"Hoje, quando a vi"

 Hoje tirei a manhã para estar com ela. Já não a via há um ano. É estranho como o tempo pode ser tão breve e tão infinito ao mesmo tempo. Quando finalmente a vi, senti o corpo a falhar. O peito apertou-se, as pernas tremeram, o mundo girou à minha volta e tive de me sentar, porque o meu síndrome vasovagal não me perdoa quando as emoções me atropelam de forma tão brutal. Sorri, para disfarçar, e deixei as lágrimas caírem. Disse que eram de felicidade — e eram. Mas não só. Eram também de dor, de medo, de impotência.

Não estava preparada para a ver assim. O Parkinson levou-lhe um pouco da leveza, da firmeza, da segurança que sempre vi nela. E ao mesmo tempo, ali estava ela: a mesma amiga, a mesma mulher que tantas vezes me segurou nos braços quando eu não tinha nada. Ela foi casa quando eu não tinha onde ficar. Ela foi pão quando eu tinha fome. Ela foi silêncio e escuta quando a minha dor não tinha palavras. Ela foi mãe, sem ser sangue.

E agora, diante de mim, estava frágil. Mas mesmo na fragilidade, eu só conseguia sentir amor. Um amor imenso, desses que não se medem, que não se explicam, que apenas se vivem.

A filha mais velha foi, em tempos, uma das minhas melhores amigas. Mas eu afastei-me. Não porque deixasse de gostar, mas porque me senti ferida, desamparada num momento em que precisava. Fechei-me. Fechei a porta. Hoje já não sinto raiva, mas também não consigo voltar. Com ela mantenho distância, para não a magoar, mas não me reconheço naquela relação.

Com a mãe, porém, nunca houve afastamento. Ela continua dentro de mim como um pedaço de coração que não se perde. Ao seu lado, sinto-me inteira e pequena ao mesmo tempo. Pequena porque sei que nunca conseguirei retribuir tudo o que ela me deu.

Saímos do consultório juntas, de mãos dadas, depois de ouvir o médico confirmar o agravamento dos sintomas. Caminhámos lado a lado, devagar. Eu carregava os sacos dela, e por dentro carregava também uma dor maior. Ao passar pela rua da minha madrinha, as pernas falharam-me de novo. Disfarcei: tirei um cigarro, coloquei-o nos lábios, sem sequer o acender. Era o meu gesto secreto para não confessar que estava a desmoronar por dentro.

Depois ouvi-a dizer, quase em sussurro: “Estou a procurar um lar.”

Sessenta e dois anos. Sessenta e dois apenas. E já a sentir que não pode contar com os filhos para cuidar dela. Como é possível? Como é possível que uma mãe tão generosa, que deu tudo, que amou sem limites, agora precise de se entregar a estranhos? Não consigo aceitar.

Sou madrinha de dois dos seus netos. A neta mais velha, filha daquela amiga de quem me afastei. E o neto da filha mais nova, a minha irmã de coração. Amo-os como meus. Amo, sobretudo, esta mulher que é raiz e colo da minha história.

Mas dói-me saber que não consigo dar-lhe tudo o que queria. Posso ajudar, sim, mas não tanto quanto ela merece. Essa impotência corrói-me. Queria oferecer-lhe o mundo, e só consigo oferecer-lhe pedaços.

Hoje percebi, mais do que nunca: amar também é sofrer. Amar é sentir o corpo fraquejar quando o outro sofre. Amar é chorar lágrimas que não se conseguem segurar. Amar é segurar uma mão frágil e dizer, sem palavras: “Não estás sozinha.”

E eu estarei aqui. Enquanto Deus me permitir, enquanto o coração bater, estarei aqui. Ao lado dela. Com amor, com carinho, com a compaixão que me foi ensinada pelos seus gestos, por Deus e a Virgem Maria. Porque o amor verdadeiro não precisa de sangue nem de contratos. O amor basta-se. E mesmo quando o corpo falha, mesmo quando a vida assusta, o amor é sempre maior. Que Deus me dê a coragem e força, que Deus me dê mais tempo para ver meu filho crescer e acompanhar quem precisa de mim.





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"Texto de autoria de(tecehistorias ) <Marisa>, publicado em Fios de Imaginação(@"fios de imaginação") (@tecehistorias)."

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