"Escrevo de Amor, com Propriedade e Gratidão"

 Nunca pensei que a minha vida pudesse ser narrada pela escrita. Durante anos acreditei que certas palavras só existiam em segredo dentro de mim, demasiado frágeis para enfrentarem o olhar do mundo. Mas a morte da minha mãe foi uma fratura radical. E nesse vazio, nessa ausência sem retorno, emergiu a necessidade de escrever: não como escolha, mas como sobrevivência. A palavra ergueu-se como muralha e como refúgio, como grito e como oração.

Escrevo com propriedade, porque não escrevo apenas por impulso ou acaso: escrevo com o peso da experiência, com a densidade da reflexão, com a fidelidade da memória. Cada texto é um testemunho legítimo daquilo que vivi, ouvi, sofri e amei. Não invento sentimentos: traduzo-os. Não copio pensamentos: transformo-os. A minha voz tem raiz, corpo e alma.

Escrevo de amor. Escrevo porque o amor atravessa tudo o que sou. Sou amada pelos meus filhos, que me recordam diariamente o sentido da continuidade, o milagre da presença e da entrega. Sou amada pelo meu marido, que me sustenta com a paciência do companheirismo e a intensidade da partilha. Sou amada pelas minhas amizades, que me lembram que o mundo não se percorre sozinha. E sou, de certa forma, cuidada também por aqueles que me leem: cada leitura é uma forma silenciosa de reconhecimento, um gesto discreto mas profundo de companhia.

A cada texto deixo não só fragmentos de mim, mas também a promessa de uma herança: um diário aberto para quem quiser recordar quem sou, quem fui e quem serei. Escrevo cartas abertas para o presente e para o futuro, para os que me conhecem e para os que me virão a conhecer. Cada frase é semente. Cada parágrafo é raiz. Cada texto é árvore.

Escrevo sobre fé e religião, porque o sagrado molda e inquieta. Escrevo sobre psicologia e sociologia, porque a mente e a sociedade não podem ser separadas. Escrevo sobre filosofia, porque pensar é resistir. Escrevo sobre sentimentos, amor, defeitos e fragilidades, porque são eles que revelam a verdadeira nudez da nossa humanidade. Escrevo sobre cicatrizes, porque nelas encontro a cartografia da vida: algumas ainda doem, outras já cicatrizaram, mas todas são marcas de resistência.

Há quem diga que a escrita é solidão. No meu caso, a escrita é companhia. Cuido de mim quando escrevo, mas descubro também que sou cuidada. Sou cuidada pela atenção silenciosa dos leitores, por aqueles que regressam ao meu espaço, por aqueles que dedicam minutos do seu dia a mergulhar nas minhas palavras. Este cuidado, ainda que invisível, é real.

Hoje olho para os números que o espaço virtual me devolve e sei que eles não são meros dados estatísticos. São presenças. São companhias. São gestos silenciosos de

atenção. Hoje, mais de mil leituras cruzaram-se com as minhas palavras. Mil pessoas, mil olhares, mil corações. Não é apenas uma contagem: é um encontro.

E por isso, agradeço. Agradeço aos que me leem, aos que me acompanham, aos que encontram nas minhas palavras um reflexo, um consolo ou um desafio. Agradeço aos meus filhos, ao meu marido, às minhas amizades, pela força e pelo amor que me sustentam. Agradeço até às minhas cicatrizes, que me lembram que a vida pode rasgar, mas também pode curar.

Escrevo porque não sei viver de outra forma. Escrevo de amor. Escrevo com propriedade. Escrevo para mim, para vós, para todos.
E hoje, mais do que nunca, escrevo também em gratidão.




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"Texto de autoria de(tecehistorias ) <Marisa>, publicado em Fios de Imaginação(@"fios de imaginação") (@tecehistorias)."

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