"Recados na caixa do correio: a minha fé não cabe em papel"
Era para escrever sobre o meu filho, sobre o início desta nova etapa da vida que nele floresce e em mim se renova. Porque cada passo dele é também um passo meu, cada horizonte que se abre diante dos olhos dele reconfigura o meu próprio horizonte. A vida, quando se desdobra em gerações, é como uma oração contínua: o que semeei em silêncio, ele leva agora em canto. Há ternura e há coragem nessa passagem. E eu, como mãe, assisto com assombro à beleza de ver alguém a quem dei o ser a conquistar o próprio lugar no mundo.
"Texto de autoria de(tecehistorias ) <Marisa>, publicado em Fios de Imaginação(@"fios de imaginação") (@tecehistorias)."
Mas antes, tenho de escrever sobre recados. Sim, recados. Os recados que são falados no café, para que transmitam mesmo que eu não queira saber, dobrados e deixados ao acaso. Os recados que agora encontro na caixa de correio, com insistência quase obsessiva. Eu agradeço a preocupação com o meu bem-estar espiritual — agradeço de verdade, até com certo humor. Mas não me iludo: começa a cheirar mal.
Já recebi emails carregados de insultos, ameaças, fotografias inconvenientes, chamadas e mensagens que não valem a tinta com que foram escritas. Houve até encomendas entregues em minha casa, e confesso: diverti-me com todas, agradeci a ironia involuntária e resolvi a situação. Mas
agora a cena repete-se em versão impressa: papéis piedosos, às vezes como o da imagem que mostro, outras vezes com conteúdos para maiores de 18. A isto eu chamo um teatro mal encenado.
agora a cena repete-se em versão impressa: papéis piedosos, às vezes como o da imagem que mostro, outras vezes com conteúdos para maiores de 18. A isto eu chamo um teatro mal encenado.
Não tenho medo. E mesmo quando o medo me visita, avanço. Porque a fé não se mede em recados escondidos, mas em passos firmes. Porque cristãos verdadeiros não intimidam, não ameaçam, não vigiam por entre frestas — amam, perdoam, servem.
É aqui que a ironia se adensa: gastar papel para espalhar medo, enquanto o planeta grita por misericórdia. Se querem ser mensageiros de Deus, que plantem árvores em vez de as deitar abaixo para fabricar panfletos. O Evangelho não cabe em folhas anónimas enfiadas numa caixa de correio; o Evangelho cabe em gestos, em olhares, em mãos estendidas.
Sou católica. Sei, com todo o coração, que estou no sítio certo. Vivo essa certeza não como um dogma frio, mas como experiência palpável: a paz de Cristo é real, sente-se, toca-se quase. Conheço bem as Escrituras; nós, católicos, lemos todas, sem recortar capítulos ao sabor do medo. Cresci com catequeses de pais, com estudos bíblicos, com homilias que não se reduzem a gritos de condenação, mas se elevam como faróis de esperança.
A Palavra que me formou não é arma, é pão. Não é castigo, é caminho. É amor, compaixão, generosidade, altruísmo, paciência, partilha genuína.
Por isso, quando encontro estes papéis, vejo neles um espelho invertido da fé: não revelam Cristo, mas revelam o vazio de quem não O encontrou de verdade. São caricaturas impressas em papel barato, não são testemunhos vivos do Evangelho.
Eu rio, sim. Mas rio com a serenidade de quem já percebeu que a cruz nunca foi intimidação, mas vitória. Rio porque sei que nenhum papel enfiado na minha caixa de correio pode roubar a esperança que trago.
E volto ao ponto inicial: ao meu filho, ao novo ciclo que começa, à vida que se expande. Porque é nele, e em todos os que crescem com autenticidade, que reconheço a prova mais concreta da fé: o futuro não se escreve em ameaças, mas em confiança.
Assim, devolvo-vos este recado — mas não em papel. Escrevo-o com a tinta da alma: não vos escondais atrás de folhetos. Sede cristãos de carne e gesto. Amai, perdoai, cuidai. O mundo precisa disso, não de apelos medrosos. Precisa de vós desarmados, descalços, autênticos.
E eu, por mim, sigo em frente. Com o meu filho, com a minha fé, com a certeza de que a paz que Cristo me deixou é inabalável, indestrutível, eterna.
"Texto de autoria de(tecehistorias ) <Marisa>, publicado em Fios de Imaginação(@"fios de imaginação") (@tecehistorias)."

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