"Sou Caranguejo, não Sou Fotocópia"
Ontem fui beber um café com um casal amigo. Digo “café”, mas não era café. Nem sumo natural, apesar de eu ter jurado qualquer coisa mais saudável. Acabou por ser cocktail com álcool, e confesso: foi melhor assim. O álcool, esse pequeno demónio líquido, dá-me a coragem de falar sem freio, de ser eu em volume máximo, sem botões de pausa nem legendas para distraídos. A minha sinceridade incomoda, a minha autenticidade assusta, e a minha sensibilidade… essa é quase ofensiva. Mostro demasiado, sinto demasiado, exponho o que os outros tentam disfarçar com filtros de Instagram existencial.
A mesa foi crescendo, como um buffet de almas e bebidas. Cada pessoa trazia um sabor, uma cor, uma gargalhada ensaiada. Eu observava tudo como um caranguejo na maré baixa: de lado, discreta, mas com pinças afiadas prontas para qualquer deslize. É esta a minha natureza. Sou protetora, cautelosa, desconfiada mas intensamente presente. Capto detalhes que os outros nem sonham — aquele olhar trocado, aquela pausa no riso, o silêncio que denuncia mais do que uma frase inteira. A minha intuição não é qualidade: é sentença.
Foi então que uma jovem, talvez embalada pelo prosecco ou pela ingenuidade, me pediu: “Podes fazer uma discriminação?” Sorri. Sorri porque sei que quem pede a verdade não está preparado para a ouvir. “É difícil gostar de mim,” respondi. “A minha sensibilidade incomoda, a minha sinceridade desmonta, a minha lealdade obriga. Não sou um prato de fast food emocional; sou um banquete complexo, cheio de temperos fortes. Quem se aproxima e sente a confiança que ofereço, sabe: não há réplica. As cópias não sobrevivem à autenticidade. Não se falsifica cuidado genuíno, nem carinho sem prazo de validade.”
Ser Caranguejo é isto: ser uma fortaleza ambulante. Dou colo, dou proteção, dou amor, mas exijo autenticidade. A minha lealdade não é passiva; é uma presença constante, meticulosa, quase obsessiva. Sou aquela que se lembra do pormenor, do café que preferes, da dor que escondeste, do sorriso que não mostraste. A minha fidelidade é como o mar: pode parecer calma, mas tem profundidades que arrastam. Não é só estar ao teu lado nos bons momentos — é saber defender-te quando não estás, é lutar por ti em silêncio, é guardar-te nos lugares mais íntimos da minha memória sem pedir nada em troca.
Sou maternal sem ser asfixiante, emocional sem ser frágil, imaginativa sem me perder na fantasia. Tenho memória de ferro — e aviso: não esqueço, nunca. Guardo gestos, palavras, intenções. Cada detalhe pesa, cada detalhe conta. Quem pensa que passa despercebido ao meu radar, desengane-se: não há movimento pequeno que não fique gravado.
O álcool deixou-me filosófica, sim, mas também mais venenosa. Enquanto uns se afogavam em superficialidades, eu mergulhava fundo na minha própria essência. Sou maré, sou farol, sou concha, sou silêncio. E cada camada minha é lealdade, fidelidade, sensibilidade, proteção, imaginação, intuição, perspicácia. Não é fácil conviver comigo, não. Mas quem consegue, nunca mais encontra igual.
E quando alguém se vai embora, leva a punição mais cruel: a ausência. A falta do cuidado constante, da escuta ativa, da ternura genuína, do afeto sem contrato. Quem perde um caranguejo, perde um pedaço de casa, perde segurança, perde aquele colo que não volta. O vazio é irremediável porque não há substitutos.
No fim da noite, entre cocktails e confissões, percebi o óbvio: a autenticidade é um luxo. O mundo prefere cafés mornos, prefere conversas rasas, prefere relações descartáveis. Eu não. Eu sou cocktail: forte, intenso, marcante, impossível de digerir sem impacto.
Sou Caranguejo: leal até ao osso, fiel até à medula, sensível até ao escândalo, protetora até à exaustão, imaginativa até à loucura, emocional até à poesia, intuitiva até ao arrepio, perspicaz até à crueldade.
Sou Caranguejo — e não sou fotocópia.
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"Texto de autoria de(tecehistorias ) <Marisa>, publicado em Fios de Imaginação(@"fios de imaginação") (@tecehistorias)."
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