"Coragem, Paz e Autenticidade"
Eu costumo dizer que não tenho medo de ninguém. Não é heroísmo de catálogo, é higiene mental. O medo existe; não o nego, não o romantizo. Engulo-o — mesmo quando sabe a ferrugem e vinagre — e avanço. A coragem, na minha gramática, é metabolismo: transformar pânico em passo, tremor em decisão. Contudo, a minha saúde ensinou-me um capítulo que a literatura da valentia costuma censurar: há batalhas que são, simplesmente, perda de glóbulos brancos. Fujo, sim. Evito, sim. Afasto-me sem remorso de certas pessoas e ambientes. Não por preconceito: por paz. Quem me acusa de fuga confunde teimosia com bravura e martírio com sentido. Eu escolho viver — e viver em paz dá trabalho.
Sou mãe. Educo pelo exemplo, porque descobri que a moral sem musculatura quotidiana é monólogo inútil. Os meus filhos não são o porta-estandarte de um manual de perfeição — que ideia risível —; são a prova quotidiana de que autenticidade, sinceridade, respeito, partilha, paciência e altruísmo são competências treináveis, não slogans. Aprendemos juntos a regra simples e exigente do Sermão da Montanha: “Pelos frutos os conhecereis” (Mt 7,16). Escolhemos, portanto, árvores que dão fruto: gente que não joga com a mentira, que não navega na inveja, que não pratica humilhação como desporto. Aos outros — paz e caminho. “Sacudir o pó das sandálias” (Mt 10,14) é, para mim, uma bela tecnologia espiritual de fronteira saudável.
Muita gente confunde cristianismo com uma ética da passadeira vermelha da docilidade. Não foi isso que aprendi nos evangelhos. “Sede prudentes como as serpentes e simples como as pombas” (Mt 10,16) — eis uma dialética que me serve: lucidez e pureza, atenção e bondade. Amar o inimigo (Lc 6,27) não é abrir a porta da sala a quem traz gasolina; é desejar o bem sem consentir o mal, é rezar por quem nos persegue mantendo distância de segurança. Jesus não se entregava a todos: “conhecia-lhes o coração” (cf. Jo 2,24-25). Se ele, que é ele, praticou discernimento, quem sou eu para fazer do meu peito uma praça pública sem regras?
A minha sociologia doméstica é pragmática: laços sociais não são neutros. Bourdieu chamou “habitus” ao conjunto de disposições que nos formam; o convívio é uma fábrica de hábitos. Quem entra em casa influencia a gramática invisível do nosso dia. Prefiro, portanto, capital relacional que nos eleve a pessoas que nos arrastem. A violência simbólica — essa humilhação polida, vestida de piada ou conselho “bem-intencionado” — é mais destrutiva do que um grito. Abstenho-me. Escolho círculos onde a franqueza não seja crime e a gentileza não seja fachada. Hannah Arendt avisou contra a “banalidade do mal”: não o mal teatral, mas o mal administrativo, automático, cumpridor. Eu vigio-me e aos meus para que a nossa casa não se torne uma repartição de indiferença cordial. O amor exige atenção, e a atenção é trabalho.
A psicologia oferece-me ferramentas de manutenção interior. Rogers fala de “congruência”: viver por dentro o que se declara por fora. A mim interessa-me isto — não o verniz, mas o encaixe entre valor e gesto. Frankl lembra que a última liberdade humana é escolher a atitude. Escolho, portanto, todos os dias, a atitude que preserva a paz sem trair a verdade. Não confundo mansidão com passividade. A bem-aventurança diz “bem-aventurados os pacificadores” (Mt 5,9), não “os pacificados” por anestesia. Pacificar é verbo transitivo: implica discernimento, decisão, às vezes corte.
Nietzsche é o convidado incómodo, e eu gosto de o sentar à mesa. Criticou o ressentimento dos fracos, a moral de escravos que disfarça rancor de virtude. O seu diagnóstico é um espelho útil: não quero uma bondade que seja ódio de si metabolizado. Quero um “amor fati” que não romantiza a dor, mas não se rende ao cinismo — o que me permite, paradoxalmente, compreender Jesus com uma nitidez inesperada. Porque o Nazareno não é um moralista de sacristia: é um libertador do medo, um desactivador de ressentimentos. Quando diz “a verdade vos libertará” (Jo 8,32), convoca-nos para uma musculatura interior que Nietzsche, sem o saber, também reivindica: viver sem máscaras. O que me distancia de Nietzsche é a teleologia do amor — o meu “sim” à vida não termina em mim: passa pelo outro, pelos meus filhos, pela comunidade. A vontade de potência, na minha casa, é vontade de serviço.
Kierkegaard oferece-me a gramática da interioridade. A angústia não é mera doença: é a vertigem da liberdade. Reconheço-me nessa beira de abismo — mãe, mulher, crente —, a cada manhã a decidir quem sou. O salto de fé não é salto cego; é salto informado por uma relação pessoal com Deus, na qual a obediência não é servil, é inteligente. Escolho confiar, sabendo que a fé não elimina a dúvida; educa-a. A partir daí, a minha “fuga” torna-se claridade: distancio-me não por medo, mas por responsabilidade diante de Deus e dos meus. A fé que não gera sobriedade, disciplina e humor é só decoração.
Camus ensina-me a revolta digna. O mundo é absurdo? Talvez. Então eu respondo com a ética do “não” que cria um “sim” maior. “É preciso imaginar Sísifo feliz”, escreveu. Eu imagino-me feliz enquanto empurro o meu quotidiano montanha acima: a marmita, os trabalhos de casa, a conversa honesta, a benção antes de dormir, a recusa das companhias tóxicas. A minha revolta é simples: não participo no teatro do cinismo. Não compro a narrativa da esperteza que confunde astúcia com inteligência. Não cedo ao ruído dos que vendem salvação em dez passos. Se isto é absurdo, tanto melhor: a clareza cresce a contraluz.
No plano teológico, recuso a caricatura que muitos fazem de Jesus: um terapeuta sentimental de olhar lânguido. O Cristo que me guia é o do Sermão da Montanha, da mesa partilhada com pecadores, mas também o que derruba mesas de cambistas, o que chama “sepulcros caiados” a hipócritas. Quando me acusam de “fuga” por evitar certas pessoas, eu respondo com a gramática evangélica: “não deis as vossas pérolas aos porcos” (Mt 7,6). Isto não desumaniza ninguém; desromantiza a ingenuidade. O mandamento do amor inclui amar a verdade e o bem dos meus. A misericórdia não me pede para confundir perdão com reconciliação automática; pede-me para não petrificar o coração. Perdoo com frequência; reconcilio quando há conversão. Entre uma coisa e outra, ponho portas e janelas na alma. E durmo.
Há, claro, humor — negro e medicinal. Rio-me das liturgias digitais da virtude, dos moralistas que fazem da indignação um cartão de visita, dos coaches que vendem “gratidão” em frasco e “resiliência” ao quilo. Rio-me de mim, quando deslizo para o drama e me levo demasiado a sério. O riso, na minha casa, é teologia aplicada: lembrança de que não somos deuses. Arendt falaria de “pensar sem corrimão”; eu acrescento “rir sem desabar”. Rir não é desrespeito, é ventilação do espírito. Prefiro um sarcasmo que aponte a ferida a uma benevolência que a camufle. A anestesia é sempre cúmplice.
Sociologicamente, isto traduz-se em escolhas pequenas e tectónicas: com quem jantamos, a quem pedimos conselho, que conversas consentimos à mesa, que ecrãs entram no quarto, que linguagem se normaliza. Não admito a violência subtil da chacota permanente, a normalização da mentira graciosa, a pedagogia da esperteza. Prefiro a franqueza que dói e cura. Em casa, praticamos a gratidão quase como ginástica respiratória: nomear o bem, todos os dias, reconfigura o campo de forças. Ensaiamos a paciência nos engarrafamentos e nas birras, porque santidade sem trânsito é só literatura. E treinamos a partilha — tempo, atenção, pão — sem transformar a caridade em fotografia. “Quando deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita” (Mt 6,3): é a ética anti-exibição que salva a alma de se converter em influencer.
Há quem nos chame elitistas. O elitismo verdadeiro é o dos que julgam que toda a presença lhes é devida. Eu só reclamo o direito a escolher com quem me torno. A minha liberdade termina onde começa a intoxicação. Se alguém chega constantemente com lama, eu ofereço-lhe água e toalha — uma, duas, setenta vezes sete (Mt 18,22) —, mas não lhes empresto a cama. A compaixão não é subarrendamento da consciência. Se o outro quer mudar, eu acompanho; se quer apenas arrastar, eu abençoo de longe. “A paz esteja convosco” não é convite irrestrito à invasão: é benção e fronteira.
No interior, isto exige disciplina. Não me iludo: a honestidade não é temperamento, é treino. A coragem não é ADN, é prática. A paciência não é dom permanente, é aquecimento diário. Por isso, criámos em casa pequenos rituais: silêncio breve antes das refeições; balanço do dia ao deitar — o que fizemos bem, onde falhámos, que reparações devemos; um “desculpa” dito cedo, sem juros de orgulho. A santidade, se vier, virá disfarçada de rotina, não de milagre teatral.
Nietzsche volta a sentar-se, crítico: “cuidado com a moral de rebanho”. Concordo — e é precisamente por isso que não abdico da responsabilidade individual. Jesus não nos dilui no grupo, chama-nos pelo nome. Kierkegaard aplaude: “o indivíduo diante de Deus”. É assim que educo os meus filhos: responsabilidade radical, sem bode expiatório. Camus levanta a mão: “não te habitues ao absurdo”. Não me habituo — celebro, protesto, curo, corrigo. Arendt toma notas: “julga, não delegues o pensamento”. Não delego: penso, rezo, decido. E durmo, de novo.
Do lado da psicologia, recuso o culto da “autenticidade” entendida como despejar o que me apetece. Autêntico não é bruto; é verdadeiro. Verdade sem bondade é bisturi sem cirurgião; bondade sem verdade é curativo sujo. Procuro a conjunção. Frankl recorda-me: sentido não se inventa como logótipo, descobre-se como fonte. E a fonte, para mim, é Cristo: não o Cristo domesticado, mas o que toca leprosos, confronta poder, perdoa adúlteros, desmonta armadilhas retóricas com um silêncio que escreve no chão (Jo 8,6). Esse silêncio é o meu método em dias de gritaria: menos discurso, mais gesto.
Sociologicamente ainda: dizer “não” tem custo. Perde-se convites, perde-se pertenças, perde-se plateia. Em troca, ganha-se densidade. O “campo” em que nos movemos (Bourdieu outra vez) reorganiza-se: alguns afastam-se, outros aproximam-se. Aceito o rearranjo. A casa fica mais pequena? Talvez. Fica respirável? Sem dúvida. Prefiro janelas abertas a corredores cheios de gente a tossir boas maneiras. A minha fé não exige multidão; exige fidelidade. “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome” (Mt 18,20) — às vezes somos “dois ou três” e é suficiente.
Humor negro, sim, para não perder a ternura: conheço os “especialistas” de tudo, os “espirituais” de feed, os “políticos” de grupo de WhatsApp, os “psicólogos” de frase feita. Sorrio, agradeço, troco de assunto. A maior provocação, hoje, é a sobriedade. A maior rebeldia é a serenidade. A maior contracultura é a bondade sem marketing.
E no plano mais íntimo, volto ao início: não tenho medo de ninguém. Isto não me torna invulnerável; torna-me responsável. O medo que engulo alimenta a coragem que pratico — e a coragem que pratico sustenta a paz que defendo. Evito problemas porque não abdico da saúde. Evito certas pessoas porque não abdico da alma. Educo pelo exemplo porque não abdico da verdade. E creio em Jesus porque não abdico da liberdade. “A verdade vos libertará” — assumo o risco dessa frase, que me pede renúncias discretas: menos espetáculo, mais essência; menos plateia, mais mesa; menos aplauso, mais fruto.
Se um dia falho — e falho —, corrijo. Se me zango, reparo. Se caio, levanto-me com a mão de Deus e as mãos dos meus. O nosso programa é simples e difícil: praticar diariamente as virtudes como quem afia uma lâmina e rega uma horta. Honestidade que corta, paciência que nutre, coragem que abre caminho, compaixão que sustém, humildade que drena o terreno do narcisismo, disciplina que dá estrutura ao amor. Não procuramos a perfeição: procuramos a inteireza.
Termino como vivo, em modo manifesto, para me lembrar quando a maré subir:
— Escolho a paz ativa dos pacificadores, não a anestesia dos pacificados.
— Escolho amar sem me entregar ao abuso, perdoar sem me esquecer, acolher sem me dissolver.
— Escolho a coragem que engole o medo e a prudência que engole a vaidade.
— Escolho a verdade que liberta, ainda que doa, e o humor que salva, ainda que choque.
— Escolho a mesa pequena e verdadeira à festa grande e falsa.
— Escolho, em Cristo, a liberdade; com Nietzsche, o desmascarar dos ressentimentos; com Kierkegaard, a interioridade responsável; com Camus, a revolta que cria; com Arendt, o pensamento vigilante.
— Escolho ser mãe, mulher e discípula — nessa ordem, ao mesmo tempo, todos os dias.
E avanço. Porque a coragem, afinal, continua a ser isto: engolir e avançar. E a paz — a minha, a nossa — vale cada passo.
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"Texto de autoria de(tecehistorias ) <Marisa>, publicado em Fios de Imaginação(@"fios de imaginação") (@tecehistorias)."
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