"Manifesto – Flor do Tempo"
A flor do tempo não é apenas metáfora; é realidade oculta na nossa pele, no nosso coração, na forma como respiramos o instante. Ela lembra-me que a vida é frágil, mas não fútil; breve, mas não vazia; efémera, mas capaz de eternidade.
Quando penso no tempo, não o vejo como um inimigo que me rouba dias. Vejo-o como o grande escultor invisível que me molda, como o vento que esculpe a rocha, como a água que fura a pedra. O tempo não vem apenas destruir; ele depura, revela, afina. É o tempo que transforma cicatriz em memória, dor em aprendizagem, ausência em presença invisível.
A flor do tempo abre-se sem garantias. Nunca sei quando floresce, nem quanto tempo durará. Às vezes é uma gargalhada à mesa com os meus filhos. Outras vezes, um olhar silencioso partilhado com o meu marido. Outras ainda, uma lembrança que me vem visitar numa tarde de melancolia. A flor abre-se no inesperado, no detalhe, no que é pequeno aos olhos do mundo mas imenso para quem sente.
O perfume da flor é o que fica. E é nele que encontro a grande verdade: não levamos nada connosco, excepto os perfumes que deixámos espalhados no ar da vida dos outros. Não é a posse, mas a presença. Não é a força, mas a ternura. Não é a duração, mas a intensidade.
Percebo que sou feita de capítulos, como flores que brotam sucessivamente no jardim da minha história. Algumas abriram-se em pura alegria, outras em dor profunda, outras num silêncio quase invisível. Mas todas contribuíram para aquilo que sou. Não posso negar nenhuma. Não posso fingir que as pétalas que caíram não me pertencem. Elas são parte da minha identidade. Elas são a prova de que vivi.
E é neste ponto que a flor do tempo me convoca a uma decisão: ou vivo distraída, deixando cair pétalas sem lhes reconhecer o valor, ou vivo desperta, consciente de cada instante, sabendo que cada queda é um marco, cada fragrância, um testemunho.
A flor do tempo também me ensina sobre perdas. Ensina-me que nada é permanente, mas que tudo é significativo. Que cada despedida é dura, mas não inútil. Que até as ausências têm perfume — diferente, mais melancólico, mas igualmente real. E que a saudade é talvez a mais intensa fragrância da flor: aquela que nos rasga, mas ao mesmo tempo nos humaniza.
No fundo, a flor do tempo é um convite à autenticidade. A viver sem máscaras, sem adiamentos, sem reservas. A amar de verdade, a dizer o que sinto, a abraçar antes que seja tarde, a valorizar o que realmente importa.
Por isso manifesto:
o tempo não espera, mas eu posso escolher não desperdiçá-lo.
a vida é efémera, mas o amor é eterno enquanto é vivido.
as memórias são pétalas que caíram, mas continuam a perfumar a alma.
Se um dia tudo em mim murchar, que a minha flor não seja lembrada pelo corpo que se fechou, mas pelo perfume que deixei. Porque esse perfume — feito de gestos, de palavras, de carinho, de presenças verdadeiras — é o que permanecerá na eternidade de quem me amou.
E então compreendo: o tempo não é inimigo, nem ladrão. O tempo é jardim. E eu sou flor.
"Texto de autoria de(tecehistorias ) <Marisa>, publicado em Fios de Imaginação(@"fios de imaginação") (@tecehistorias)."
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