"Pendão da Eternidade"
Este ano, sinto que o tempo se curva diante de mim, como se a eternidade abrisse uma brecha luminosa para que eu possa finalmente realizar aquilo que, desde a primeira vez em que caminhei como peregrina, lateja silenciosamente no mais íntimo do meu ser. Desde que me consagrei a Nossa Senhora, desde que mergulhei de corpo e alma no movimento da Mensagem de Fátima, trago comigo uma promessa interior, uma expectativa serena, mas incessante: a de um dia poder levar, com as minhas próprias mãos, o pendão da Mensagem, não apenas como um gesto cerimonial, mas como a mais pura e total expressão da minha fé e do meu coração, a promessa sempre devem ser cumprida.
Levar o pendão é, para mim, mais do que transportar um símbolo. É assumir um legado que me transcende, é deixar que o peso do tecido e da sua história se confunda com o peso doce e libertador da responsabilidade espiritual. Cada passo que darei na procissão será um compasso entre a terra e o céu, um diálogo silencioso entre o humano e o divino. Ao segurar o pendão, sei que as minhas mãos não estarão sozinhas: estarão entrelaçadas com as mãos invisíveis de todos aqueles que, antes de mim, ousaram entregar-se à Mensagem, viver a devoção e irradiar, através do seu testemunho, a luz de Maria para o mundo.
Recordo a minha primeira peregrinação, a emoção indizível de caminhar sob o sol, guiada por cânticos, pela oração, e pela força inexplicável que nasce do coração colectivo dos que acreditam. Foi nessa altura que compreendi que ser peregrina não é simplesmente deslocar o corpo no espaço, mas permitir que a alma percorra as estradas do mistério, da renúncia e da entrega. Hoje, tantos anos depois, reconheço que cada uma dessas passadas preparava, em segredo, o momento que agora se aproxima: o instante em que, em procissão, erguerei o pendão como quem ergue uma prece, como quem dá forma visível àquilo que habita o invisível.
Não será apenas um acto devocional; será uma síntese da minha vida espiritual, um vértice em que convergem a memória, a devoção, a consagração e o anseio. Vejo já, na imaginação, as ruas a encherem-se de fiéis, o murmúrio das orações a entrelaçar-se com o silêncio que paira entre cada palavra, as velas acesas como pequenas centelhas de eternidade. Nesse cenário, sei que o pendão não será apenas um estandarte de tecido, mas um farol que recorda a todos — e a mim mesma — que a Mensagem de Fátima não é apenas um episódio histórico, mas um apelo sempre vivo à conversão, à paz, à entrega radical de si a Deus e à Sua Mãe.
Ao caminhar, terei a consciência clara de que não levo o pendão por mim, nem para mim. Levo-o em nome de todos aqueles que, por fraqueza, dor ou impossibilidade, não podem estar presentes. Levo-o pelos que perderam a fé e pelos que a procuram sem saber. Levo-o por aqueles que rezam em silêncio nos seus quartos, e por aqueles que, de joelhos, se arrastam na Cova da Iria em promessa e gratidão. E levo-o, sobretudo, como uma afirmação de esperança: esperança de que a humanidade nunca se esqueça da luz que brilhou em Fátima, esperança de que o coração humano se mantenha aberto à ternura de Maria, esperança de que a paz prometida se cumpra no tempo e na eternidade.
Sei que, ao terminar a procissão, levarei dentro de mim um selo indelével. Será impossível não desejar voltar, não ansiar repetir, não querer reviver o esplendor sereno de um momento em que a fé se torna gesto, em que o coração pulsa em uníssono com a multidão, em que o divino se deixa tocar na simplicidade de um acto. A memória desse instante há de arder em mim como chama que não se apaga, como apelo constante a regressar, a viver de novo, a aprofundar cada vez mais a minha entrega.
E talvez seja esse o maior dom da procissão: não apenas o instante vivido, mas a fome espiritual que deixa, o desejo ardente de regressar, de participar novamente, de nunca perder a oportunidade de carregar, nas mãos e na alma, o pendão da Mensagem de Fátima — referência de fé, pulsar de coração, testemunho de vida e promessa de eternidade.
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"Texto de autoria de(tecehistorias ) <Marisa>, publicado em Fios de Imaginação(@"fios de imaginação") (@tecehistorias)."
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