"Atitudes."

 Existe atitudes que marcam- nos de uma forma que inspira a evoluir mais. Existe pessoas autenticas, gentis e transparentes. No dia 29, atravessei uma experiência limiar, um momento fugaz que me separou da realidade. Morri, embora por instantes. Não vislumbrei qualquer luz radiante nem recordações vívidas, apenas uma pausa silenciosa em que tudo pareceu estagnar. A mente, habitualmente atormentada por pensamentos incessantes, por análises críticas e por sonhos idealizados, finalmente encontrou repouso. O turbilhão que sempre agitou meu ser cessou, foi reconfortante. Contudo, algo dentro de mim não se calou; o meu coração de mãe, pulsante e inquieto, sentiu a ausência do meu ser. E assim, esse coração de mulher encontrou força para retornar à vida.

A saída do hospital exigiu que assinasse uma alta que, mais do que um mero documento ou termo de responsabilidade, parecia um ato de renascimento. Acompanhou-me uma grande amiga, que não hesitou em ir buscar-me. Caminhávamos juntas, de braço dado, num silêncio cúmplice que falava mais do que palavras poderiam expressar. Ela disse carinhosamente que Deus ainda não queria conversar pessoalmente comigo; percebi, então, que ela havia falado com o meu marido. Troquei um olhar significativo com a minha amiga, e um sorriso involuntário brotou dos meus lábios, como se juntas compartilhássemos um segredo profundo.

O cansaço dominava-me, e o esforço para manter-me em pé tornava-se uma batalha a cada passo. Assim, seguimos para a casa dela, onde a sua preocupação era palpável. Em um gesto generoso, ela ligou para o meu marido, afirmando que me levaria para casa apenas quando eu estivesse mais recuperada, menos parecida com uma "defunta", como referiu entre risos.

Na tranquilidade do lar da minha amiga, tomei um duche revigorante, um ritual que me restituía ao mundo. Enquanto isso, ela preparava um chá quente e uma torrada que trouxe ao seu quarto, agora ocupado por mim, antes de se dirigir à cozinha para fazer canja, a famosa sopa dos doentes, cheia de afeto e boas intenções. O seu olhar constante, a cada minuto em que espreitava a porta do quarto, evidenciava a profundidade da nossa amizade, que perdura há mais de dezoito anos. Ela foi a primeira, sem ser os pais, a segurar meu filho mais novo nos braços, um momento que eternizou a nossa ligação.

Quando a canja ficou pronta, deitou-se ao meu lado, envolvendo-me num abraço reconfortante. A sensação de segurança que me oferecia era um bálsamo para a alma cansada. Adormeci sob a sua proteção, a minha mente finalmente em paz, e só voltei a abrir os olhos quando a sua voz suave me acordou, gentilmente pedindo-me que me levantasse para almoçar.

Esses gestos simples, mas profundamente significativos, deram-me um novo alento. Neles, percebi o valor inestimável da amizade, um fio invisível que nos une e nos sustenta nas horas mais sombrias. A sua bondade reacendeu em mim a esperança, e, assim, passei a compreender que, mesmo após a morte momentânea que experimentei, havia vida, amor e apoio à minha espera, pronto para me acolher de braços abertos. Meu marido, filhos e amigos acolheram- me de braços abertos e cheios de amor e carinho.

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