"A Forma Mais Silenciosa de Morrer"
Hoje não te quero impressionar com muitas palavras.
Quero apenas deixar-te uma pergunta.
E, se ela permanecer contigo durante o resto do dia, este texto já terá cumprido o seu propósito.
Quando foi a última vez que te sentiste verdadeiramente viva?
Não falo do dia em que respiraste.
Respirar é um fenómeno biológico.
Viver é outra coisa.
Há pessoas que respiram durante oitenta anos e, no entanto, deixaram de viver aos vinte e cinco.
Não morreram.
Foram desistindo.
Acontece devagar.
A alma não fecha as portas de uma só vez.
Vai apenas apagando as luzes, uma divisão de cada vez.
Primeiro deixa-se de sonhar.
Depois deixa-se de aprender.
Mais tarde deixa-se de acreditar que vale a pena recomeçar.
Há quem deixe de rir com vontade.
Há quem abandone os livros, a música, a arte, a oração, os amigos ou a curiosidade.
Há quem deixe de cuidar de si porque, antes disso, já tinha deixado de acreditar no próprio valor.
Há quem nunca mais tire uma fotografia porque já não encontra beleza suficiente no presente para desejar recordá-lo amanhã.
E quase ninguém repara.
Porque estas mortes não fazem manchetes.
Acontecem em silêncio.
É assim que muitas vidas deixam de ser vividas e passam apenas a ser suportadas.
Mas a vida nunca nos pergunta apenas o que nos aconteceu.
Pergunta-nos sempre o que decidimos fazer com aquilo que nos aconteceu.
Essa é a grande diferença.
O sofrimento é inevitável.
A forma como o transformamos nunca é totalmente imposta.
Pensa num rio.
A água nasce pura.
Depois atravessa montanhas, florestas, cidades, terrenos férteis e, por vezes, lugares contaminados.
O percurso altera-lhe a cor, a velocidade, a temperatura, transporta pedras, areia, folhas e até feridas da própria terra.
Ainda assim, o rio continua a correr.
Não permanece eternamente preso ao lugar onde encontrou lama.
Segue.
Renova-se.
Purifica-se.
Encontra novamente a luz.
Também nós atravessamos paisagens interiores muito diferentes.
Há perdas que nos tentam endurecer.
Há traições que nos convidam ao cinismo.
Há injustiças que quase nos convencem de que já não vale a pena confiar.
Mas nenhuma dessas paisagens precisa de se transformar na nossa morada definitiva.
Gosto também de outra imagem, simples, mas profundamente verdadeira.
A vaca bebe água.
E transforma-a em leite.
A cobra bebe exatamente a mesma água.
E transforma-a em veneno.
A água era a mesma.
O que mudou foi aquilo que cada uma transportava dentro de si.
Também a vida oferece, muitas vezes, as mesmas circunstâncias a pessoas diferentes.
Todos conhecemos a dor.
Todos conhecemos a perda.
Todos conhecemos o medo.
Mas nem todos escolhemos cultivá-los da mesma maneira.
Há quem transforme o sofrimento em compaixão.
Outros transformam-no em ressentimento.
Há quem faça da dor um lugar de encontro com os outros.
Outros fazem dela uma arma.
A diferença nunca esteve apenas naquilo que recebemos.
Está naquilo que decidimos produzir a partir do que recebemos.
Quem acredita em Deus sabe que nenhuma noite é definitiva. Descobre que existe uma esperança que não depende da ausência de sofrimento, mas da certeza de que o amor é sempre maior do que a dor. A fé não elimina as tempestades; oferece uma âncora para que não nos percamos nelas.
E mesmo quem percorre outro caminho reconhecerá que a existência permanece aberta enquanto houver capacidade para amar, aprender, criar, perdoar, recomeçar e encontrar sentido.
Por isso, hoje não te peço que ignores as tuas lágrimas.
Nem que escondas o teu cansaço.
Peço-te apenas que não confundas uma estação difícil com o destino final da tua vida.
Não permitas que uma dor temporária decida a pessoa permanente que vais ser.
Volta a plantar.
Volta a estudar.
Volta a caminhar.
Volta a amar.
Volta a confiar.
Volta a criar.
Volta a viver.
Porque a morte mais triste não é aquela que encerra a vida.
É aquela que encerra a esperança enquanto ainda existe tempo para florescer.
E acredita...
Enquanto houver um rio capaz de continuar o seu caminho e um coração capaz de escolher entre transformar a água em leite ou em veneno, haverá sempre liberdade para recomeçar.
Não te deixes morrer.
Ainda há demasiada vida à tua espera.
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