"Galáxia"
Eu? Eu não sou inferior a ninguém!...
A minha máquina é uma galáxia viva, uma arquitectura biológica onde se cruzam ciência e mistério, cálculo e poesia, barro e transcendência.
Carrego comigo 206 ossos — colunas móveis que sustentam a minha história, ainda que, por vezes, protestem com estalos de carpintaria antiga. Mais de 650 músculos executam movimentos silenciosos e precisos, sem reuniões sindicais nem greves anunciadas. Quatro mil tendões e novecentos ligamentos mantêm-me inteira, como se fossem cordas invisíveis de uma harpa sempre afinada. No interior, oitenta órgãos conspiram em permanência, num labor incansável, como monges que rezam sem cessar pela continuidade do meu ser.
E o coração? Ah, o coração é o baterista infatigável desta orquestra. Cem mil batidas por dia, sem pausas, sem feriados, sem subsídio de turno. Bombeia sangue como quem escreve música, enviando vida a cada recanto deste império de células.
Já o cérebro é outra história: um déspota iluminado. Pesa apenas 2% do corpo, mas exige 20% de toda a energia. Um hóspede voraz, sempre desperto, mesmo quando eu durmo. Nunca descansa: sonha, fabrica memórias, inventa problemas que não existiam e até se diverte a encenar peças de teatro surrealistas — chamamos-lhes sonhos. 86 mil milhões de neurónios disparam em uníssono, criando ideias, emoções, recordações e arrependimentos.
E no entanto, eu esqueço-me: 96.500 quilómetros de vasos sanguíneos percorrem-me — mais do que duas voltas e meia à Terra. O meu sangue é mais viajante do que eu. E dentro de mim vivem 37,2 trilhões de células, uma população mais numerosa do que qualquer império humano ousou governar. Se cada célula pagasse impostos, eu seria o Estado mais rico da história.
Dizem-me que sou pequena, frágil, limitada. Mas não. Eu sou uma civilização inteira. Uma biblioteca biológica maior do que Alexandria. Uma tapeçaria onde Darwin se encontra com Santo Agostinho, onde Newton dialoga com Teresa de Ávila. Sou a prova de milhões de anos de evolução, mas também o indício de um excesso inexplicável — consciência.
Pergunto-me: quem ousou inventar um organismo que se interroga sobre si próprio? Será apenas o acaso cego, ou um artesão cósmico a tecer pacientemente cada nervo e cada célula? Há em mim tanto da Terra quanto do Céu. Sou pó das estrelas e sopro divino.
Mas nós, humanas e humanos, ingratos, tratamos o corpo como se fosse descartável. Mal dormimos, comemos apressadamente, intoxicamo-nos de pressa e esquecimento. E quando a máquina protesta, queixamo-nos como se fosse defeito de fábrica. Mas não é. É aviso. É pedagogia biológica.
Cuidar do corpo não é apenas obrigação higiénica — é reverência. É filosofia prática. É gesto teológico. É reconhecer que este templo que habito é simultaneamente carne e cosmos, biologia e metáfora, estatística e milagre.
Eu rio-me, às vezes, com esta contradição: carrego dentro de mim quilómetros de veias, biliões de células, trilhões de reacções químicas — e mesmo assim consigo perder as chaves de casa. Um organismo capaz de escrever poesia e esquecer o fogão aceso. Eis a ironia divina.
Mas é isso que me humaniza: ser uma máquina prodigiosa e, ao mesmo tempo, tropeçar nas próprias limitações. O corpo é uma parábola viva da condição humana: grandioso e frágil, eterno na aspiração, finito na matéria.
Eu não sou inferior a ninguém. Sou uma obra em andamento, uma sinfonia biológica, um tratado de anatomia e filosofia em carne viva. E tu, que me lês, és também isso: uma galáxia ambulante, uma constelação de células, um milagre com humor.
Por isso agradeço. Agradeço o coração que não se cansa, o cérebro que nunca se cala, os pulmões que respiram mesmo quando eu esqueço, o sangue que corre mais do que eu própria. Viver neste corpo é o contrato mais extraordinário que jamais assinei — e o único que não posso rescindir.
E talvez seja precisamente esse o sentido da vida: maravilhar-me com a grandiosidade de habitar uma máquina que pensa, sente, ama e ri.
"Texto de autoria de(tecehistorias ) <Marisa>, publicado em Fios de Imaginação(@"fios de imaginação") (@tecehistorias)."
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