"Setembro: entre bifanas e listas escolares"
Setembro não é um mês: é uma prova olímpica de resistência física, financeira e emocional. Enquanto metade da humanidade chora o fim do verão, eu enfrento a dupla maratona anual: o aniversário do meu filho — que, numa escolha cósmica de calendarização, nasceu em plena Festa da Terra — e a rentrée escolar.
Imaginem o cenário: o miúdo a soprar velas, e no fundo o altifalante da festa a anunciar “senhor António, a sua bifana está pronta ao balcão!”. Há crianças que fazem anos em jardins encantados; o meu faz anos num terreiro a cheirar a grelhador. O bolo divide espaço na mesa com batatas fritas, cervejas e guardanapos transparentes de tanto óleo. É de uma autenticidade sociológica que faria inveja a qualquer antropólogo.
Mas este ano, como se o destino quisesse aumentar a intensidade dramática, o meu filho entrou no segundo ciclo. Um marco! Uma etapa solene! Uma espécie de Bar Mitzvah académico, só que em vez de cânticos hebraicos, recebemos listas de material escolar.
E aqui, caros ouvintes imaginários, começa a verdadeira epopeia. A lista do 5.º ano foi escrita, seguramente, por alguém com tendências para o teatro barroco. Eu lia e lia, e cada novo item era um ato da tragédia: marcadores, compassos, esquadros de precisão, dossiês de cores específicas — como se fosse possível ao cérebro de uma criança associar imediatamente o azul a português e o verde a ciências, quando mal se lembram de pôr as meias iguais.
Ah, que saudades do 4.º ano! A professora iluminada, minimalista, quase estoica. Pediu pouco e ensinou muito. Era a Aristóteles do ensino primário: simplicidade, clareza, eficácia. Esse foi o auge da civilização. Tudo o que veio depois é decadência romana.
Este ano, pelo contrário, a lista parecia uma sátira cruel. “Lápis de cor de boa qualidade (não desses baratinhos)”; “cola líquida, nunca em stick”; “caderno com margens largas, mas não demasiado largas.” Eu lia aquilo e perguntava-me se estava a preparar o meu filho para aprender geografia ou para ingressar num ateliê de arquitetura em Tóquio.
E claro, ainda falta uma lista. Sempre há uma lista em suspenso, como um vilão escondido no terceiro ato. E é nesse momento que a mãe que há em mim começa a considerar soluções radicais: mastigar canetas, roer lápis, ingerir resmas de papel. Ao menos ficava rica em fibras e com cálcio reforçado pelo grafite.
No entanto, não sejamos injustos: setembro também traz momentos de beleza. O olhar orgulhoso do meu filho a entrar na escola, a mochila nova a chiar como se fosse um artefacto de ficção científica, os cadernos ainda virgens de rabiscos. Há uma poesia no início do ano letivo, mesmo quando misturada com o cheiro persistente a bifanas da festa.
E assim sigo: uma mãe entre o lirismo da tradição popular e o sarcasmo de listas intermináveis. Uma cronista involuntária da vida escolar, perdida entre capas coloridas e guardanapos gordurosos. Setembro é um mês de contrastes: o meu filho sopra velas, eu sopro notas de euro, e a papelaria local, essa, sopra de alívio.
"Texto de autoria de(tecehistorias ) <Marisa>, publicado em Fios de Imaginação(@"fios de imaginação") (@tecehistorias)."
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