"Mensagens"
Recebo um volume imenso de mensagens todos os dias, umas agradáveis, outras,nem por isso . Elas chegam de diversas formas: e-mails, redes sociais, aplicativos de mensagens, vídeos, artigos, reflexões. É como se estivesse sempre submersa em uma torrente contínua de conteúdos, cada qual prometendo soluções, insights, fórmulas de sucesso e dicas transformadoras. A motivação parece estar no ar, onipresente, como um ruído de fundo que já mal percebemos, mas que está sempre ali.
No princípio, há uma atração natural por essa avalanche de ideias. Cada nova mensagem desperta a curiosidade, a promessa de algo revelador ou potencialmente útil. Absorvemos o que podemos, experimentamos diferentes abordagens, como quem busca incessantemente melhorar, crescer, ser mais eficiente, mais sábia. No entanto, com o tempo, essa exposição constante começa a perder o efeito. O que antes instigava agora parece repetitivo, indistinto. As mensagens acumulam-se em minhas "caixas de entrada", e já não as leio com o mesmo entusiasmo.
Esse excesso passa a ser, paradoxalmente, um ruído incômodo. Quantas vezes me deparo com o mesmo conteúdo sendo compartilhado inúmeras vezes, por diferentes pessoas? Será que essas pessoas, que me enviam com tanta frequência esses materiais, chegaram a ler ou assistir aquilo que agora me compartilham? Ou será que, assim como eu, estão presas a esse ciclo de transmissão automática, quase mecânica, de ideias e mensagens que, aos poucos, perdem o sentido original?
Há algo inquietante por trás disso. Vivemos em um tempo onde a comunicação parece ter perdido a profundidade, a autenticidade. As mensagens são enviadas, mas pouco refletidas. São transmitidas em massa, mas pouco compreendidas. Platão, em sua sabedoria, dizia que a verdade da alma não se encontra nas superfícies, mas nas profundezas. E é justamente aí que reside o problema: na superficialidade com que nos comunicamos, muitas vezes esquecemos que há algo mais sendo dito além das palavras explícitas.
A pergunta que me ocorre é: o que está por trás dessa compulsão em compartilhar, incessantemente, mensagens uns com os outros? O que, de fato, estamos tentando comunicar? A resposta mais imediata é que, claro, desejamos o bem do outro. Enviamos conteúdos porque acreditamos que eles podem ser úteis, porque queremos de alguma forma contribuir para o crescimento, para o sucesso alheio. Mas essa explicação é, também, superficial. Há algo mais profundo, mais oculto.
Creio que, em muitas dessas mensagens, há uma expressão velada de nós mesmos. Muitas vezes, o que enviamos ao outro é, na verdade, um reflexo de algo que gostaríamos de ouvir ou de dizer. Há uma dimensão inconsciente nisso, uma espécie de pedido de ajuda disfarçado. O medo de nos expor de maneira clara e direta faz com que nos escondamos atrás dessas mensagens motivacionais, dessas dicas e vídeos inspiradores. Não conseguimos dizer abertamente aquilo que nos angustia, então sublimamos esse desejo de ser ouvidas ao transmitir, quase que indiretamente, nossos próprios anseios.
É curioso perceber como nos tornamos especialistas em esconder nossas vulnerabilidades. Vivemos em uma sociedade que nos impõe a necessidade de sermos impecáveis, eficientes, imperturbáveis. A vulnerabilidade é vista como fraqueza, como um sinal de inadequação. Assim, treinamos diariamente a arte de mascarar nossas verdadeiras emoções, de disfarçar nossas inquietações. Tornamo-nos mestres na arte de dizer "está tudo bem", enquanto, no fundo, carregamos uma série de questões não resolvidas, angústias reprimidas e medos inconfessos.
Com o passar dos anos, a maturidade nos permite vislumbrar essa dinâmica com mais clareza. Hoje, procuro observar as mensagens que recebo com um olhar mais atento. Não se trata apenas do conteúdo literal, mas do que está sendo comunicado nas entrelinhas. Muitas vezes, o que não é dito é justamente o mais importante. E, nesse silêncio, nessa omissão, reside o verdadeiro pedido de socorro. É nesse momento que percebo a oportunidade de agir, não com conselhos ou respostas prontas, mas com presença. Estar disponível, oferecer escuta atenta e sincera, pode ser um gesto poderoso.
Todos nós temos áreas de nossa vida que estão em constante movimento, zonas de conflito interno que precisam ser resolvidas ou, ao menos, reconhecidas. Neutralizar essas tensões é crucial, pois, quando uma questão é resolvida, outra inevitavelmente surgirá. Esse é o fluxo natural da vida. Sempre haverá algo a ser ajustado, sempre haverá uma nova demanda, um novo desafio. E isso é, em certo sentido, reconfortante. A vida é esse processo contínuo de enfrentamento, superação e renovação.
Diante disso, não podemos nos dar ao luxo de permanecer inertes. A vida plena exige ação, exige atenção às oportunidades de crescimento, de conexão, de transformação. Acredito profundamente que é nosso dever — para com nós mesmas e para com os outros — escutar com mais cuidado, interpretar com mais sensibilidade e, quando possível, agir em direção ao outro. Não basta simplesmente receber as mensagens; é necessário ler o que está nas entrelinhas. Há um apelo ali, um desejo de ser ouvido, de ser compreendido.
Como já disse Simone de Beauvoir, "é nas entrelinhas de nossas palavras que habitam os gritos silenciosos da alma". Aprender a escutar esses gritos, em nós e nos outros, é um passo essencial para vivermos de maneira mais plena, mais conectada com nossa essência e com o mundo ao nosso redor. E, quem sabe, ao escutarmos esses apelos silenciosos, possamos também encontrar a coragem para expressar os nossos próprios desejos, os nossos próprios medos, sem a necessidade de máscaras ou subterfúgios.
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