"Deixem-me. Só Isso. Deixem-me."

Hoje não tenho respostas.

Tenho apenas perguntas.

Perguntas que se atropelam umas às outras e às quais ninguém consegue responder.

Porque é que a guerra gera morte... e a morte gera mais guerra?

Porque é que uma dor parece precisar sempre de encontrar outra dor para sobreviver?

Porque é que, quando alguém sofre, sentimos tanta necessidade de procurar um culpado, como se encontrar um nome conseguisse diminuir a ausência?

Não sei.

E talvez seja precisamente isso que mais me angustia.

Não sei.

Não sei como isto aconteceu.

Não sei como chegámos aqui.

Não sei como é possível um ser humano fazer isto a outro ser humano.

Não sei como é possível esquecermo-nos, tantas vezes, de que por detrás de cada rosto existe uma história, uma família, uma infância, uma dor, um coração que bate exatamente como o nosso.

Não sei.

E hoje permito-me, pela primeira vez, não saber.

Por favor...

Deixem-me.

Deixem-me tentar compreender aquilo que, neste momento, ainda não consigo compreender.

Deixem-me pegar em todos os cacos que ficaram espalhados dentro de mim e tentar, lentamente, colá-los outra vez.

Mesmo sabendo que algumas peças talvez nunca voltem ao lugar de onde partiram.

Deixem-me respirar.

Porque há dias em que até respirar parece exigir uma coragem desmedida.

Deixem-me chorar sem me perguntarem porquê.

Deixem-me ficar em silêncio sem interpretarem esse silêncio.

Deixem-me sentir.

Porque o luto não é um problema para resolver.

É um amor que ficou sem lugar onde pousar.

Cada pessoa atravessa a perda de forma diferente.

Uns falam.

Outros calam-se.

Uns precisam de companhia.

Outros precisam de se recolher.

Uns revoltam-se.

Outros rezam.

Uns choram todos os dias.

Outros demoram semanas até conseguirem derramar uma única lágrima.

Nenhuma destas formas está errada.

A dor nunca aprendeu a obedecer às expectativas dos outros.

E eu...

Eu ainda não sei como vou fazer este luto.

Não sei.

Estou revoltada.

Não contra uma pessoa apenas.

Estou revoltada com a fragilidade da vida.

Com a facilidade com que perdemos quem julgávamos que ainda teria tanto tempo pela frente.

Com a crueldade que, por vezes, consegue instalar-se entre seres humanos.

Com as palavras que nunca deveriam ter sido ditas.

Com os silêncios que nunca deveriam ter existido.

Estou revoltada porque continuo a acreditar que podíamos ser melhores uns para os outros.

E dói descobrir, uma vez mais, que nem sempre escolhemos sê-lo.

Talvez um dia consiga compreender.

Hoje, não.

Hoje apenas sei que há um aperto dentro de mim que não encontro palavras suficientes para descrever.

Hoje apenas sei que há ausências que ocupam mais espaço do que muitas presenças.

Hoje apenas sei que existem lágrimas que não curam, mas impedem o coração de endurecer.

Por isso, peço apenas uma coisa.

Deixem-me.

Deixem-me viver esta dor ao meu ritmo.

Deixem-me reconstruir a esperança sem me apressarem.

Deixem-me voltar a acreditar na humanidade sem me exigirem que o faça já.

Porque há feridas que o tempo não apaga.

Mas talvez ensine, um dia, a carregá-las com um pouco menos de peso.

Até lá...

Deixem-me respirar.

Só isso.

Deixem-me respirar.

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