"A mulher, o desejo e a coragem de habitar o próprio corpo"

Durante demasiado tempo, ensinaram a mulher a conhecer o mundo antes de lhe permitirem conhecer-se a si própria.

Ensinaram-na a cuidar, a servir, a proteger, a compreender, a escutar. Prepararam-na para ser filha, esposa, mãe, profissional e, tantas vezes, o lugar seguro onde todos os outros encontram descanso. Contudo, entre tantas aprendizagens, esqueceram-se de uma das mais importantes: ensinaram-na pouco a habitar o próprio corpo sem culpa.

É curioso. Desde a Antiguidade que o corpo feminino ocupa a pintura, a escultura, a poesia e a literatura. Foi exaltado, contemplado, desejado, regulamentado, censurado e interpretado. Todos pareciam ter algo a dizer sobre ele. Poucos perguntaram à mulher como era viver dentro dele.

Talvez por isso ainda exista quem core de vergonha ao pronunciar palavras como desejo, prazer ou orgasmo, como se a dignidade feminina dependesse da ignorância do próprio corpo. Mas a ignorância nunca foi sinónimo de virtude. O conhecimento, quando aliado à consciência e ao respeito, nunca diminui a pessoa; torna-a mais livre.

A sexualidade não é um apêndice da existência humana. É uma das linguagens através das quais o ser humano comunica afecto, pertença, intimidade, confiança e vulnerabilidade. O corpo não é apenas matéria biológica; é memória, identidade, história, emoção e relação. Cada gesto de ternura, cada abraço, cada olhar demorado e cada toque transportam significados que antecedem as palavras.

Talvez seja precisamente por isso que a sexualidade desperta tantas inquietações. Ela obriga-nos a abandonar personagens. Diante da intimidade verdadeira desaparecem os títulos, os estatutos, as máscaras sociais e as aparências cuidadosamente construídas. Permanecem apenas duas pessoas na sua condição mais humana: vulneráveis.

É precisamente essa vulnerabilidade que tantas mulheres aprenderam a esconder.

Durante gerações, confundiu-se pudor com silêncio.

Confundiu-se discrição com repressão.

Confundiu-se respeito com negação do desejo.

Criou-se uma narrativa subtil segundo a qual uma mulher respeitável deveria quase não possuir corpo, como se o desejo fosse uma característica exclusivamente masculina e o prazer feminino uma concessão, nunca um direito inerente à própria natureza humana.

Contudo, a realidade é muito mais rica do que os preconceitos permitiram admitir.

O desejo feminino não obedece a uma fórmula universal.

Não existe uma única forma de sentir.

Nem existe uma forma correcta de viver a intimidade.

Cada mulher possui uma identidade afectiva, emocional e corporal absolutamente singular. O desejo acompanha as transformações da vida. Sofre influência da idade, da maternidade, da saúde física, das experiências passadas, da confiança construída na relação, do estado emocional, da qualidade da comunicação e até da forma como cada mulher olha para si própria.

Por isso, nenhuma mulher deveria sentir vergonha por conhecer aquilo que a faz sentir confortável, segura ou feliz.

Conhecer o próprio corpo não representa narcisismo.

Representa literacia.

Representa consciência.

Representa responsabilidade.

A educação ensina-nos a conhecer a História, a Matemática, a Literatura, as Ciências. Porque motivo deveria o conhecimento do próprio corpo permanecer envolvido em ignorância?

A maturidade afectiva nasce precisamente quando deixamos de tratar a sexualidade como um território proibido e começamos a reconhecê-la como parte integrante da pessoa.

É igualmente importante compreender que o prazer não constitui um luxo nem uma recompensa moral.

É uma resposta fisiológica profundamente complexa.

Durante o orgasmo ocorre uma extraordinária coordenação entre cérebro, sistema nervoso, hormonas e emoções. Libertam-se substâncias associadas ao bem-estar, diminuem-se níveis de tensão, aumenta a sensação de proximidade afectiva e muitas pessoas descrevem uma experiência de profundo relaxamento físico e emocional. A ciência demonstra aquilo que o ser humano sempre intuiu: corpo e mente nunca funcionaram verdadeiramente separados.

Algumas mulheres conseguem experienciar orgasmos múltiplos. Outras vivem um único orgasmo. Outras demoram mais tempo a descobrir aquilo de que gostam. Outras ainda atravessam fases da vida em que o desejo diminui naturalmente.

Nada disto estabelece uma hierarquia entre mulheres.

A sexualidade nunca deveria ser um espaço de comparação.

Muito menos de desempenho.

Não existem mulheres melhores porque sentem mais, nem mulheres inferiores porque sentem de maneira diferente.

Existe apenas diversidade.

E a diversidade nunca deveria ser confundida com anormalidade.

Talvez uma das maiores demonstrações de intimidade seja precisamente a capacidade de falar.

Muitas mulheres continuam a sentir receio de dizer ao marido ou companheiro aquilo que apreciam, aquilo que as faz sentir seguras, aquilo que lhes desperta desejo ou, simplesmente, aquilo que não desejam viver.

Curiosamente, pedimos comunicação para resolver conflitos financeiros, familiares e educativos, mas continuamos a considerar embaraçoso comunicar sobre uma dimensão igualmente importante da vida conjugal.

No entanto, nenhuma intimidade amadurece onde existe medo.

O silêncio protege o constrangimento.

A palavra protege a relação.

Quem ama verdadeiramente não procura adivinhar.

Procura compreender.

E compreender exige escutar.

Também importa abandonar outro equívoco profundamente enraizado.

A liberdade sexual nunca significou ausência de valores.

Pelo contrário.

Quanto maior é a liberdade, maior se torna a responsabilidade.

O consentimento, o respeito, a reciprocidade, a ternura, a confiança e a dignidade constituem os verdadeiros pilares de uma sexualidade humana madura. Não é a intensidade do desejo que engrandece uma relação. É a qualidade ética com que duas pessoas escolhem cuidar uma da outra.

Talvez seja precisamente aqui que reside a verdadeira emancipação feminina.

Não na permanente necessidade de provar independência.

Nem na obrigação de corresponder a modelos impostos.

Mas na serenidade de poder dizer:

"Conheço-me."

"Respeito-me."

"Não sinto vergonha do meu corpo."

"Não tenho receio de comunicar aquilo que sinto."

"Não preciso de esconder uma dimensão da minha humanidade para ser considerada uma mulher digna."

Porque uma mulher não perde respeitabilidade quando reconhece o próprio desejo.

Perde-a apenas quando deixa de respeitar a si mesma.

A sexualidade nunca diminuiu a inteligência.

Nunca anulou a espiritualidade.

Nunca empobreceu o carácter.

Pelo contrário, quando integrada numa vida afectiva saudável, torna-se uma expressão de confiança, de entrega consciente e de encontro entre duas liberdades que escolhem caminhar lado a lado.

No fundo, talvez a maturidade consista exactamente nisto: deixar de viver dividida entre corpo e alma, como se fossem adversários.

O ser humano nunca foi essa divisão.

Somos uma unidade.

Pensamos com a mente.

Sentimos com o coração.

Vivemos através do corpo.

Quando estas três dimensões finalmente deixam de competir entre si, nasce uma forma rara de liberdade: a de habitar plenamente quem somos, sem culpa, sem vergonha e sem necessidade de pedir autorização para existir.

E talvez seja essa a maior beleza da sexualidade humana.

Não o prazer em si.

Mas a possibilidade de duas pessoas se encontrarem com tal verdade que já não precisam de esconder nenhuma parte daquilo que são.

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