"A voz do outro"
Hoje, passei uma parte significativa do meu tempo na cidade. Moro numa vila pequena, onde a vida decorre num compasso lento, quase rústico, e onde cada gesto parece obedecer a uma cadência ancestral. Ir à cidade, para mim, é sempre um exercício paradoxal: por um lado, atrai-me a vibração dos passos apressados, os ruídos metálicos dos transportes, a geometria impessoal dos edifícios; por outro, sinto que não pertenço totalmente a esse cenário. É como se habitasse entre dois mundos — a serenidade expectante da vila e a inquietação febril da cidade.
No regresso a casa, quando já me deixava embalar por esse espaço intermédio que é a estrada, aconteceu-me algo que jamais poderia ter antecipado. Uma conhecida aproximou-se de mim, com o olhar carregado de uma espécie de pudor curioso, e perguntou-me, quase em segredo, se podia ler-me uma coisa. Consenti, com naturalidade. Ela começou a ler. E foi então que, sem me conter, sorri.
As palavras que saíam da sua boca eram-me estranhamente familiares. Não apenas pelo tom, mas pela respiração interior que continham. Era como se cada frase trouxesse o eco de um silêncio que só eu conhecia. Ela interrompeu a leitura, intrigada pelo meu sorriso, e perguntou:
— Não gostas? Não concordas?
Nesse instante, sorri ainda mais. Senti que o momento tinha algo de revelação íntima e, com serenidade, respondi:
— Concordo plenamente. Na verdade, subscrevo cada palavra. Afinal, fui eu quem escreveu esse texto.
O riso dela soou leve, quase incrédulo:
— Estás a brincar, não foste tu que escreveste isto.
Olhei-a nos olhos e perguntei-lhe:
— Então diz-me, porque lês o que eu escrevo? O que procuras?
A sua resposta foi de uma simplicidade arrebatadora, como um raio de luz que não precisa de explicação:
— Leio-te porque encontro-me em ti.
Nesse instante, o tempo pareceu abrandar. Fiquei suspensa na revelação daquela frase, como se me fosse concedida uma verdade maior do que qualquer explicação intelectual. Percebi, com uma nitidez quase comovente, que a escrita não é apenas um acto individual, mas um território partilhado. O que escrevo, quando nasce em mim, carrega a minha voz, o meu gesto, o meu ritmo interior. Mas, no momento em que é lido, já não me pertence inteiramente. Passa a ser também do outro — daquele que lê, que interpreta, que se reconhece, que encontra nas minhas palavras não apenas a minha verdade, mas a sua própria.
Escrever é, nesse sentido, um acto de generosidade e de despojamento. É lançar ao mundo fragmentos de mim que deixam de me obedecer. Uma vez libertas, as palavras adquirem vida própria; podem ferir, curar, iluminar ou simplesmente repousar em silêncio na mente de alguém. São sementes lançadas ao acaso do tempo. E, por vezes, como nesse encontro inesperado, elas regressam a mim pela voz de outro, trazendo-me o espanto de me reconhecer nos olhos alheios.
Essa experiência fez-me pensar na natureza do reconhecimento. Todos procuramos, de algum modo, um espelho onde a nossa interioridade se reflita. Quando escrevo, acredito estar a traduzir algo de muito íntimo, singular, quase intransmissível. E, no entanto, ao ser lido, esse íntimo deixa de ser só meu: revela-se partilhável, universal, humano. A grande ironia da escrita é esta: escrevo para me compreender, mas, no fim, descubro que a minha voz só se cumpre plenamente no momento em que é lida por alguém que se reconhece nela.
Há quem diga que escrevemos para não morrer. Eu sinto, contudo, que escrevemos também para não estarmos sozinhos. A escrita é uma ponte invisível que atravessa distâncias temporais, geográficas e até existenciais. Alguém, que não sou eu, pode ler-me e sentir que ali está, subtilmente, uma parte de si. E essa experiência é de uma beleza arrebatadora: a de perceber que as fronteiras entre eu e o outro se desfazem, que a palavra é capaz de criar uma comunidade secreta entre desconhecidos.
O que me aconteceu nesse dia foi, portanto, mais do que uma coincidência ou um episódio curioso. Foi uma lição. Uma confirmação de que a escrita é um território de encontro, uma forma de comunhão. Compreendi, ali, que talvez a missão mais profunda de quem escreve não seja afirmar-se, mas oferecer-se. Não se trata de exibir um eu, mas de criar um espaço onde múltiplos eus possam encontrar abrigo.
E percebi ainda outra coisa: há uma beleza imensa na simplicidade com que alguém nos devolve aquilo que julgávamos só nosso. A frase dela — “Leio-te porque encontro-me em ti” — ficará para sempre gravada na minha memória como uma revelação. Porque é isso que dá sentido à palavra: a capacidade de, ao nascer de mim, dar vida ao outro.
Escrever é, afinal, perder-me em mim mesma para que alguém se encontre. É ceder as minhas palavras ao silêncio do mundo para que ressoem, de forma inesperada, na consciência de quem lê. E talvez seja nisso que reside o mistério mais profundo da literatura: no facto de ela ser sempre, ao mesmo tempo, intimidade e partilha, solidão e encontro, particularidade e universalidade.
E assim, nesse regresso da cidade à vila, nesse breve diálogo, compreendi que a escrita não é apenas um gesto meu. É um acto de pertença, um sopro que nos une. E talvez seja essa a sua essência: não ser de quem escreve, mas de quem, ao ler, descobre que também lhe pertence.
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"Texto de autoria de(tecehistorias ) <Marisa>, publicado em Fios de Imaginação(@"fios de imaginação") (@tecehistorias)."
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