"Tempo..."
O tempo sempre me fascinou, esse predador implacável que nos persegue desde o instante em que respiramos pela primeira vez. Ele, sem piedade, consome cada segundo que julgamos nosso, como se fosse um colecionador de momentos, imperturbável na sua tarefa de devorar tudo o que fazemos, dizemos, sentimos. Cada gesto, por mais singelo ou grandioso, é engolido pelo tempo com a mesma voracidade. E o mais cruel é que ele não faz distinções. Não perdoa nem os instantes mais doces, nem os mais amargos.
Tenho pensado muito sobre isso ultimamente. Talvez seja a minha forma de lidar com o medo de perder o que ainda não fiz, o que ainda não disse. Porque, sejamos honestas, o tempo não tem qualquer consideração pelos nossos arrependimentos ou pelas palavras que não tivemos coragem de dizer. Ele continua, indiferente, enquanto nós ficamos presas, muitas vezes, nas emoções que não soubemos expressar a tempo.
E é aqui que reside o grande paradoxo: passamos a vida a acreditar que temos tempo. Tempo para perdoar, tempo para amar, tempo para corrigir erros. Adiamos o que é importante, como se o futuro fosse uma promessa certa. Mas, no fundo, sabemos que o tempo não faz essas concessões. Ele não dá segundas chances. Ontem já não existe, é um lugar inacessível, perdido no vórtice da memória, e o amanhã… bem, o amanhã é apenas uma possibilidade, uma expectativa incerta.
Quantas vezes me vi à beira de um "te amo", mas deixei escapar a oportunidade? Aquela hesitação, o medo do impacto que as palavras possam ter. E, depois, surge o arrependimento. O arrependimento por ter confiado no tempo, por ter acreditado que haveria outra oportunidade. A verdade, contudo, é que o hoje é o único terreno firme que temos sob os pés, e mesmo ele é fugidio, dissolvendo-se constantemente no passado.
Dizer "sinto muito", então, torna-se uma batalha ainda mais complexa. Não é fácil reconhecer os nossos erros, a nossa falibilidade. E muitas vezes, adiamos essa confissão de fraqueza, com a ilusão de que será mais fácil no futuro. Mas o tempo, novamente, desmente-nos. Esperamos pelo amanhã para dizer aquilo que nos corrói por dentro, mas, quando esse amanhã chega, a oportunidade já se foi, tragada pela passagem inevitável dos minutos.
O tempo é soberano, é verdade. Ele rege tudo o que existe e o que não existe mais. Sabe dividir com precisão cirúrgica o ontem do amanhã, usando o hoje como uma linha invisível que, no entanto, pesa sobre os nossos ombros. É uma linha fina, frágil, mas que carrega um fardo imenso: o fardo das escolhas, das palavras ditas ou caladas, dos gestos feitos ou adiados. E essa linha, por mais que tentemos fingir que não a vemos, está sempre ali, lembrando-nos que o tempo não perdoa.
Eu, por vezes, sinto essa linha como uma lâmina. Ela corta a ilusão de que posso adiar tudo para depois, e é precisamente essa consciência que me impulsiona a agir. Porque, se não o fizer agora, quando o farei? E se o amanhã, essa promessa incerta, não chegar? E se o ontem, já inalcançável, for tudo o que me restar? O peso da urgência, de aproveitar cada instante, de dizer aquilo que precisa ser dito, transforma-se numa responsabilidade quase avassaladora.
Há uma espécie de humor cruel nisso tudo, não há? O tempo, que teoricamente nos dá a vida, também nos obriga a lidar com a sua finitude, com a incerteza de cada momento. É como um jogo em que estamos destinadas a perder, mas no qual, paradoxalmente, continuamos a jogar. Talvez seja essa a piada cósmica do universo. Ou talvez seja a maneira de nos lembrar que cada "te amo", "te quero", "sinto muito" deve ser dito sem esperar o momento ideal, porque esse momento nunca chega. Ele só existe no agora.
De tanto refletir sobre isso, cheguei a uma espécie de conclusão: o tempo não é o vilão da história, embora muitas vezes assim o pareça. Ele é apenas o cenário no qual vivemos, o palco onde se desenrola a nossa peça, e nós somos as atrizes. Cabe-nos a nós fazer as nossas falas contarem, não para os aplausos no fim, mas para nós mesmas. Para que, quando a cortina finalmente cair, possamos olhar para trás e saber que aproveitámos o palco enquanto o tínhamos.
Por isso, hoje, digo o que sinto, mesmo que as palavras me tremam na garganta. Hoje, faço o que o meu coração pede, ainda que a razão me sussurre cautela. Porque, por mais que o tempo seja implacável, ele também nos dá a oportunidade de sermos verdadeiras com nós mesmas, e com os outros. Não espero mais pelo amanhã. Afinal, a linha divisória está sempre presente, e não sei quanto tempo mais terei para estar deste lado dela.
Talvez o segredo esteja, afinal, em fazer as pazes com o tempo. Não como uma forma de rendição, mas como um entendimento mútuo. Ele seguirá o seu curso, e eu seguirei o meu, mas enquanto estivermos a caminhar lado a lado, tentarei não perder mais nenhuma oportunidade de dizer: “Te amo”, “Te quero”, e, sobretudo, “Sinto muito”. Porque, no fim, são essas palavras que fazem a diferença no hoje. E o hoje, por mais breve que seja, é tudo o que tenho.
______________________________________________
© 2014–2026 TeceHistórias (Marisa). Todos os direitos reservados.
Os conteúdos deste blogue, incluindo textos originais, encontram-se protegidos pelo Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos (CDADC) e demais legislação aplicável. É expressamente proibida a reprodução, cópia, transcrição, adaptação, publicação, distribuição, disponibilização pública ou qualquer forma de utilização, total ou parcial, por qualquer meio ou suporte, sem autorização prévia, expressa e escrita da autora. A utilização não autorizada poderá dar origem a responsabilidade civil e criminal nos termos da lei portuguesa da União Europeia.