"A escrita..."

 A escrita é, para mim, muito mais do que um simples exercício de expressão pública; trata-se de um acto íntimo, quase terapêutico, um diálogo silencioso entre a minha consciência e a folha em branco. O meu blogue não é apenas um repositório de ideias e pensamentos dispersos, mas um espaço onde convergem as minhas vivências, as minhas angústias, as minhas pequenas alegrias e até as minhas fantasias. Escrever é um acto de libertação, uma forma de dar voz ao que muitas vezes me seria impossível dizer de outra maneira. Não há como dissociar o que sou do que escrevo, pois, ainda que algumas histórias nasçam do mundo da ficção, elas trazem inevitavelmente um pouco de mim — do que sinto, do que vivi ou, por vezes, do que observo nos outros.

Contudo, a interpretação daquilo que se lê é sempre uma intersecção entre o texto e o leitor, onde este último projeta as suas próprias vivências, as suas crenças e as suas emoções. Cada leitor é, por si só, um universo de experiências, e é através desse filtro único que os meus textos ganham uma nova vida. O que escrevo pode ser entendido de forma múltipla e, por vezes, surpreendentemente distante da minha intenção inicial. E isso, por si só, é algo que faz parte do risco de escrever em público. A leitura é um espelho distorcido, onde cada um vê o reflexo daquilo que traz dentro de si.

Não nego que muitos dos meus textos são sobre mim — sobre as minhas experiências, os meus medos, as minhas paixões. Outros nascem de histórias que ouvi, de conversas com amigos, de episódios que me contaram. E alguns, claro, são meramente ficções, estórias que invento pela pura vontade de criar, de explorar narrativas que, mesmo que não sejam minhas, me dizem respeito de alguma forma. Porque, no fundo, tudo o que escrevo reflete algo de mim, mesmo que indireta ou inconscientemente.

E, ainda assim, há quem leia nas entrelinhas o que não escrevi. Quem atribua intenções ou sentimentos que não estão lá. Quem se ofenda, quem se sinta atacado, quem veja em cada palavra uma afronta pessoal. É intrigante, e ao mesmo tempo exasperante, constatar como a mesma frase pode despertar reações tão díspares. Há quem ria, quem se emocione, quem se identifique. E há quem sinta necessidade de retaliar, de me fazer pagar por algo que não escrevi para essa pessoa em particular, mas que, na sua leitura distorcida, lhe parece dirigido.

Recentemente, cheguei ao ponto de considerar arquivar o blogue, de o deixar repousar numa espécie de limbo digital, longe dos olhos de quem me lê com desconfiança ou má-fé. Mas, ao mesmo tempo, questiono-me: porquê ceder a essa pressão? Porquê deixar que a malícia alheia silencie algo que, para mim, é tão vital? A escrita é a minha forma de processar o mundo, de cicatrizar feridas, de encontrar sentido nas experiências mais dolorosas. É uma forma de cura, uma terapia que me permite transformar a dor em palavras e, através dessas palavras, em algo suportável, até belo.

Não consigo deixar de rir, ainda que com uma certa ironia amarga, das ameaças veladas que me chegam. As tentativas de intimidação, as insinuações absurdas de que cometi algum mal ao simplesmente escrever. Um e-mail particularmente agressivo acusou-me de ser uma "violadora de e-mails", como se eu tivesse invadido a privacidade de alguém ao expressar-me no meu próprio espaço. A pessoa em questão chega a desafiar-me a continuar a escrever, como se estivesse a impor uma espécie de ultimato, prometendo-me consequências caso eu o faça. Fico intrigada com tamanha prepotência, com a confiança quase cega de que as suas palavras teriam o poder de me calar.

A ameaça de "ver com quantos paus se constrói uma canoa" quase me faz rir. Serei então forçada a aprender, de uma vez por todas, como se constrói não apenas uma canoa, mas talvez até um cruzeiro. Porque, se for para navegar por mares agitados, que seja em grande, que seja com firmeza e audácia. Não me assusto facilmente com palavras — são elas, afinal, o meu território, o meu elemento. E se o caminho que me prometem é de confronto, então que seja, mas será feito à minha maneira.

Arquivar o blogue seria, em última instância, um acto de rendição. E eu não me renderei. Continuarei a escrever, a expor o que sinto, o que penso, o que imagino. Porque, acima de tudo, escrevo para mim. E se, um dia, os meus filhos, amigos ou quem quer que seja ler o que deixei, que riam comigo, que recordem quem fui, o que fiz, o quanto amei. A escrita é o meu legado, e não há ameaça ou interpretação errada que me faça abdicar desse direito. Se alguém se sentir ofendido por algo que nem lhes foi dirigido, isso revela mais sobre eles do que sobre mim.

E assim, enquanto as palavras continuarem a fluir de mim, o blogue permanecerá vivo. Porque é através dele que me liberto, e a minha liberdade, essa, ninguém me tira.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

"Chegamos às 250 mil"