"Eu Já Fui Essa Mulher"

Eu já fui essa mulher.

Aquela que acreditava que amar significava estar sempre disponível.

Aquela que respondia antes de ser chamada.

Que antecipava necessidades.

Que resolvia problemas que ninguém lhe tinha pedido para resolver.

Que carregava pesos que não lhe pertenciam, convencida de que a força consistia precisamente em nunca deixar cair nada.

Durante muito tempo, senti orgulho nisso.

E compreendo porquê.

Vivemos numa cultura que elogia a mulher que se sacrifica, mas raramente ensina a mulher a existir para além da utilidade que oferece.

Aprendemos cedo a cuidar.

A acolher.

A organizar.

A pacificar conflitos.

A estar presentes.

Aprendemos a reconhecer o cansaço dos outros antes de sabermos identificar o nosso.

Aprendemos a ouvir, mas poucas vezes fomos ensinadas a escutar aquilo que, silenciosamente, gritava dentro de nós.

Sem percebermos, confundimos disponibilidade com amor.

Renúncia com generosidade.

Exaustão com virtude.

E o mais inquietante é que ninguém nos obriga.

Vamos aprendendo.

Pela observação.

Pelo elogio.

Pela expectativa.

Pelas pequenas recompensas sociais atribuídas à mulher que nunca incomoda, nunca pede demasiado, nunca falha e parece conseguir sustentar o mundo inteiro sem vacilar.

É uma aprendizagem subtil.

Quase invisível.

Mas profundamente eficaz.

Um dia deixamos de escolher cuidar.

Passamos simplesmente a acreditar que cuidar de todos é a nossa identidade.

E é aí que o problema começa.

Porque toda a identidade construída exclusivamente em função do outro acaba, inevitavelmente, por expulsar-nos de nós próprias.

Começamos a viver em permanente adiamento.

Primeiro as contas.

Depois os filhos.

Depois o companheiro.

Depois os pais.

Depois o trabalho.

Depois as responsabilidades.

Depois os imprevistos.

Depois os amigos.

Depois as urgências.

Depois...

Sempre depois.

A palavra "depois" torna-se um lugar onde enterramos discretamente a nossa própria existência.

Depois descanso.

Depois faço aquele exame.

Depois volto a ler.

Depois volto a caminhar.

Depois volto a rir.

Depois compro aquilo de que preciso.

Depois penso em mim.

Mas há uma tragédia silenciosa escondida nessa palavra.

O "depois" raramente chega.

Porque a vida possui uma extraordinária capacidade para produzir novas urgências.

E quem vive exclusivamente para responder ao que é urgente acaba por nunca chegar ao que é essencial.

Entretanto, o corpo começa a falar uma linguagem que durante anos ignorámos.

Não porque queira trair-nos.

Mas porque já não encontra outra forma de ser ouvido.

Surge um cansaço que o sono não resolve.

Uma tristeza sem nome.

Uma irritabilidade inesperada.

Uma dificuldade crescente em sentir alegria.

Uma sensação persistente de vazio, mesmo nos dias aparentemente felizes.

E então chega o julgamento.

"Desta vez exagerou."

"Anda nervosa."

"Está demasiado sensível."

"Perdeu o equilíbrio."

Talvez.

Mas talvez estejamos apenas a assistir ao momento em que uma mulher deixou de conseguir sobreviver ao abandono sistemático de si própria.

Há um erro profundamente humano que cometemos quando olhamos para quem colapsa.

Observamos o momento da queda e esquecemos as décadas de sustentação.

Vemos a lágrima.

Não vemos os anos em que ela foi engolida.

Vemos a irritação.

Não vemos todas as vezes em que a paciência substituiu a verdade.

Vemos o esgotamento.

Não vemos a quantidade de vida que foi continuamente oferecida sem nunca ser reposta.

Nenhum ser humano vive indefinidamente em regime de doação absoluta.

A natureza não funciona assim.

A respiração alterna entre inspirar e expirar.

O coração alterna entre contrair e relaxar.

As estações alternam entre abundância e repouso.

Até a terra precisa de períodos de pousio para voltar a produzir.

Mas nós exigimos às mulheres aquilo que não exigimos à própria natureza.

Que deem sem cessar.

Que acolham sem limite.

Que compreendam sempre.

Que suportem tudo.

Que permaneçam inteiras depois de anos a distribuírem partes de si por todos os lugares onde alguém precisou delas.

É uma expectativa impossível.

E, no entanto, profundamente normalizada.

Foi preciso chegar ao meu próprio limite para compreender uma verdade desconfortável.

Eu não estava apenas cansada.

Estava ausente de mim.

Continuava funcional.

Continuava responsável.

Continuava presente para toda a gente.

Mas já não habitava verdadeiramente a minha própria vida.

Sobrevivia.

E sobreviver nunca foi sinónimo de viver.

Foi então que percebi que cuidar de mim não significava amar menos os outros.

Significava deixar de me abandonar.

Existe uma diferença ética entre generosidade e autoanulação.

A primeira nasce da liberdade.

A segunda nasce, muitas vezes, da crença de que só temos valor enquanto somos indispensáveis.

Mas nenhuma mulher nasceu para provar diariamente o seu valor através do esgotamento.

Nenhuma dignidade depende da capacidade de suportar mais sofrimento do que o corpo e a alma conseguem carregar.

Hoje continuo a cuidar.

Continuo a amar profundamente.

Continuo a servir quando faz sentido.

Mas deixei de acreditar que o amor exige o desaparecimento de quem ama.

O amor que destrói sistematicamente quem o oferece deixou de ser cuidado; tornou-se uma forma sofisticada de abandono.

E aprendi, talvez a mais difícil de todas as lições, que também eu fazia parte da humanidade que tanto me esforçava por proteger.

Também eu precisava de descanso.

Também eu precisava de escuta.

Também eu precisava de ternura.

Também eu precisava de tempo.

Porque uma mulher não existe para ser apenas o lugar onde todos encontram abrigo.

Ela também precisa de um lugar onde possa repousar.

Sem culpa.

Sem justificações.

Sem sentir que está a falhar alguém por finalmente escolher não falhar a si própria.

Talvez seja esta a forma mais madura de amor.

Não aquela que nos ensina a morrer lentamente pelos outros.

Mas aquela que nos permite permanecer vivas o suficiente para continuar a amar, sem deixar de existir.

E foi nesse dia que compreendi algo que ninguém me tinha ensinado:

a mulher que cuida de si não se torna menos generosa.

Torna-se, finalmente, inteira.

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