"O 2.º ciclo começou: entusiasmo dele, prudência minha"
Hoje iniciou-se, para mim e para o meu filho, a travessia do 2.º ciclo. Um marco. Uma nova etapa que, confesso, me parecia imensa, quase como um mar desconhecido. E, no entanto, ao chegar à escola, senti uma estranha serenidade. A receção aos alunos do 5.º ano revelou-se um gesto de cuidado, quase cerimonioso: fomos recebidos pelo diretor, homem de voz firme e olhar que não vacila, capaz de falar com paixão sem se perder em formalismos ocos. Não vi nele medo nem receio perante os pais; vi, antes, uma postura de igualdade, como quem diz: "Estamos juntos nisto, mas cada qual no seu lugar."
A turma do meu filho, ao que parece, é calma. Meninos sossegados, homogéneos até, como se alguém tivesse alinhado cuidadosamente as peças de um puzzle humano. As regras apresentadas pelo diretor – e apresentadas com uma assertividade que quase soava a música – deixaram-me impressionada. São, no fundo, linhas de orientação que respiram clareza e justiça. A diretora, por sua vez, revelou-se acessível, mas não senti necessidade de longas conversas naquele momento; prefiro observar primeiro, dialogar depois.
No íntimo, carrego algum cepticismo quanto à velha batalha entre escola e família, esse mantra tantas vezes repetido sobre a importância do diálogo e da entreajuda. Escutei atentamente o discurso, sem interromper, sem opinar. É que eu já conheço este terreno, já testemunhei a frágil corda bamba que tantas vezes se quebra entre intenções e práticas. Ainda assim, fiquei contente ao rever auxiliares que sei serem profissionais sérias, dedicadas, humanas. Essa confiança é ouro.
Mas o que mais me surpreendeu foi a alegria do meu filho. Ele irradiava entusiasmo, como se esta nova escola fosse um palco e ele um ator pronto a estrear-se. Vi-lhe o brilho no olhar e pensei: talvez eu devesse também ceder um pouco ao encantamento da novidade.
A associação de pais surgiu, inevitavelmente, como tema. E eu, que conheço bem a presidente – mulher íntegra, movida por valores sólidos – fui recebida com um abraço caloroso, quase como quem reencontra uma aliada de outros tempos. Ela, radiante, disse-me que era hora de regressar ao coletivo, de voltar ao trabalho conjunto que aproxima escola e famílias. Eu, porém, respondi com ironia doce: "Sabes bem o que passou-se… prefiro cada macaco no seu galho." Disse-o com respeito, mas convicta. Talvez me tenha tornado antagonista, ou talvez apenas tenha aprendido a medir melhor os meus passos. Gentilmente, declinei o convite.
E no meio de tudo, o mais importante foi a simplicidade de uma pergunta feita pelo meu filho no final:
— Mãe, quando posso ir ver a minha professora antiga? Tenho saudades.
Respondi-lhe que podia ir quando quisesse, e vi naquele gesto o reflexo da sua ternura, a sua lealdade a quem o acompanhou até aqui. E eu própria emocionei-me. Porque a vida é feita de continuidade, e uma nova etapa não apaga a anterior: acrescenta-lhe novas cores.
Hoje, ao regressar a casa, fiquei a pensar que talvez a escola seja sempre uma espécie de espelho: mostra-nos os nossos receios, as nossas memórias e as nossas esperanças. E, acima de tudo, mostra-nos que, apesar de todas as nossas reflexões críticas, o que verdadeiramente importa é ver o filho radiante, com vontade de aprender, de crescer e de se despedir com saudades.
Afinal, o 2.º ciclo começou. Para ele, com entusiasmo. Para mim, com prudência. Mas, quem sabe, talvez o tempo me prove que, neste palco, ainda há espaço para reencontrar confiança.
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"Texto de autoria de(tecehistorias ) <Marisa>, publicado em Fios de Imaginação(@"fios de imaginação") (@tecehistorias)."
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