"As Borboletas Têm Prazo de Validade"
Vivemos numa época curiosa.
Uma época que transformou a paixão numa religião, as emoções em oráculos e as borboletas no estômago numa espécie de certificado oficial de compatibilidade amorosa.
Conheço a teoria.
Olhou.
Sorriu.
Sentiu um arrepio.
O universo alinhou os planetas.
Tocou uma música qualquer ao fundo.
Fim da história.
Ou melhor: início do equívoco.
Porque a verdade é bem menos cinematográfica e muito mais interessante.
A atração aproxima.
A química aproxima ainda mais.
Mas nenhuma delas sabe construir uma vida.
A química cria proximidade.
A maturidade cria permanência.
E são coisas radicalmente diferentes.
A atração é um acontecimento.
O amor é uma decisão.
A paixão aparece sem pedir autorização.
O compromisso exige trabalho, consciência e uma quantidade surpreendente de paciência que raramente aparece nos filmes românticos.
Aliás, se os relacionamentos dependessem apenas das famosas borboletas na barriga, a humanidade teria sido extinta há séculos por excesso de entomologia emocional.
As borboletas são encantadoras.
Mas têm uma esperança média de vida pouco recomendável para projectos de longo prazo.
O que sustenta uma relação não é o encantamento inicial.
É aquilo que acontece quando o encantamento deixa de ser novidade.
É aí que começa a parte séria.
E a parte séria raramente recebe a atenção que merece.
Porque não é particularmente glamorosa.
Consiste em conversar quando seria mais fácil afastar-se.
Consiste em ouvir quando se prefere responder.
Consiste em respeitar quando o ego exige vitória.
Consiste em permanecer quando a novidade já não produz fogos de artifício emocionais.
O curioso é que muitas pessoas procuram sorte no amor.
Como se o amor fosse uma lotaria sentimental organizada pelo destino.
Como se algumas pessoas fossem contempladas com um prémio afectivo e outras recebessem apenas bilhetes sem sorte.
Nunca acreditei muito nisso.
Acredito mais em escolhas.
Escolhas repetidas.
Escolhas conscientes.
Escolhas feitas nos dias bons e, sobretudo, nos dias difíceis.
Porque amar alguém não é apenas sentir algo.
É decidir o que fazer com aquilo que se sente.
E essa decisão renova-se diariamente.
Há ainda outra questão que raramente é discutida.
Muitas pessoas escolhem relacionamentos a partir das suas feridas.
Não da sua consciência.
Não da sua maturidade.
Não daquilo que realmente precisam.
Mas das ausências, inseguranças e carências que carregam.
E as feridas, apesar de serem excelentes professoras, são péssimas conselheiras amorosas.
Uma ferida procura sobrevivência.
A consciência procura equilíbrio.
Uma ferida procura compensação.
A consciência procura construção.
Talvez por isso a inteligência emocional seja uma das formas mais sofisticadas de amor.
Não porque elimine os conflitos.
Mas porque ensina a distingui-los dos fantasmas.
Ensina a perceber quando estamos a responder à pessoa que está diante de nós e quando estamos apenas a reagir a dores antigas disfarçadas de presente.
Com o tempo aprendi algo simples.
Não desejo sorte no amor.
Desejo lucidez.
Não desejo intensidade permanente.
Desejo consistência.
Não desejo promessas grandiosas.
Desejo carácter.
Porque a paixão une.
A atração aproxima.
A química entusiasma.
Mas é a maturidade que permanece sentada à mesa quando a festa termina.
É a paciência que continua a construir quando o entusiasmo abranda.
É o respeito que permanece quando a idealização desaparece.
E é a escolha consciente que transforma dois indivíduos imperfeitos numa equipa.
Por isso, hoje, o que desejo para mim e para quem lê estas palavras não é sorte.
A sorte é caprichosa.
A consciência não.
Desejo relações construídas por pessoas que saibam sentir, mas que saibam também pensar.
Pessoas capazes de amar sem se perderem.
De escolher sem projectarem as suas feridas.
De permanecer sem se anularem.
Porque o amor mais raro não é aquele que começa.
É aquele que, anos depois, continua a escolher ficar.
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