"Dá a mão à tua própria escuridão"
Há uma ideia profundamente enraizada na cultura contemporânea: a de que viver bem significa eliminar tudo o que nos incomoda. Fugimos da tristeza, anestesiamos o medo, escondemos a fragilidade e tentamos apagar qualquer sinal de vulnerabilidade, como se a felicidade dependesse da ausência de sombras.
Mas a alma humana não funciona assim.
Nenhum ser humano é feito apenas de luz.
Todos transportamos zonas menos iluminadas: medos antigos, culpas, perdas, inseguranças, desejos contraditórios, memórias que ainda doem, palavras que nunca conseguimos dizer e lágrimas que aprendemos a engolir para parecermos fortes. Negar essa realidade não nos torna mais saudáveis; torna-nos apenas mais distantes de nós próprios.
Por isso, hoje não te peço que combatas a tua escuridão.
Peço-te algo muito mais difícil.
Dá-lhe a mão.
Não lutes contra ela.
Não a escondas.
Não a condenes.
Escuta-a.
Porque aquilo que mais tentamos calar costuma ser precisamente aquilo que mais precisa de ser compreendido.
A psicologia ensina-nos que as emoções reprimidas não desaparecem. Continuam a existir, mas mudam apenas de linguagem. Aquilo que não encontra palavras encontra sintomas. O medo transforma-se em ansiedade. A tristeza instala-se como vazio. A raiva converte-se em irritabilidade. O sofrimento que recusamos olhar acaba, muitas vezes, por falar através do corpo, do cansaço ou da incapacidade de sentir verdadeira paz.
Também a psicanálise nos recorda que nenhuma personalidade se constrói apenas com aquilo que aceita mostrar. Existe sempre uma dimensão menos consciente, onde habitam experiências, afectos e conflitos que influenciam silenciosamente a forma como pensamos, escolhemos e nos relacionamos. Não é a sombra que nos torna perigosos. O que nos torna vulneráveis é fingir que ela não existe.
Quanto mais negamos partes de nós, mais poder lhes entregamos.
A verdadeira maturidade não consiste em eliminar a escuridão.
Consiste em integrá-la.
Há uma diferença profunda entre viver dominada pelas tuas feridas e aprender com elas.
A primeira aprisiona-te.
A segunda transforma-te.
Por detrás de cada medo existe, muitas vezes, uma necessidade de segurança que um dia não foi satisfeita.
Por detrás de cada reacção desproporcionada existe, frequentemente, uma dor antiga que ainda procura sentido.
Por detrás da rigidez pode esconder-se alguém que aprendeu demasiado cedo que ser vulnerável era perigoso.
Por detrás da necessidade constante de agradar pode existir apenas uma criança que confundiu amor com aprovação.
Ninguém nasce fragmentado.
Vamos fragmentando a nossa identidade para sobreviver.
E passamos anos a tentar recuperar aquilo que fomos obrigados a esconder.
Talvez seja por isso que a verdadeira cura nunca acontece quando expulsamos as nossas sombras.
Acontece quando deixamos de lhes ter medo.
Porque aquilo que é acolhido deixa de precisar de gritar.
Aquilo que é compreendido deixa de exigir máscaras.
Aquilo que é amado deixa, finalmente, de viver em guerra connosco.
Existe uma imagem que sempre me comove.
A de uma criança assustada.
Quando uma criança tem medo, ninguém sensato lhe apaga a existência por estar a chorar. Não a acusa de ser fraca. Não a rejeita por tremer. Aproxima-se, segura-lhe a mão, acolhe-a e permanece ao seu lado até que volte a sentir segurança.
Porque razão tratamos a nossa dor com menos ternura do que trataríamos uma criança?
Porque insistimos em exigir perfeição a alguém que apenas precisava de compreensão?
A compaixão começa precisamente aí.
Na forma como nos olhamos quando ninguém está a ver.
Quem aprende a acolher as próprias fragilidades deixa também de precisar de condenar as fragilidades dos outros.
A empatia nasce sempre do autoconhecimento.
Quem fez as pazes consigo própria deixa de viver em permanente combate com o mundo.
Não porque a vida se tenha tornado fácil.
Mas porque deixou de travar a guerra mais destrutiva de todas: a guerra contra si mesma.
Por isso, não rejeites aquilo que ainda dói.
Não fujas da tua escuridão.
Senta-te ao lado dela.
Escuta o que ela veio ensinar-te.
Talvez descubras que nunca foi tua inimiga.
Era apenas uma parte de ti que esperou anos por ser vista sem julgamento.
E é precisamente nesse instante — quando deixas de combater aquilo que és e começas finalmente a acolher-te por inteiro — que a luz deixa de ser uma aparência.
Passa a ser uma consequência.
Porque a luz verdadeira não nasce da negação da sombra.
Nasce da coragem serena de a abraçar com verdade, humanidade e amor.
______________________________________________© 2014–2026 TeceHistórias (Marisa). Todos os direitos reservados.
Os conteúdos deste blogue, incluindo textos originais, encontram-se protegidos pelo Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos (CDADC) e demais legislação aplicável. É expressamente proibida a reprodução, cópia, transcrição, adaptação, publicação, distribuição, disponibilização pública ou qualquer forma de utilização, total ou parcial, por qualquer meio ou suporte, sem autorização prévia, expressa e escrita da autora. A utilização não autorizada poderá dar origem a responsabilidade civil e criminal nos termos da lei portuguesa da União Europeia.
Comentários
Enviar um comentário