"O silêncio do pai, o gesto do filho"

 Hoje é um dia que se curva diante da memória e se ergue diante da esperança. Dezesseis anos se passaram desde a partida de meu pai, e ainda assim o eco da ausência continua a ressoar dentro de mim como um sino que nunca se cala. É um luto que não se extingue, apenas se transforma, como um rio que encontra novos leitos sem jamais perder sua nascente. A saudade é uma forma de presença que, paradoxalmente, sustenta o coração no vazio.

E é precisamente hoje, no mesmo dia em que recordo a ausência, e comemoro trinta anos com o meu marido, que meu filho — fruto da continuidade, testemunha viva de que o amor não morre — me pede para acompanhar-me na procissão. Não houve catecismo imposto, nem palavras que moldassem sua decisão. Foi a pureza de um gesto, uma escolha nascida da liberdade e do afeto. Há nisso algo de sagrado: uma criança que se coloca ao lado da mãe não por obrigação, mas por amor.

Segurarei o pendão da mensagem de Fátima com mãos firmes e alma trêmula. Ao meu lado, meu filho — herdeiro de uma linhagem invisível, ponte entre o avô que partiu e a fé que permanece. A procissão deixa de ser apenas ritual e se torna metáfora: caminhar pelas ruas é caminhar também pela história de uma família, pela memória dos que se foram, pela entrega dos que ficam e pela esperança dos que virão.

Hoje meu coração é contraditório, pulsa desordenado entre a alegria e a tristeza, entre a dor e a graça, entre o peso da saudade e a leveza da fé. Mas talvez seja justamente nisso que resida o mistério da vida: em aceitar que somos feitos de contrários, que a lágrima e o sorriso podem se dar as mãos, que a morte e a vida se entrelaçam, e que o amor é a única herança que resiste ao tempo.

No olhar do meu filho vejo a presença de Deus. No silêncio do meu pai, sinto a intercessão de Maria. E no meu próprio coração, apesar das cicatrizes, floresce a certeza de que o amor nunca é vão — ele é chama que se multiplica, guia que ilumina e graça que nos mantém de pé. O ensino é exemplar, ensino pelo exemplo e sigo o exemplo de Maria Virgem santíssima, mas adoro a um só Deus triuno Uno.




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"Texto de autoria de(tecehistorias ) <Marisa>, publicado em Fios de Imaginação(@"fios de imaginação") (@tecehistorias)."

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