"A Liberdade de Ser Julgada: Monólogo entre Pessoa e Eu"
Ontem, uma amiga enviou-me uma frase pelo WhatsApp — “A tua maior conquista é aceitar que o que os outros pensam de ti é problema deles”. E eu sorri. Sorri com aquele sorriso cúmplice de quem reconhece uma verdade antiga, já pressentida, já vivida. Disse-lhe, sem hesitar: “concordo plenamente, vou utilizar!" Aqui está. E aqui estou, a transformar essa frase simples num rio de palavras, porque em mim nada é simples: tudo se expande, tudo se multiplica, tudo se torna reflexão.
Há muito tempo que faço este exercício de desapego. Mas, paradoxalmente, nunca deixa de ser difícil. Porque o olhar dos outros é como um espelho deformado: devolve-me versões de mim que não reconheço, mas que, por vezes, quase acredito. Quantas vezes não me vi através de opiniões que nada tinham a ver comigo? Quantas vezes fui demasiado para uns e insuficiente para outros? Pessoa, com o seu humor melancólico, teria achado graça. Ele, que foi “tudo de todas as maneiras”, sabia que nenhuma interpretação externa seria capaz de conter o infinito que cada um de nós é.Bernardo Soares escreveu no Livro do Desassossego: “A consciência da incerteza é a mais exacta definição de mim mesmo.” E eu acrescento: a consciência da multiplicidade é a mais exacta definição de qualquer identidade. E se eu sou múltipla, como poderiam os outros reduzir-me a uma imagem estável, clara e definitiva? A expectativa alheia não passa de uma fotografia tremida de um movimento infinito.
Sim, a psicologia fala de projeção: cada um vê em mim aquilo que não suporta em si próprio. A sociologia chama-lhe controlo social: o julgamento como mecanismo de disciplina. A filosofia existencial denuncia a má-fé de viver pelo olhar dos outros. Mas eu, no meu jeito humano, chamo-lhe simplesmente… um fardo cansativo. E às vezes até ridículo. Porque, afinal, que graça há em tentar agradar a todos? É como tentar ser actriz de uma peça com mil encenadores diferentes. E eu nunca tive jeito para teatro, confesso.
Álvaro de Campos, sempre exagerado, sempre pulsante, teria gritado:
“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”
E eu rio-me, porque reconheço-me nesse exagero. Também eu sinto que não sou nada no julgamento dos outros — mas nesse nada encontro tudo. Porque se não sou o que pensam, então posso ser quem quiser. A maior liberdade nasce da recusa em ser definida.
Não nego: dói. Dói quando me julgam injustamente. Dói quando me reduzem. Dói quando a minha complexidade é esmagada numa caricatura. Mas descobri um antídoto: o humor. Rir-me da absurda necessidade de agradar. Rir-me das etiquetas simplistas. Rir-me, até, de mim própria, por já ter acreditado que podia controlar o que pensavam de mim. Ricardo Reis, com a sua serenidade quase estoica, lembraria: “Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui.” E é isso: ser inteira, mesmo que não caiba na cabeça de ninguém.
A maior conquista não é convencer. É desistir de convencer. É aceitar que a tradução que os outros fazem de mim é sempre falha — e, ainda assim, continuar a escrever o meu original. Porque eu sou obra inacabada, cheia de rasuras, paradoxos e revisões. E não vou reescrever-me só porque os leitores não entenderam a primeira versão.
No fundo, aceitar que o que os outros pensam de mim é problema deles é recuperar o meu direito à autenticidade. É a chave que abre a porta da liberdade interior. Uma liberdade que não é solitária, mas profundamente minha. Uma liberdade que me permite rir e chorar, dançar e calar, ser Pessoa e ser eu.
E então percebo: a frase que ontem chegou pelo WhatsApp é mais do que uma frase. É um manifesto íntimo. É uma oração laica. É o grito silencioso de todos nós que nos cansámos de carregar espelhos partidos.
E eu, finalmente, sorrio. Porque ser julgada já não me pesa. Já não me define. Já não me prende.
Ser julgada é, paradoxalmente, a minha forma mais livre de existir.
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"Texto de autoria de(tecehistorias ) <Marisa>, publicado em Fios de Imaginação(@"fios de imaginação") (@tecehistorias)."

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