"Manifesto contra a iliteracia"

Exórdio 

A realidade contemporânea é marcada por uma crise abissal (profunda, insondável) de linguagem e pensamento. O que deveria ser um espaço de diálogo fecundo tornou-se um terreno boçal (rude, ignorante), corroído por discursos acrimoniosos (ásperos, mordazes) e por uma retórica demagógica (manipuladora, enganadora), superficial, empobrecida. A palavra, outrora símbolo auroral (inicial, nascente) de conhecimento, converteu-se em eco altissonante (pomposo, grandiloquente) de banalidades, ecoando em redes sociais, televisões e até em tribunas políticas, onde se celebra a ignorância como se fosse sabedoria.

Não falo de um problema efémero, mas de um mal crasso (grosseiro, evidente), inveterado (enraizado, habitual), que alastra como entropia (desordem, caos) na cultura, que corrompe a escola, o jornalismo e a própria cidadania. A iliteracia não é inocente: é projeto, é arma, é estratégia de domesticação. Um povo incapaz de pensar criticamente é mais fácil de subjugar por qualquer déspota (tirano, autoritário) sorridente, por qualquer autoridade draconiana (severa, cruel) que prometa ordem à custa da liberdade.

Vejo, com perplexidade, como se multiplicam os dislates (absurdos, disparates), os argumentos disparatados (sem sentido, ridículos), as opiniões capciosas (enganosas, ardilosas) que, sob aparência de verdade, apenas conspurcam (mancham, corrompem) o debate público. Este panorama esdrúxulo (estranho, excêntrico) não resulta do acaso: é alimentado por sistemas educativos frágeis, políticas culturais medíocres e pela complacência de uma sociedade que prefere o frívolo (superficial, leviano) ao substancial, o efémero (passageiro, transitório) ao duradouro, o esotérico (oculto, reservado a poucos) mal digerido à análise exegética (interpretativa, crítica) séria e responsável.

A ignorância tornou-se gregária (coletiva, seguidista), veste trajes caricatos (ridículos, exagerados) e desfila com orgulho pelas ruas, como se fosse virtude. O que deveria envergonhar tornou-se moda; o que outrora seria motivo de aviltamento (humilhação, degradação) transformou-se em bandeira. A cupidez (ganância, avidez) pela fama rápida e pelo comentário fácil substituiu o estudo paciente, a investigação empírica (baseada na experiência), a leitura exigente. Vivemos tempos de um desenfado (atrevimento, insolência) insolente, em que o erro não é corrigido, mas celebrado.

Contra este cenário urge dilucidar (esclarecer, clarificar), dirimir (resolver, desfazer) as falsas certezas, admoestar (repreender, advertir) os discursos falíveis (errados, inseguros), desmontar o pensamento dubitativo (hesitante, incerto) ou simplesmente ignaro (ignorante, inculto) que se traveste de sabedoria. Não basta indignar-se: é preciso combater com palavras, com ideias, com lucidez. Só assim a palavra poderá recuperar a sua dimensão egregia (notável, grandiosa), só assim o verbo deixará de ser inóspito (hostil, estéril) e voltará a ser fulgurante (brilhante, radiante), instrumento de emancipação, não de submissão.

A iliteracia não é apenas ausência de leitura, mas uma verdadeira condição abúlica (apática, sem vontade), um estado acintoso (provocador, ofensivo) cultivado por um sistema que prefere cidadãos dóceis a espíritos altaneiros (orgulhosos, firmes). A ignorância organizada converte-se em ferramenta belicosa (agressiva, combativa), disfarçada de opinião legítima, que se insinua de forma capciosa (enganadora, ardilosa) nos debates e se impõe como se fosse verdade apodíctica (incontestável, evidente).

A retórica corrente é barroca (rebuscada, ornamentada), mas vazia; é altissonante (pomposa, grandiloquente), mas destituída de conteúdo. A cultura popular, em vez de se amalgamar (fundir, unir) com a erudição, prefere enredar-se (embaraçar-se, prender-se) em trivialidades efémeras (passageiras, transitórias) e frívolas (superficiais, levianas). O que deveria ser edificante (formativo, moralizante) degrada-se em espetáculo histriônico (teatral, exagerado), um teatro de sombras esdrúxulo (estranho, excêntrico), mais preocupado em entreter do que em esclarecer.

É neste ambiente que se multiplicam os argumentos acrimoniosos (ásperos, mordazes), proferidos por personalidades empedernidas (endurecidas, insensíveis), incapazes de reconhecer a sua própria falibilidade (erro, imperfeição). O saber torna-se exíguo (escasso, reduzido), diluído (espalhado, enfraquecido), quase difuso (impreciso, vago). O discurso crítico, quando surge, é logo taxado de cismático (divisivo, perturbador) ou de dissoluto (devasso, corrompido), como se pensar fosse uma ameaça.

Mas o que ameaça verdadeiramente é o silêncio: a aceitação conspurcada (manchada, corrompida) de ideias que se apresentam como axiomas (verdades evidentes, princípios) quando não passam de truques sofísticos (enganadores, falsos). Um povo sem vocabulário fica astênico (fraco, debilitado), torna-se inóspito (hostil, árido) ao pensamento, perde a capacidade de resistir.

Recordo que a palavra não é mero ornamento; é ferramenta consubstancial (essencial, inseparável) ao pensamento. Sem ela, a mente vagueia em terreno anfractuoso (complicado, tortuoso), incapaz de alcançar clareza. A entropia (desordem, caos) cresce, e a linguagem reduz-se a um mosaico esotérico (oculto, incompreensível) para uns, e gregário (seguidista, imitativo) para outros.

Não é, pois, mero acaso: há uma pedagogia do boçal (rude, ignorante), uma valorização do caricato (ridículo, grotesco), uma celebração do ignaro (inculto, desinformado). E tudo isto é feito sob o olhar complacente (indulgente, tolerante) de instituições que deveriam dirimir (resolver, corrigir) o problema e admoestar (advertir, repreender) os responsáveis.

A iliteracia não é mera falha individual; é calamidade sistémica (catastrófica, devastadora), um câncer silencioso que corroí (destrói, devora) as bases da cidadania e do pensamento autônomo (independente, soberano). Quem não lê, quem não questiona, converte-se em espectro gregário (seguista, imitativo), moldável, manipulável, um veículo de conformismo insidioso (sub-reptício, traiçoeiro).

A linguagem, sem vigilância, degenera em verborreia (palavreado, discurso vazio), em cacofonia (barulho, desarmonia) que anestesia (entorpece, paralisa) a inteligência. E enquanto isso, a mediocridade se engrandece, o caricato (ridículo, grotesco) é idolatrado, e o ignaro (inculto, desinformado) é elevado a árbitro do debate público.

Não podemos tolerar que a indolência (preguiça, desídia) intelectual se transforme em dogma; não podemos permitir que a superficialidade, efêmera (passageira, transitória) e frívola (leviana, insignificante), dite o futuro das gerações. O saber não é luxo, mas instrumento consubstancial (essencial, inseparável) da liberdade; a ignorância, por contraste, é prisão anódina (insípida, dolorosa), mas profundamente letal.

Exijo, portanto, uma insurgência do pensamento: um despertar audaz (corajoso, intrépido), que seja antiquíssimo (ancestral, profundo) na sua reverência à palavra e contemporâneo (atual, vivo) na sua capacidade de revolta. Que se denuncie o sofisma (engaço, artifício), que se desmonte a retórica oculta (escondida, velada), que se premie a reflexão rigorosa (precisa, criteriosa).

Não há neutralidade quando a ignorância impera; só resta ação. Ler, pensar, questionar — eis os atos de subversão (rebeldia, insurgência) que podem salvar a consciência coletiva. Que o silêncio cúmplice seja rompido, que a mediocridade seja desmascarada, e que o espírito altaneiro (orgulhoso, firme) recupere o trono que a iliteracia ousou usurpar.

O manifesto termina aqui, mas a luta continua: não pela retórica vazia, não pelo espetáculo, mas pela palavra elevada, pela mente liberta e pelo futuro que ainda pode ser iluminado pelo conhecimento.


Não necessito de auxiliar de escrita, nem de auxiliar de pensamento. Falar, escrever, aprender — tudo é acto de liberdade, de presença e de consciência. Optar por reduzir o nível da linguagem quando me dirijo aos outros não é limitação, mas escolha ética: uma ponte que se estende entre mundos distintos, entre estratos sociais, entre o silêncio do orgulho e a clareza da empatia.

Recordo-me, com vividez, do dia em que alguém se dirigiu a mim e disse: “Em princípio, o seu filho é sobredotado; acontece, nem o pai nem a mãe têm de o ser.” Mesmo nas palavras dirigidas a mim, a maneira de indagar se eu compreendia a escolha das palavras e a explicação das palavras era curiosa, quase ingénua. Uma vez, irónica, pedi que utilizasse outro palavreado — um gesto que não foi arrogância, mas tentativa de ajustar a ponte do diálogo. Hoje compreendo: devido ao meu estrato social, à forma de vestir, à aparência e à humildade das palavras, aquela pessoa tirou ilações que se perpetuaram. Prefiro passar por parva do que ser arrogante ou preconceituosa; é mais humano, mais verdadeiro, mais justo.

Falar e escrever são actos distintos, mas não separados. A fala é cadência, respiração, gesto, presença; é instante vivido, mediado pelo outro, pelo contexto, pela empatia. A escrita é labor paciente, reflexão meticulosa, construção de mundos com palavras. A oralidade transporta a vida, a escrita abriga a mente. Reduzir a linguagem na fala não empobrece o pensamento, apenas adapta-o, molda-o à compreensão, abre portas que a erudição por vezes fecha.

Esta humildade activa é inteligência. É reconhecimento de que o conhecimento não é muralha, mas ponte; não é poder sobre, mas capacidade de comunicar, de ensinar, de tocar. A diferença entre fala e escrita não é falha: é sofisticação social e cognitiva, é consciência de que cada palavra dita carrega o peso da relação, e cada palavra escrita transporta o rigor da reflexão.

A aparência externa, o estatuto, a idade ou a posição social nada dizem sobre a profundidade da mente ou da alma. São máscaras que a sociedade impõe, ilusões que disfarçam ou exageram a verdade. O verdadeiro saber manifesta-se no acto, no contacto, na reflexão diária. Tal como a espiritualidade nos ensina, o conhecimento é experiência e prática; tal como a filosofia nos mostra, é questionamento e dúvida; tal como a sociologia e a psicologia revelam, é compreensão do outro e de si mesmo.

O que falo e o que escrevo coexistem em harmonia. A fala conecta, aproxima, provoca reação; a escrita aprofunda, organiza, ilumina. O ritmo, a cadência, a pausa, a escolha do vocábulo — tudo é acto criador, tudo é gesto de humanidade. A palavra é ferramenta, espelho e ponte; o silêncio é espaço de reflexão, de recolha, de ponderação.

A minha linguagem, por vezes simples na fala e complexa na escrita, não é incoerência; é expressão de liberdade, de consciência e de respeito pelo outro. Aprender todos os dias, com cada gesto, cada palavra, cada pessoa que cruza o meu caminho, é compreender que o verdadeiro diálogo exige humildade, adaptação e abertura.

Prefiro sempre passar por parva a erguer-me arrogante. Prefiro a curiosidade à presunção, a escuta à vaidade, o contacto humano à demonstração de poder. Falar, escrever, aprender — são actos sagrados de resistência, de consciência, de transformação. E é neste espaço que encontro a verdadeira erudição: não nos diplomas, nem nas aparências, mas na vida que se vive, nas pontes que se constroem e no respeito que se mantém.



"Texto de autoria de(tecehistorias ) <Marisa>, publicado em Fios de Imaginação(@"fios de imaginação") (@tecehistorias)."

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