"Silêncio e Arrumação"

 Hoje, finalmente, estou de folga. Folga relativa, porque a vida raramente nos dá intervalos absolutos. Não fui trabalhar, não saí com a família, não combinei nada com amigos, nem levei a minha cadela a passear. Comecei a manhã com um café tranquilo, desses que sabem melhor porque não há relógio a empurrar. Arrumei a casa e terminei um dos livros que me acompanhava há dias. Quando fechei a última página, dei por mim a olhar para o relógio e a pensar: e agora?

É curioso como passamos tanto tempo a desejar tempo livre e, quando o conquistamos, não sabemos o que lhe fazer. Mas eu gosto do silêncio. O silêncio não me pesa. Ele é o lugar onde me volto a encontrar. Não preciso de o preencher a todo o custo, como quem tem medo de se ouvir. O silêncio, para mim, é música discreta que afina a alma.

Ainda assim, decidi ir até à lojinha com a minha madrinha de crisma. Não porque quisesse fugir do silêncio, mas porque havia que arrumar. E arrumar, para mim, é também um gesto espiritual. Organizar as coisas do mundo é como organizar o coração: cada objeto colocado no lugar certo é uma lembrança de que também dentro de mim há lugares a pôr em ordem. Mexer nas prateleiras, dobrar tecidos, limpar pó — tudo isso é metáfora. O exterior e o interior falam a mesma língua.

Antes de ir, passei pelo café da minha prima, trocámos umas palavras leves. Depois, uma hora na loja bastou. Estava fechada, em arrumação. Pequeno gesto, mas suficiente. Voltei para casa e almocei. O mais precioso foi permanecer à mesa depois da refeição, a conversar. A mesa, tantas vezes vista apenas como obrigação quotidiana, é um altar. Ali não partilhamos apenas comida, partilhamos tempo, e tempo é a verdadeira forma de amor.

E penso já em amanhã, sexta-feira. É o dia favorito do meu filho. Religiosamente, acompanha-me ao trabalho. Essa tradição simples enche-lhe o coração de alegria. Ele não vai apenas “ajudar-me”: vai aprender, vai absorver, vai sentir. O convívio com pessoas autênticas e genuínas é escola maior do que qualquer manual. São elas que lhe mostram, na prática, que a vida tem valor quando é vivida com verdade.

As sextas-feiras são, para nós, celebração. Cheias de movimento, de gente boa, de encontros que não exigem máscaras. São dias de riso fácil e de presença real. E é isso que me faz pensar: o que nos dá paz não é o extraordinário; é a autenticidade.

Hoje, a minha folga não foi feita de grandes viagens, mas de pequenos gestos. O silêncio que acolhi, a arrumação que fiz, a mesa onde permaneci, a conversa que partilhei, a expectativa de amanhã. Descanso, afinal, não é não fazer nada. É fazer o que se faz com sentido.

O silêncio é arrumação invisível. A arrumação é silêncio visível. Ambos se tocam, ambos me curam. O silêncio dá espaço para ouvir o que a pressa abafa. A arrumação dá ordem ao que o caos dispersa. São dois modos de afiar a alma: um pela escuta, outro pelo gesto.

E é isto que eu quero: viver cada dia com esta consciência de que até o mais pequeno ato — pôr uma prateleira em ordem, sentar-me à mesa, ouvir o meu filho, rir com os meus — pode ser sacramento da vida. Hoje, na minha folga “mais ou menos”, arrumei não apenas a loja, não apenas a casa, mas também o meu próprio coração.

______________________________________________© 2014–2026 TeceHistórias (Marisa). Todos os direitos reservados.

Os conteúdos deste blogue, incluindo textos originais, encontram-se protegidos pelo Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos (CDADC) e demais legislação aplicável. É expressamente proibida a reprodução, cópia, transcrição, adaptação, publicação, distribuição, disponibilização pública ou qualquer forma de utilização, total ou parcial, por qualquer meio ou suporte, sem autorização prévia, expressa e escrita da autora. A utilização não autorizada poderá dar origem a responsabilidade civil e criminal nos termos da lei portuguesa da União Europeia.

"Texto de autoria de(tecehistorias ) <Marisa>, publicado em Fios de Imaginação(@"fios de imaginação") (@tecehistorias)."

Comentários