"Sábado, Domingo, Sempre"

 As férias escolares, esse parêntesis tão breve e ao mesmo tempo tão dilatado no tempo da alma, estão a chegar ao fim. Sinto-o no ar, quase como se a brisa de Setembro trouxesse consigo não apenas o cheiro a livros novos e a lápis afiados, mas também a ansiedade que habita no coração de cada mãe. O meu filho, em breve, regressará à escola. E eu — mulher feita de fé, carne, dúvida e rotina — não posso deixar de sentir aquele receio instintivo, quase animal, que só a maternidade conhece. O medo não é um monstro avassalador; é antes um sussurro, um sopro que me lembra: “as rotinas mudam, prepara-te para a turbulência”.

Mas sei, no fundo do fundo, que ele vai superar. As crianças, por paradoxal ironia, são mais resilientes do que nós, adultos cheios de certezas quebradiças. Eles têm essa estranha capacidade de se refazerem no imprevisto, de se adaptarem à ordem nova como quem entra no mar frio e, em segundos, já nada sente. Nós, os que envelhecemos, ficamos sempre com o arrepio.

Por isso, como quem exorciza fantasmas com gestos pequenos, mantenho o nosso ritual: vamos os dois acender uma vela à igreja. Não é superstição barata, nem fuga desesperada — é antes um gesto aprendido, herdado, uma espécie de linguagem secreta entre mim, o meu filho e Deus. Engraçado, penso, como certas tradições que julgava antiquadas acabaram por se enraizar no meu quotidiano. Graças a Deus — e digo-o com aquela ironia quase blasfema que só a fé adulta comporta — alguém me aconselhou, há anos, este pequeno ritual. A verdade é que funciona. Não no sentido mágico de resolver a vida com uma chama acesa, mas na forma como me obriga a parar, a respirar e a acreditar. O que pedimos a Nossa Senhora, se é de coração, já não precisa de explicações: ela compreende, intercede, acolhe.

Assim, pelo terceiro ano consecutivo, lá iremos os dois. E este ano, curiosamente, há uma novidade: participarei na procissão e, pela primeira vez, carregarei o estandarte do Movimento da Mensagem de Fátima. Há em mim uma estranha mistura de orgulho e humildade: orgulho por ser chamada a testemunhar publicamente a fé, humildade por reconhecer a pequenez do meu gesto perante a grandeza do mistério. É irónico como um pano bordado, erguido entre mãos trémulas, pode pesar toneladas. Não pelo tecido, mas pelo significado.

O fim das férias escolares arrasta consigo também o fim das férias da catequese. Regressa a missa de domingo. Confesso: durante estes dois meses entreguei-me à missa vespertina de sábado. Um expediente prático, quase uma malícia piedosa, que me libertava o domingo para a família, os amigos, ou até o trabalho — porque até Deus, creio, entende que às vezes o dever humano se impõe. Mas há em mim uma pontada de culpa, como se tivesse negociado com o Sagrado uma espécie de “contrato de conveniência”. O domingo é o Dia do Senhor, e eu sei-o. Mas, ao mesmo tempo, para mim, durante o Verão, o sábado tornou-se igualmente sagrado. Talvez porque a liturgia não é apenas um horário: é a forma como a fé se inscreve no corpo.

E aqui entro na parte mais desconfortável da minha reflexão: a fé é, para mim, simultaneamente bálsamo e espinho. Aproxima-me de Deus e, paradoxalmente, expõe-me à ironia do mundo. Porque acreditar, em tempos de cinismo, é quase um acto de rebeldia. Digo que vou à missa e sinto nos outros um sorriso enviesado, como se tivesse confessado uma excentricidade antiquada. A sociedade sociológica, a psicologia positivista, a filosofia niilista, todas elas me sopram ao ouvido: “Deus é uma construção, um consolo, um mito”. E eu, mulher feita de carne e de fé, respondo-lhes com o meu silêncio insolente. Talvez seja mito, talvez seja invenção. Mas sem esse mito, sem essa invenção, como suportaríamos a absurda coreografia da vida?

Resta-me o humor negro, esse tempero que torna suportável a consciência da precariedade. A missa, afinal, é também uma encenação: padres que recitam, fiéis que respondem, rituais repetidos até à exaustão. E no entanto — eis o milagre — resulta. Porque nesse teatro de repetições reside uma verdade que não se explica: a da comunidade que reza, a do corpo que se inclina, a da vela que arde.

E assim vou eu, entre a fé e a dúvida, entre a rotina e o improviso, entre o medo e a confiança. Sou mãe, e ser mãe é viver em permanente tensão entre o controlo que não temos e o amor que nos sobra. Quando acendermos a vela, quando eu carregar o estandarte, quando regressarmos à missa de domingo, saberei, mais uma vez, que não é a certeza que me move — é a esperança.

E a esperança, essa sim, é o verdadeiro milagre.




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"Texto de autoria de(tecehistorias ) <Marisa>, publicado em Fios de Imaginação(@"fios de imaginação") (@tecehistorias)."

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