"Quando o Espírito Santo nos ilumina com sabedoria"

 A conversão de frei Ângelo Faitanin não pode ser reduzida a uma mudança de rótulo confessional; ela representa um verdadeiro reencontro com a fé apostólica na sua plenitude católica. Como pastor protestante, viveu intensamente práticas que, mais tarde, se revelariam problemáticas quando confrontadas com a Tradição e com a coerência interna da fé cristã. Três pontos marcaram de modo particular o seu discernimento: o dízimo, o ministério feminino e a natureza do louvor.


O dízimo

No meio protestante, o dízimo é frequentemente apresentado como obrigação espiritual: dez por cento da renda deve ser entregue à comunidade, sob pena de infidelidade a Deus. Frei Ângelo aceitou durante anos esta prática, sustentada em textos do Antigo Testamento (cf. Ml 3,10). Contudo, o estudo bíblico mais profundo revelou-lhe que o dízimo era uma norma específica da Lei mosaica, ligada ao culto do Templo e ao sustento da tribo de Levi (cf. Nm 18,21-24). Ora, com a vinda de Cristo, o Templo é cumprido na sua própria pessoa (cf. Jo 2,19-21), e o sacerdócio levítico cede lugar ao sacerdócio de Cristo, único e eterno (cf. Hb 7,11-28).

Na Igreja primitiva, não há qualquer imposição de dízimo: a regra é a oferta livre, segundo as possibilidades e a generosidade de cada um (cf. 2Cor 9,7). Foi este dado que Frei Ângelo redescobriu: a fé cristã não pode ser monetarizada, nem medida por percentagens. A Eucaristia é o verdadeiro centro, e a contribuição material só tem sentido como reflexo da entrega interior. O dízimo obrigatório, percebeu ele, é resíduo de um legalismo ultrapassado, e não expressão da liberdade evangélica.


O ministério das mulheres

Outro ponto decisivo foi a ordenação feminina. No protestantismo, sobretudo em denominações mais recentes, a figura da mulher pastora é vista como natural. Frei Ângelo conheceu mulheres piedosas e dedicadas que exerciam essa função, mas, estudando mais a fundo, compreendeu que o ministério ordenado não é apenas uma função de liderança ou ensino: é sacramento.

Cristo escolheu apenas homens para o grupo dos Doze, não por convenções culturais (pois não hesitou em romper tabus ao dialogar com mulheres, cf. Jo 4), mas por um desígnio teológico: o sacerdote é ícone de Cristo-Esposo, que se entrega à Igreja-Esposa. O Papa São João Paulo II, na carta Ordinatio Sacerdotalis (1994), reafirma com clareza que “a Igreja não tem autoridade para conferir a ordenação sacerdotal às mulheres”. Frei Ângelo viu que a questão não era sociológica, mas sacramental: a grandeza da mulher na Igreja manifesta-se de modo supremo em Maria, a Mãe de Deus, que é maior do que qualquer sacerdote, ainda que nunca tenha exercido o sacerdócio ministerial.


O louvor

Por fim, a questão do louvor. Nos cultos protestantes, o louvor é a alma da celebração: música intensa, cânticos emocionados, participação colectiva. Frei Ângelo viveu essa experiência com sinceridade, mas também com crescente desconforto: faltava-lhe algo. O culto parecia centrar-se demasiadas vezes na emoção humana, e não no mistério divino.

Ao descobrir a liturgia católica, compreendeu a diferença essencial: na Missa, não é a assembleia que se exalta a si mesma, mas Cristo que se oferece ao Pai em sacrifício. O louvor, aqui, não é excesso humano, mas participação na liturgia celeste (cf. Ap 4-5). O silêncio, a solenidade, o mistério da Eucaristia superam infinitamente qualquer emoção passageira. O louvor espontâneo, percebeu ele, não é mau, mas torna-se insuficiente quando substitui o sacrifício sacramental, que é a verdadeira fonte e cume da vida cristã (cf. Lumen Gentium, 11).


Conclusão

Estes três pontos — o dízimo, o sacerdócio feminino e o louvor — foram chaves que abriram em Frei Ângelo a consciência de que o protestantismo, embora rico em fervor, carecia da plenitude da fé apostólica. Ele não abandonou a fé em Cristo; antes, encontrou em Cristo presente na Igreja Católica a sua expressão total. A sua conversão foi, pois, uma passagem da sombra para a luz, da fragmentação para a unidade, da emoção para o mistério.

Hoje, a sua vida testemunha que a verdade não é questão de preferência, mas de fidelidade. E essa fidelidade levou-o a confessar, com palavras e com vida, que a Igreja Católica é a casa onde se encontra a plenitude do Evangelho.



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