"Há dias em que basta continuar"

Vivemos numa época que idolatra o movimento.

Tudo nos convida a avançar depressa, a produzir mais, a recuperar rapidamente, a transformar qualquer queda numa história de superação em poucos capítulos. Parece existir uma obrigação silenciosa de estar sempre bem, sempre motivada, sempre pronta para o passo seguinte.

Mas a vida real não conhece essa pressa.

Há momentos em que tudo dentro de nós abranda.

Não porque nos tenhamos tornado fracas.

Mas porque a alma também tem o seu ritmo.

Há dias em que acordamos e sentimos que alguma coisa deixou de fluir. O corpo cumpre a rotina, as palavras saem, o mundo continua a girar, mas por dentro existe uma espécie de suspensão. Uma perda que ainda procura lugar, uma desilusão que não terminou de doer, um medo que se instalou sem pedir licença, uma ansiedade que transforma pequenos gestos em enormes esforços.

É estranho.

Porque olhamos à nossa volta e a vida dos outros parece continuar intacta.

Só a nossa parece ter parado.

Mas será mesmo assim?

Olha para um relógio.

À primeira vista, parece mover-se sem interrupções. No entanto, se o observares com atenção, perceberás que cada segundo conhece uma breve resistência antes de dar lugar ao seguinte. O ponteiro não salta o tempo; atravessa-o. Não elimina o intervalo; incorpora-o. E, ainda assim, ninguém diria que o relógio está parado.

A vida interior obedece à mesma lógica.

Nem sempre avançamos da forma como gostaríamos.

Há fases em que crescemos quase sem nos apercebermos.

Outras em que tudo parece imóvel, quando, na verdade, aquilo que está a mudar é demasiado profundo para ser imediatamente visível.

Há transformações que acontecem na superfície.

E há outras que exigem silêncio.

As primeiras impressionam.

As segundas permanecem.

Talvez uma das maiores violências que cometemos contra nós próprias seja exigir-nos uma velocidade que a nossa humanidade não consegue sustentar.

Queremos compreender imediatamente aquilo que ainda estamos a viver.

Queremos sarar antes de aceitar a ferida.

Queremos voltar a sorrir antes de termos chorado o suficiente.

Queremos chegar, quando ainda estamos a aprender a caminhar.

Mas nenhuma árvore floresce porque alguém lhe grita para crescer mais depressa.

Também ninguém amadurece por decreto.

A dor não é um sinal de fracasso.

É uma experiência.

E como todas as experiências profundas, precisa de tempo para encontrar significado.

Isso não significa romantizar o sofrimento.

Nem fazer dele uma identidade.

A dor não deve ser a casa onde permaneces.

Mas também não precisa de ser a inimiga que tentas expulsar à força.

Há dores que apenas pedem para ser escutadas.

Porque aquilo que é verdadeiramente acolhido deixa, lentamente, de precisar de gritar.

Há uma diferença enorme entre estar parada e estar em processo.

Quem está parada desistiu.

Quem está em processo continua, ainda que o caminho seja lento, invisível e, por vezes, solitário.

Não confundas pausa com rendição.

Nem silêncio com ausência de crescimento.

A própria natureza ensina isso.

A semente passa muito tempo debaixo da terra sem que ninguém veja o que está a acontecer. Quem olha de fora pode acreditar que nada mudou. Contudo, é precisamente nesse invisível que as raízes começam a formar-se. E sem raízes profundas, qualquer árvore cai ao primeiro vento.

Talvez a tua vida esteja exactamente nessa estação.

Não na da estagnação.

Mas na da preparação.

Respeita esse tempo.

Não te castigues por ainda não seres a mulher que desejas tornar-te.

Acolhe, com humildade, aquela que és hoje.

Porque é ela quem está a fazer o trabalho difícil que a versão futura de ti agradecerá.

E lembra-te de uma coisa.

A vida nunca te pediu que corresses.

Pediu-te apenas que não desistisses.

Há dias em que avançar significa dar grandes passos.

Noutros, significa apenas levantar-te da cama.

Há dias em que vencer é conquistar um sonho.

Noutros, é simplesmente respirar mais uma vez sem perder a esperança.

Não subestimes esses dias.

São eles que sustentam todos os outros.

No fim, descobrirás que o verdadeiro progresso nunca esteve na velocidade com que caminhavas.

Esteve na coragem silenciosa de continuares a caminhar quando tudo dentro de ti te convidava a parar.

E essa coragem, embora raramente seja aplaudida, é uma das formas mais belas de força humana.

Por isso, sê paciente contigo.

Honra o teu tempo.

Confia no processo.

E continua.

Mesmo devagar.

Porque, por vezes, o maior milagre não é chegar depressa.

É descobrir que, apesar de tudo, nunca deixaste de caminhar.

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