"Quando a música deixa de ser apenas música"
O meu filho tem, neste momento, nove anos. E, embora ainda esteja na infância, já me surpreende com gestos e palavras que revelam uma maturidade que muitos adultos só alcançam depois de longos anos de vida.
Guardo um episódio recente que merece ser escrito, porque me fez pensar na força invisível da música.
Uma canção, uma recusa
Tudo aconteceu de forma simples. A colega dele ligou-lhe e, do outro lado, na casa dela, tocava uma música muito conhecida: Nosso Quadro, da Ana Castela. Para muitos, apenas mais um êxito do momento, um refrão que se canta sem pensar. Para ele, não.
Com calma, mas com firmeza, disse que não queria ouvir aquela música. Não se tratava de capricho, nem de teimosia. Era algo mais profundo: ele percebia que aquela canção não era apenas som, era memória. Carregava sentimentos, lembranças, talvez até feridas que não lhe pertenciam diretamente, mas que já compreendia.
E depois explicou-me o porquê. As suas palavras tinham lógica, mas também tinham coração. Falou com a clareza de quem, mesmo criança, já entende que há músicas que não se escutam sem consequências.
Orgulho e surpresa
Naquele instante, senti um orgulho imenso. Não apenas porque recusou ouvir, mas porque conseguiu explicar os seus motivos. O que para muitos seria “birra”, para mim foi sensibilidade, lucidez, consciência.
Percebi que o meu filho já sabe que a música é muito mais do que entretenimento. Ela é uma ponte entre tempos, entre pessoas, entre emoções. Uma simples canção pode transportar-nos para lugares que pensávamos já ter deixado para trás.
E ele, com apenas nove anos, soube dizer não. Soube proteger-se. Soube reconhecer que havia ali algo que não queria revisitar.
A lição que recebi
Naquele momento, percebi também algo em mim. Porque eu própria sabia do peso daquela música. Também para mim ela evocava alguém, um tempo, um quadro ainda pendurado no coração, mesmo que a vida tivesse o retirado da parede.
O silêncio que ficou depois das suas palavras foi revelador. O meu filho, sem o saber, mostrou-me que a sabedoria nem sempre nasce com a idade, mas com a sensibilidade.
O poder da música
A música é isto: memória viva. Ela guarda presenças e ausências, alegrias e saudades, felicidade e tristeza. Há canções que nos fazem sorrir e dançar, e há outras que nos obrigam a recordar aquilo que dói.
Mas foi preciso o meu filho de nove anos mostrar-me isso com a simplicidade de um gesto. Ao dizer “não quero ouvir”, ele mostrou-me que nem sempre precisamos enfrentar tudo. Às vezes, a verdadeira coragem está em reconhecer que não é o momento.
Para o futuro
Um dia, quando ele já não estudar nesta vila, quando for adolescente e a vida o levar para novos caminhos, talvez eu partilhe com ele estas palavras. Quero que saiba que, desde cedo, foi capaz de compreender o valor da memória e o peso da música.
E se alguém mais — alguém que também reconheça este sentimento, tenha vivido esta situação— vier a ler estas linhas, talvez perceba que certas melodias nunca se apagam. Continuam a ressoar em silêncio, à espera de um coração disposto a ouvi-las outra vez.
______________________________________________
© 2014–2026 TeceHistórias (Marisa). Todos os direitos reservados.
Os conteúdos deste blogue, incluindo textos originais, encontram-se protegidos pelo Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos (CDADC) e demais legislação aplicável. É expressamente proibida a reprodução, cópia, transcrição, adaptação, publicação, distribuição, disponibilização pública ou qualquer forma de utilização, total ou parcial, por qualquer meio ou suporte, sem autorização prévia, expressa e escrita da autora. A utilização não autorizada poderá dar origem a responsabilidade civil e criminal nos termos da lei portuguesa da União Europeia.
"Texto de autoria de(tecehistorias ) <Marisa>, publicado em Fios de Imaginação(@"fios de imaginação") (@tecehistorias)."
Comentários
Enviar um comentário