"Fotografia "

 A tua fotografia… como é estranho contemplar-te assim, imóvel, numa frágil moldura. Fico aqui, diante dessa imagem inerte, presa num paradoxo entre o que eras e o que restou de ti. Não se mexe, não fala, não me sorri mais, mas há tanto dito no silêncio dessa representação. Há algo que falta, um vazio entre a tua presença física e a memória daquilo que foste, daquilo que partilhaste comigo. O branco da folha que te envolve faz lembrar o espaço que agora existe entre nós, uma ausência marcada pela distância intransponível que o tempo construiu.

Olho para essa fotografia e sinto um abismo a abrir-se lentamente no meu peito. Ela é ao mesmo tempo memória e perda, presença e ausência. As cores, tão vivas antes, já se desvanecem, tal como o som da tua voz, que se apaga aos poucos na minha mente. Lembro-me de ti em momentos tão pequenos, tão nossos, mas ao mesmo tempo, essas recordações fogem como areia entre os dedos. A fotografia, fria, parece não querer dizer mais nada, mas o teu olhar nela… esse ainda fala comigo, ainda murmura segredos, promessas que ficaram suspensas no tempo.

É curioso como uma simples imagem pode conter tanto e, ao mesmo tempo, ser tão insuficiente. Esta fotografia não tem cheiro, não tem o toque da tua pele nem o calor do teu corpo. Fica distante de tudo aquilo que tu eras, de tudo o que representavas, como uma sombra imperfeita do que um dia foi inteiro, do que um dia existiu com tanta intensidade. Mas, mesmo assim, há momentos em que a tua ausência pesa de tal forma que me vejo obrigada a voltar a ela, a este pedaço de papel que, de alguma maneira, ainda me conecta a ti.

No entanto, confesso que, às vezes, custa. Custa-me olhar para esta imagem e aceitar que é só isso que restou. Uma imagem. Tu, que eras movimento, som, riso, agora és estático, congelado num momento que já não me pertence, que já não nos pertence. E sinto-me impotente diante deste desfecho, como se todo o amor, toda a história que partilhámos pudesse ser reduzida a este pequeno artefacto que guardo como um tesouro, mas que ao mesmo tempo me pesa como uma âncora.

E sabes, essa âncora já começa a arrastar-me para o fundo. Olho para ti, ou melhor, para esta versão imóvel de ti, e pergunto-me: até quando irei carregar o fardo desta saudade? Até quando irei prender-me a esta imagem de ti, a este fantasma que continua a assombrar os meus dias e as minhas noites? Há algo de profundamente injusto em sentir que, por mais que queira seguir em frente, parte de mim ficará sempre aqui, presa a esta fotografia, a este passado que já não existe, mas que teima em não me deixar ir.

Porque a verdade é que, com o passar do tempo, até mesmo esta fotografia parece cansar-se. Cansa-se de ser o único elo, cansa-se de ser um símbolo de algo que já não é. E eu, cansada também, começo a perceber que talvez o verdadeiro peso não esteja na imagem, mas no que ela representa. É o eco de uma despedida nunca dita, o fim de um sonho que se desfez, de uma vida que não cumpriu todas as promessas. E, aos poucos, sinto que essa vida, esse sonho, essa parte de mim que tu levavas contigo, também se vai esvaindo. Seca, como uma planta sem água, como uma alma sem luz.

Por isso, talvez seja o momento de me despedir não só de ti, mas também desta parte de mim que ainda insiste em ficar aqui, presa a esta memória estática. Talvez seja tempo de soltar este fio invisível que nos mantém ligadas, porque, ao final de tudo, percebo que tu já te foste, e eu… eu ainda estou aqui, a tentar sobreviver num mundo onde a tua fotografia já não me consola, já não me basta.

E assim, na quietude deste momento, pergunto-me: será que algum dia voltarei a sentir o calor que a tua presença trazia? Ou será que estou condenada a viver entre o passado e o presente, numa constante saudade que nunca me larga?

A tua fotografia é o que resta, mas o que resta nunca é o suficiente.




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