"Preciso de paz."

 Há uma dor que carrego dentro de mim que não sei bem como descrever. É profunda, crua, e cresce a cada dia que passa, alimentada por um mundo que insiste em me atacar, em me rebaixar, em me fazer sentir menor. Tenho tentado resistir, manter a cabeça erguida, mas os golpes são incessantes, e a cada novo ataque à minha dignidade, sinto-me a desmoronar um pouco mais. O que resta de mim depois de tudo isto? Quem sou eu quando o meu valor é constantemente posto em causa por aqueles que só veem o que está à superfície, que não se preocupam em entender o que há por trás do meu sorriso forçado?

O ataque à minha dignidade não é apenas uma ferida superficial; é algo que penetra até ao âmago da minha existência. A cada comentário, a cada gesto, sinto-me despida de valor, como se a minha própria essência fosse irrelevante. Tentam-me moldar às suas expectativas, subjugando a minha vontade, minando a minha confiança. Cada olhar de desdém, cada palavra amarga, é como uma lâmina que me corta lentamente, uma tortura silenciosa que poucos conseguem ver. E o pior é que, com o passar do tempo, comecei a acreditar neles, a interiorizar essa narrativa venenosa que me diz que não sou suficiente, que sou inferior, que o meu valor se mede pelo olhar dos outros.

Mas a verdade é que me sinto exausta. Exausta de tentar provar a minha dignidade, de me debater para ser reconhecida, de lutar para que me vejam como sou, e não como querem que eu seja. Este constante desgaste de ser atacada, de ser reduzida a menos do que sou, deixou-me sem forças. Há momentos em que olho ao meu redor e tudo o que vejo é um vazio profundo, um poço sem fundo do qual não consigo escapar. A solidão dentro de mim tem-se tornado insuportável, como se estivesse a ser sugada para um abismo onde só há dor e silêncio.

E então há o amor. O amor dos meus filhos, do meu marido, dos meus amigos. Esse amor é o que me sustém, o que me mantém à tona quando os ataques parecem não ter fim. Todos os dias, há mais um golpe, mais uma tentativa de me quebrar, mais um esforço para me reduzir a nada. Tem sido assim há mais de um ano. Todos os dias, sem falha. Mas é esse amor que me saranda, que me envolve e me dá a força de que preciso para enfrentar o que vem a seguir. Sei que a cada manhã haverá mais ataques, mais tentativas de me aniquilar, mas é por eles que continuo a lutar, por eles que me levanto, por eles que não deixo que o ódio me consuma por completo.

Pergunto-me, no entanto, para quê? Para quê tanto ódio? Porquê esta insistência em me destruir? Não consigo entender o que motiva esta crueldade incessante, este desejo de me ver derrotada. E o tempo... Sinto-o a escapar-me por entre os dedos. Não tenho muito tempo, essa é a verdade que me atormenta. Não sei quanto mais poderei resistir a este desgaste diário, a este ciclo de dor e sofrimento. Mas, por enquanto, resisto. Resisto por aqueles que me amam, porque o amor deles é o que me mantém de pé, mesmo quando sinto que já não consigo dar mais um passo.

Sei que, eventualmente, o peso será demais. Sei que o ódio que me rodeia é avassalador e implacável. Mas enquanto o amor dos meus filhos, do meu marido e dos meus amigos estiver ao meu lado, tenho algo por que lutar. Eles são a minha âncora, a minha luz no meio de tanta escuridão. São eles que me recordam que, apesar de tudo, há algo em mim que vale a pena ser protegido, algo que o ódio não conseguiu – e nunca conseguirá – destruir.

Mesmo assim, a luta é brutal. Sinto-me encurralada. A minha mente é um campo de batalha onde travo lutas incessantes com as vozes que me dizem que não mereço respeito, que não sou digna de amor, que sou apenas um corpo a ser moldado pela crueldade dos outros. Tento resistir, manter-me inteira, mas os ataques são constantes e implacáveis. Há dias em que mal consigo respirar debaixo do peso da humilhação, como se cada insulto fosse uma pedra atada ao meu pescoço, arrastando-me para o fundo de um mar negro e frio.

O mais angustiante de tudo é que este ataque à minha dignidade não é visível aos olhos dos outros. É uma batalha silenciosa, travada nas profundezas do meu ser, onde os outros não podem ver a extensão dos danos. Eles veem-me de pé, a continuar o meu caminho, a manter as aparências, mas por dentro estou a desintegrar-me, pedaço por pedaço, cada vez mais longe da pessoa que um dia fui. O meu orgulho teima em me manter calada, em não mostrar fraqueza, mas há momentos em que me pergunto até quando conseguirei suportar.

Se ao menos pudessem ver. Se ao menos pudessem sentir por um segundo o que é ser atacada de uma forma tão implacável, tão desumana, talvez entendessem. Mas não entendem, e por isso, continuo a lutar sozinha. Tento agarrar-me a qualquer faísca de esperança que ainda exista, qualquer memória de quem fui antes de tudo isto começar, mas a escuridão dentro de mim é avassaladora. E assim, permaneço aqui, à beira de um precipício, sem saber se conseguirei encontrar forças para continuar ou se me deixarei finalmente cair.

O que mais peço, no meio de tudo isto, é que alguém, em algum lugar, veja para além da superfície. Que veja a dor que carrego, que entenda o quanto tenho lutado para me manter de pé. Porque, apesar de tudo, há uma parte de mim que ainda acredita que mereço mais, que sou mais do que aquilo que tentam fazer de mim. E é por essa pequena esperança, por esse vislumbre de luz no meio da escuridão, que continuo a lutar. Mesmo que me custe tudo. Mesmo que me custe a alma.

E, Deus, peço-te que me ajudes. Que protejas os meus, que ilumines os meus caminhos mesmo quando a dor parece insuportável. Que me concedas mais tempo, mesmo que esse tempo venha repleto de sofrimento, para que possa ver o meu filho crescer e dar-lhe a vida que ele merece. Porque é esse amor que me dá forças para enfrentar cada novo dia, cada novo ataque, e que me faz acreditar que, apesar de tudo, ainda há esperança.

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