"Não dês pérolas a porcos"

Há um instante, sempre há um instante, em que o coração desperta e compreende: nem tudo o que em nós nasce deve ser entregue a todos.
Porque dentro de mim há pérolas. Pérolas que não se fabricam, que não se compram, que não se repetem. São feitas de tempo, de ternura, de silêncio, de feridas e de sabedoria conquistada à custa de noites insones. Cada palavra que penso antes de dizer, cada gesto que faço sem ser obrigada, cada entrega que nasce da generosidade e não da conveniência — tudo isso é pérola.

E contudo, quantas vezes atirei essas pérolas a mãos que não as quiseram segurar? Quantas vezes as deixei cair diante de olhos que as confundiram com pedras vulgares? Quantas vezes vi o meu esforço ser pisado, a minha calma ser tomada como fraqueza, a minha paciência ser confundida com obrigação?

Os antigos sabiam o que diziam: não lanceis pérolas aos porcos. Não porque sejamos melhores, mas porque o sagrado não deve ser profanado. Porque aquilo que nasce raro em nós não merece ser desperdiçado na lama. A sabedoria não consiste em convencer todos, mas em discernir a quem ofereço o que é meu. Não me cabe evangelizar o mundo, nem justificar cada gesto; cabe-me, sim, preservar o que é precioso.

Recordo Sêneca: não é que a vida seja curta, é que a dilapidamos em migalhas, oferecendo horas a quem só nos rouba minutos, oferecendo fidelidade a quem não sabe soletrar a palavra lealdade. Há quem viva do caos — e quer a minha calma apenas para a destruir. Há quem negocie traições — e deseja a minha lealdade apenas para a vender ao desbarato. Há quem se alimenta da lama — e só anseia pela minha paz para arrastá-la para o pântano onde habita.

Mas eu aprendi. Aprendi que cada pérola é parte de mim. É o meu pensamento mais lúcido, é a minha ternura mais secreta, é a minha presença quando escolho ficar, é o meu silêncio quando poderia gritar. São raridades. São jóias de uma vida que não se repete. E não me é permitido, em nome do amor-próprio, entregá-las a quem não sabe ver, a quem não sabe sentir, a quem não tem disposição para compreender.

Eu recuso, doravante, a ser artesã da indiferença alheia. Recuso a ser doadora voluntária do meu tempo a quem só conhece desperdício. Não entrego a minha serenidade como moeda de troca a quem só transaciona turbulência. Não cedo a minha lealdade a quem a exibe em leilão. Não dou a minha paz a quem apenas deseja contaminá-la.

Cada pérola que possuo é vida cristalizada. É memória transformada em sentido. É dor lapidada em força. É amor transfigurado em eternidade. E por isso, digo com firmeza: quem não sabe cuidar, não terá. Quem não sabe valorizar, não receberá. Quem não sabe olhar, ficará cego perante o brilho que não lhe pertence.

As minhas pérolas são a minha própria existência. E eu não as deixarei, nunca mais, afundar-se na lama da incompreensão. Eu ergo-as, guardo-as, partilho-as apenas com quem tem mãos limpas, olhos atentos e alma desperta.

Porque, no fim, cuidar das minhas pérolas é cuidar de mim.
E eu escolho, com lucidez e com amor-próprio, a quem confio o que de mais raro possuo: a minha vida.


"Texto de autoria de(tecehistorias ) <Marisa>, publicado em Fios de Imaginação(@"fios de imaginação") (@tecehistorias)."

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