A continuação do "presente"

 Hoje, enquanto admirava o meu novo e reluzente relógio — que, por ironia do destino, é tão útil quanto um guarda-chuva num deserto — não pude evitar que a minha mente vagueasse até ao dia em que recebi o presente mais peculiar da minha vida: um… “dispositivo de prazer”, mas pelo menos bastante original. Este artefacto, envolto em mistério e um pouco de silicone, chegou à minha porta como se fosse a solução mágica para os meus problemas diários. Não um cabaz de iguarias gourmet, não um vale para um spa, mas sim um brinquedo que prometia resolver a solidão da alma, ou assim pensaram.

A mensagem que acompanhava este magnífico presente era a cereja em cima do bolo: “Para que nunca te sintas sozinha.” Ora, não sei se a pessoa que enviou esta “obra-prima” tinha uma noção errada da minha vida ou se estava a tentar fazer uma observação subtil sobre a minha vida amorosa. Como se, no meio de toda a azáfama da maternidade e da rotina doméstica, a verdadeira questão fosse a minha solidão. Ah, sim, claro, o que realmente precisava era de um dispositivo que funciona a pilhas, em vez de uma escapadela romântica ou, pelo menos, um jantar de picanha com vinho. Um pedaço de silicone pulsante: a nova panaceia dos tempos modernos!

Quando o meu marido chegou a casa e avistou o “dispositivo”, a expressão dele foi uma mistura de choque e divertimento. “Imagina que, na próxima vez, a encomenda é uma máquina de café que também faz massagens! Estaríamos a dar um novo significado a ‘café e convívio’!” — disse ele, entre risadas. Passámos a tarde a elaborar cenários ridículos sobre quais poderiam ser os próximos presentes. “Que tal um aspirador que canta fados enquanto limpa? Ou uma torradeira que também é massagista?” Uma verdadeira comédia de erros!

E, entre uma gargalhada e outra, apercebemo-nos do absurdo de tudo isto. O que me enviaram não era apenas um presente excêntrico; era um reflexo da vida moderna. Quem é que tem a audácia de achar que um “dispositivo de prazer” é a resposta ideal para os meus problemas diários? Se eu quisesse algo assim, comprava e escolheria o modelito e tamanho. Essa pessoa poderia ter simplesmente investido num bom livro de autoajuda. “A Arte da Solitude” poderia ter sido um título mais apropriado e de certeza, assim ocuparia a sua mente com outra coisa. E quem é que, na sua sã consciência, manda um presente desses a uma mãe ocupada, como se isso fosse uma solução mágica?

Agora, sempre que olho para o meu relógio, que marca as horas com uma precisão que nem sempre se traduz em bons momentos, lembro-me do dia em que recebi o “dispositivo”. Um presente que foi parar a uma gaveta, não por falta de interesse, mas sim pela estranheza do gesto. Não estou a criticar o uso de tais produtos, mas, sinceramente, quem precisa disso quando se tem um marido cativante? Este “brinquedo” até pode ser interessante, mas não chega aos calcanhares de um “original” que, pelo menos, faz companhia e não apenas ruído.

A verdade é que agora, com este “dispositivo” na gaveta, decidi que farei questão de brincar muito com ele — claro, sempre que o “modelo original” não estiver por perto. Porque convenhamos, se há dias em que se precisa de um escape, é em noites como essas. No entanto, por mais divertido que possa ser brincar com o “dispositivo”, não há vibração que supere o calor humano. A química, a conexão… isso não pode ser simulado, independentemente do que a tecnologia nos oferece.

E que tal pensar num presente verdadeiramente memorável, como um rodízio de picanha? Imagina abrir a porta e ser recebida por um chef com uma bandeja fumegante, enquanto o aroma inebriante da carne grelhada invade o ar. Isso sim seria uma experiência digna de nota! Ao invés disso, recebo um artefacto de silicone que, no melhor dos casos, é uma companhia quase silenciosa nas longas noites de solidão. Porque, claro, o que eu realmente desejava era um bocado de carne a escorrer suculência, e não um objeto que faz “música” e que não pode ser partilhado à mesa.

Assim, o que fica é esta reflexão: a vida é repleta de surpresas — algumas mais absurdas que outras. E mesmo que nem todas as surpresas venham na forma de picanha suculenta, o importante é saber rir delas. Sempre que o carteiro toca à campainha, abro a porta com uma mistura de ansiedade e expectativa: será que desta vez vou encontrar algo normal? Ou será que vou receber um aspirador que dança? O que posso afirmar com certeza é que, entre o “dispositivo de prazer” e o relógio que agora enfeita o meu pulso, aprendi uma lição valiosa: o sentido de humor é o melhor remédio.

E assim, entre risadas e discussões sobre o que poderíamos receber a seguir, imaginei um cenário onde o meu novo “dispositivo” e o relógio eram protagonistas de um espetáculo à parte. “A próxima encomenda deve ser um avio que traz carne!” eu disse, enquanto sonhávamos com as possibilidades. Uma torradeira que faz refeições enquanto limpa? Um aspirador que dança a valsas? Sinto que a próxima vez que o carteiro tocar à porta, não vou saber se o que ele traz é um novo gadget bizarro ou o prato do dia.

Mas fico a aguardar ansiosamente pela próxima surpresa, aceito tudo de sorriso na cara, algemas e cremes. Chicotes e roupa de cabedal . Prefiro alimentos. Surpreende -me.

No fim de contas, como diz o ditado, é melhor rir do que chorar, especialmente quando o motivo da risada é um presente que só uma mente muito perturbada e peculiar poderia ter escolhido.







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