"Voluntário"

Este é um acto voluntário.

Não nasce da resignação.

Nasce da liberdade.

Por isso digo-o sem ironia, sem ressentimento e sem necessidade de convencer ninguém.

Fiquem com a versão de mim que vos for mais conveniente.

Aquela que construíram sem nunca terem suportado o incómodo de me conhecer.

Aquela que nasceu de frases interrompidas, de conversas pela metade, de interpretações precipitadas, de silêncios preenchidos pela imaginação e de histórias repetidas tantas vezes que acabaram por adquirir o estatuto ilusório de verdade.

Fiquem com ela.

Fiquem com a versão da vilã.

Aquela que, convenientemente, explicava todos os desconfortos sem obrigar ninguém a olhar para dentro de si.

A personagem que servia de palco para culpas que pertenciam a outros, de medos que nunca foram meus e de responsabilidades que alguém precisava desesperadamente de colocar em ombros alheios.

Fiquem também com a versão da coitada.

Da vítima permanente.

Da mulher incapaz.

Da ingénua.

Da burra.

Da que não percebe.

Da que nunca ouviu.

Da que não nota.

Da que precisava de ser conduzida porque, alegadamente, lhe faltava discernimento para caminhar sozinha.

Confesso que essa sempre me despertou alguma curiosidade.

É extraordinário como algumas pessoas conseguem atribuir tanta falta de inteligência precisamente à pessoa cuja inteligência sentem necessidade de descredibilizar.

Fiquem ainda com a versão da problemática.

Da mentirosa.

Da instável.

Da que procurava desesperadamente aceitação.

Da que queria ser aquilo que nunca foi.

Da que precisava de pertencer.

Da convertida.

Esta última continua a fazer-me sorrir.

Há narrativas cuja criatividade merece, pelo menos, reconhecimento literário.

Também podem conservar todas as restantes.

As que nasceram em mensagens privadas.

Em correios electrónicos.

Em conversas discretas.

Em reuniões informais.

Em corredores.

Em telefonemas.

Em confidências cuidadosamente seleccionadas.

Não faço questão de as conhecer.

Nem de as desmontar uma por uma.

Porque existe uma diferença fundamental entre a verdade e a narrativa.

A verdade não necessita de manutenção permanente.

A narrativa exige actualizações constantes para sobreviver.

Sempre me intrigou a facilidade com que determinados grupos necessitam de construir personagens para manter intacta a coerência das suas próprias histórias.

Quando os factos incomodam, inventam-se intenções.

Quando a realidade não confirma a conclusão, altera-se a interpretação da realidade.

Quando alguém deixa de caber na personagem que lhe foi atribuída, torna-se mais fácil preservar a personagem do que rever as próprias convicções.

É um mecanismo profundamente humano.

Mas não deixa de ser intelectualmente desonesto.

Talvez porque admitir que nos enganámos exige uma coragem que nem todos estão dispostos a exercer.

É muito mais confortável proteger uma narrativa do que corrigir uma convicção.

E, por vezes, é mais fácil sacrificar uma pessoa do que uma crença.

Durante muito tempo perguntaram-me, directa ou indirectamente, porque saí de determinados lugares.

A resposta nunca foi dramática.

Nem heroica.

É extraordinariamente simples.

Sempre que percebi que a minha presença deixava de contribuir para o bem comum, que criava constrangimentos, que servia de pretexto para divisões ou impedia o funcionamento sereno de um projecto, retirei-me.

Não por derrota.

Mas por responsabilidade.

Há quem permaneça para vencer.

Eu aprendi que, por vezes, a maior demonstração de maturidade é saber sair.

Não precisava de ocupar espaço onde outros acreditavam que eu era o problema.

Nem precisava de disputar afectos, funções ou legitimidades.

Nunca tive essa ambição.

Porque uma consciência tranquila não necessita de vencer todos os debates.

Necessita apenas de permanecer coerente consigo própria.

Com o tempo compreendi outra coisa.

As versões que os outros criam sobre nós dizem muito menos sobre quem somos do que sobre as necessidades de quem as constrói.

Cada pessoa olha para o outro através da arquitectura da sua própria consciência.

Não observa apenas.

Interpreta.

Projecta.

Selecciona.

Confirma aquilo em que já decidiu acreditar.

Por isso, duas pessoas podem olhar para a mesma realidade e sair dela com histórias completamente diferentes.

Não porque a verdade tenha mudado.

Mas porque cada uma levou consigo um olhar diferente.

Foi talvez a descoberta mais libertadora da minha vida.

Perceber que nunca tive o poder de controlar a imaginação alheia.

Nem devo querer tê-lo.

Porque quem precisa de inventar uma versão de mim para preservar a paz consigo próprio dificilmente a abandonará apenas porque lhe apresente argumentos.

As convicções emocionais raramente cedem perante demonstrações racionais.

Foi então que deixei de desperdiçar energia.

Já não sinto necessidade de explicar cada silêncio.

Nem cada ausência.

Nem cada decisão.

Nem cada partida.

A maturidade ensina-nos que nem toda a acusação merece defesa.

Nem toda a incompreensão exige esclarecimento.

Nem toda a difamação merece resposta.

Há batalhas que se vencem precisamente porque escolhemos não entrar nelas.

Hoje compreendo que a minha identidade nunca esteve depositada naquilo que os outros disseram sobre mim.

Nem nas expectativas que tinham para a minha vida.

Nem nas personagens que precisavam que eu representasse.

A minha identidade começou a regressar no dia em que deixei de pedir autorização para ser quem sempre fui.

Foi um regresso silencioso.

Sem anúncios.

Sem discursos.

Sem necessidade de convencer ninguém.

Regressei a mim.

E, curiosamente, foi nesse dia que todas as versões perderam importância.

Porque quem finalmente habita a própria verdade deixa de viver prisioneira das narrativas alheias.

Por isso, sinceramente...

Fiquem com todas as versões que precisarem.

Guardem-nas.

Protejam-nas.

Repitam-nas, se isso vos oferecer tranquilidade.

Eu já não vivo dentro delas.

Voltei para um lugar muito mais difícil de destruir.

Voltei para mim.

E esse é o único lugar onde nunca mais permitirei que alguém escreva a minha história por mim.

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Nota da Autora

Há textos que escrevemos para convencer alguém.

E há textos que escrevemos porque, se não o fizermos, ficamos incompletos.

Este pertence à segunda categoria.

Nunca foi uma resposta. Nunca foi uma tentativa de corrigir versões, desmontar narrativas ou recuperar lugares. Quando o escrevi, já não esperava compreensão. E talvez tenha sido precisamente essa liberdade que lhe deu esta serenidade.

Hoje leio-o de forma diferente. Não porque tenha mudado de opinião, mas porque já não sinto necessidade de ser explicada. Com o tempo compreendi uma verdade simples: cada pessoa tem direito à história que decide contar sobre mim. Eu também tenho o direito de não viver dentro dela.

Este texto não nasce da revolta. Nasce do regresso.

Do momento em que deixamos de discutir espelhos deformados e voltamos a habitar a nossa própria consciência.

Há uma paz muito particular em perceber que não precisamos de vencer nenhuma narrativa para permanecermos inteiros. A verdade não se impõe; limita-se a existir. E quem vive reconciliado consigo próprio deixa de sentir urgência em administrar a imaginação alheia.

Se alguém ainda precisar de uma personagem para sustentar a sua versão dos acontecimentos, desejo-lhe sinceramente que um dia deixe de precisar. Não por mim, mas porque viver preso às histórias que construímos sobre os outros também é uma forma de prisão.

Quanto a mim, continuo exatamente onde este texto termina.

Não regressei a um lugar.

Regressei a mim.

E descobri que há uma liberdade que ninguém nos pode retirar: a de sermos fiéis à nossa consciência, mesmo quando o mundo prefere outra versão de nós. Essa fidelidade custa, por vezes. Mas dorme em paz. E, para mim, isso basta.

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