"Ser Luz"

Há dias em que me sinto deslocada, quase como se a minha essência fosse demasiado vasta para caber nos limites estreitos dos olhares que me rodeiam. Não, não é soberba, tampouco excesso de vaidade; é antes a consciência dolorosa de que nem todos têm a sensibilidade de ver para além da superfície, de escutar para além do ruído, de tocar para além da pele. E, ainda assim, eu insisto em ser luz. Uma luz que, por vezes, ofusca em vez de aquecer, não porque seja demasiado intensa, mas porque há quem ainda não tenha aprendido a abrir os olhos à claridade.

Não me iludo: sei que, no lugar errado, até o melhor de mim pode parecer insuficiente. O mais puro gesto pode ser interpretado como exagero, a mais genuína entrega confundida com necessidade, e o meu brilho interior, reduzido a uma suspeita de arrogância. Mas no lugar certo, ah, no lugar certo, eu sei que basta a minha presença para incendiar um espaço de sentido. A diferença não reside em mim, mas no olhar que me contempla — ou que me recusa.

Por isso, recuso-me a diminuir-me para caber em molduras alheias. Não aceito mutilar a minha essência só para conquistar a aceitação de quem não sabe sequer reconhecer-se a si mesmo. Porque, no fundo, cada palavra que parte de mim, cada gesto, cada silêncio até, é um acto de escolha. Eu sou, acima de tudo, um conjunto de escolhas. E escolho não trair-me.

Se algo me dói — e tantas vezes dói — aprendi a compreender que a dor não é medida do meu valor, mas antes reflexo da fragilidade do olhar de quem me observa. Não é sobre mim, é sobre o outro. E o que vem do outro diz respeito a ele; o que sai de mim, isso sim, fala da mulher que decido ser.

E eu decido ser inteira, mesmo quando me querem fragmentada. Decido ser verdadeira, mesmo quando a conveniência aconselha máscaras. Decido ser luz, mesmo quando não há quem a queira. Porque acredito, com uma fé talvez ingénua mas absolutamente convicta, que quem tem olhos para ver, quem tem coração para reconhecer, acabará por me encontrar.

E nesse encontro — não com qualquer um, mas com o olhar certo, o olhar capaz — eu sei que a minha presença não será um excesso, mas sim um lugar de pertença. Até lá, sigo o meu caminho: firme, vulnerável, luminosa.

Pensa nisto: eu não estou aqui para caber. Estou aqui para ser.



"Texto de autoria de(tecehistorias ) <Marisa>, publicado em Fios de Imaginação(@"fios de imaginação") (@tecehistorias)."

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