal de perfeição, mas porque crescem procurando ser honestos, compassivos, curiosos e livres.

Tenho amigos.

Tenho afeto.

Tenho tempo partilhado.

Tenho paz.

E essas realidades não existem para serem exibidas.

Existem para serem vividas.

Talvez seja precisamente isso que algumas pessoas nunca compreendem.

Aquilo que verdadeiramente sustenta uma vida raramente é aquilo que pode ser mostrado.

É aquilo que permanece quando ninguém está a olhar.

No fundo, a inveja revela uma enorme tragédia antropológica.

Quem vive obcecado com a comparação deixa de existir como sujeito da própria história e passa a ocupar-se permanentemente da história dos outros.

A identidade deixa de ser construída a partir da criação e passa a depender da reação.

É uma existência heterónoma, permanentemente governada pelo olhar exterior.

A liberdade desaparece.

E, sem liberdade interior, também desaparece a alegria.

Porque a inveja possui uma característica devastadora.

Nunca permite descanso.

Quando o outro fracassa, oferece apenas um alívio efémero.

Quando o outro cresce, reabre imediatamente a ferida.

Nada basta.

Nada chega.

Nada pacifica.

É uma fome que se alimenta de comparação e, por isso mesmo, nunca conhece saciedade.

Talvez por isso eu já não sinta necessidade de convencer ninguém de quem sou.

Quem vive reconciliada consigo própria compreende que a identidade não depende das interpretações alheias.

Depende da coerência entre aquilo que se pensa, aquilo que se diz e aquilo que se vive.

No fim, cada pessoa acaba por colher aquilo que diariamente cultiva dentro de si.

Quem cultiva ressentimento aprende a olhar o mundo através da escassez.

Quem cultiva conhecimento aprende a admirar sem se diminuir.

Quem cultiva humanidade compreende que o brilho de outra pessoa nunca apaga a sua própria luz.

Porque a luz nunca foi um recurso limitado.

Só a inveja insiste em acreditar que é.

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Nota da autora

Há uma ideia romântica de que escrever é um ato solitário. Nunca senti que fosse totalmente verdade.

Este texto nasceu da minha reflexão, mas, como tantos outros, foi amadurecendo graças às pessoas que, generosamente, aceitam lê-lo antes de chegar aos leitores. Não para me dizerem aquilo que quero ouvir, mas para me ajudarem a pensar melhor, a escrever com mais rigor e a encontrar formas mais claras de dizer aquilo que verdadeiramente pretendo transmitir.

Por isso, deixo aqui um agradecimento sincero à Gracinda, ao Luís, à Helena, à Mónica, à Teresa e à Raquel. Cada um, à sua maneira, contribui com observações, críticas construtivas, sugestões e conselhos que valorizo profundamente. Nem sempre concordamos em tudo, e ainda bem. É dessa liberdade de pensamento que nasce, muitas vezes, um texto mais sólido.

Agradeço igualmente à minha família. Ao meu marido, companheiro de caminho e de vida, e aos meus filhos, que tantas vezes transformam uma conversa à mesa, uma pergunta inesperada ou uma simples reflexão num ponto de partida para novos textos. Escrever deixou, há muito, de ser apenas um exercício individual; tornou-se também uma forma de partilhar pensamento em família.

Se estes textos conseguem chegar a alguém, é porque foram escritos com honestidade, mas também porque tiveram a felicidade de encontrar pessoas que nunca hesitaram em dizer: "podes ir mais longe", "pensa melhor esta ideia" ou "esta palavra ainda não é a certa".

A todas elas, a minha profunda gratidão.

No fim, continuo a acreditar que escrever não é um gesto de afirmação. É, antes de tudo, um exercício permanente de aprendizagem. E aprende-se sempre melhor quando o caminho é percorrido com quem nos estima o suficiente para nos ajudar a crescer.

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